Combustível sustentável de aviação cobrirá apenas 19% da demanda até 2028

Combustível sustentável de aviação cobrirá apenas 19% da demanda até 2028

O apoio financeiro das companhias aéreas a projetos para a produção de combustível sustentável de avião (chamado SAF) tem sido avaliado pelo setor como uma das alternativas para acelerar a produção do insumo, que caminha a passos lentos. A possibilidade foi apontada nesta terça-feira por Willie Walsh, diretor-geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) em Istambul, na Turquia.

O combustível sustentável é um dos principais pilares estratégicos do setor aéreo para se tornar neutro na emissão líquida de carbono até 2050. O problema é encontrá-lo.

A produção de SAF deve atingir 69 bilhões de litros até 2028, estima a Iata. O número representa um salto importante em relação à produção de 2022, de cerca de 300 milhões de litros. Mas o cenário no médio prazo é desanimador, uma vez que a estimativa para 2028 representa só 19% dos 363 bilhões de litros de combustível consumidos pelo setor aéreo em 2019 — último ano com operação normal antes da pandemia.

Para a Iata, a produção deveria ser incentivada por governos. Mas a forte demanda da indústria tem levado até aéreas a investirem do próprio bolso para incentivar a demanda — caso da americana United, que criou um fundo para apoiar o segmento e com outros grupos levantou cerca de US$ 100 milhões.

“Quando falamos com pessoas interessadas em produzir SAF, o grande desafio é financiar”, disse Walsh. O cenário abre possibilidade de as aéreas tirarem dinheiro do bolso, ou participar em uma escala menor do projeto.

“O que as aéreas conseguem fazer também é uma associação de marca ao projeto. Podemos dar algum equity e a aérea iria até os bancos e investidores e buscariam apoio financeiro”, acrescentou.

O plano pode ser uma alternativa para a América Latina, apontada como um dos principais players do futuro na produção de SAF, mas que até hoje não o produz. O Brasil é referência em biocombustível com o etanol, mas a primeira unidade a produzir o combustível está sendo estruturada em Manaus e só deve entregar SAF em 2025. No Paraguai, a produção deve começar em 2024.

A entrada das aéreas, seja com dinheiro ou via marca, pode ajudar a fomentar o desenvolvimento da indústria de SAF, pois as sinalizações dadas pelas aéreas sobre interesse em comprar não têm surtindo efeito para criar a oferta na velocidade esperada. A Latam fez um compromisso público de que até 2030 um total de 5% do seu consumo de combustível será composto por SAF.

Paralelamente, Walsh reforçou a importância de apoio dos governos para que o mercado se desenvolva. Mas ele mesmo reconheceu que nem todos os países tem o poder financeiro de investir como os Estados Unidos, hoje o principal produtor.

“Temos instrumentos que podem ser usados também para o SAF”, argumentou o executivo ao citar como exemplo mecanismos usados por governos para apoiar a infraestrutura. “Não estamos pedindo nada novo. Hoje, há suporte para a as energias limpas [como solar]. Qual a diferença? Queremos apenas ter o mesmo.”

Segundo a Iata, há mais de 130 projetos de novas unidades produtoras de SAF sendo tocados por 85 grupos em 30 países. Normalmente, há um intervalo de três a cinco anos entre o anúncio do projeto e a data de comercialização.

A indústria aérea global tem meta de chegar a 2050 com uma emissão líquida zero de carbono; o SAF representará 62% da mitigação de emissão necessária até lá.

De acordo com a Iata, ainda há necessidade de estímulo a estudos para uma diversificação da matéria-prima usada na produção de SAF. A estimativa é que 85% do volume futuro de SAF nos próximos cinco anos seja derivado de ésteres de ácidos graxos, que depende da disponibilidade limitada de matéria-prima, como resíduos de gordura, óleo e graxa.

O SAF pode ser produzido a partir de excedentes florestais e resíduos agrícolas, resíduos sólidos urbanos, resíduos alimentares e resíduos úmidos (matérias-primas de terceira geração) — há, inclusive, projetos para usar a cana-de-açúcar. Segundo a associação, produzir SAF a partir destas outras matérias-primas pode criar oportunidades de retorno de investimento de longo prazo para os governos, com o potencial de financiar a limpeza do meio ambiente.

 

Valor Econômico (06/06)