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A Algae transforma resíduos urbanos (esgoto!) em fertilizante e ainda lucra com isso

O engenheiro agrônomo Sergio Goldemberg, 55, fundador e CEO da Algae Biotecnologia, que desenvolve soluções tecnológicas a partir de microalgas, desculpa-se ao se definir como “um velho dinossauro”, antes de criticar parte da atual geração de empreendedores.

Buscando ser coerente com o que diz, ele decidiu agir em algo bem bruto, digamos. Em 2009, saiu de sua zona de conforto e área de atuação profissional por mais de 20 anos — a irrigação agrícola — para fundar a startup de biotecnologia (com o investimento de 500 mil reais). Na Algae, ele e um time de pesquisadores brasileiros desenvolveram um sistema de cultivo de microalgas Chlorophyceae que, ao tratar resíduos industriais (gasosos ou líquidos) e urbanos (entenda-se esgoto), produz fertilizantes orgânicos.

O time fez desde o estudo e adaptação das cepas (colônias de espécies cultivadas para pesquisa) até a criação do fotobioreator híbrido, no qual as microalgas se reproduzem e as “sobras” das indústrias podem ser transformadas em coprodutos. “Nós pegamos o que é considerado resíduo ou efluente e entregamos matérias-primas para o setor agrícola, uma característica bastante única, mesmo quando comparada a iniciativas internacionais”, diz.

As duas principais fontes de faturamento da Algae, que deve chegar a 1 milhão de reais este ano, são: prestação de serviços de tratamento de efluentes utilizando microalgas (60% da receita) e fabricação de fertilizantes orgânicos a base de microalgas (40% da receita).

A empresa tem uma unidade de produção de fertilizante em escala comercial em Holambra (SP), mas ainda com capacidade limitada a 1 000 litros por mês. Há planos para expandir a produção para 10 000 litros mensais dentro de 18 a 24 meses.

ALÉM DE FERTILIZANTES, OUTROS PLANOS PARA AS MICROALGAS

Sergio fala sobre a diferença entre microalgas e macroalgas, aquelas folhas que se vê na beira da praia. “Se você quer saber o que é macroalga vá até um restaurante japonês e coma um enroladinho de arroz e peixe (risos). São várias células que formam um tecido.” Já as microalgas são micro-organismos unicelulares e invisíveis a olho nu, que formam o plâncton, têm alta taxa de crescimento, fazem a captura do CO2, fixam o carbono e liberam oxigênio.

Elas já eram conhecidas da humanidade há tempos. Mas o empreendedor conta que “voltaram mesmo à moda” quando se procurava por alternativas de matéria-prima para o biodiesel e o conceito de economia circular ganhava força. Irresistível mencionar o hit de Jorge Ben Jor Spirogyra Story, música lançada em 1993, que conta a história de uma alga e ilustra bem a popularidade delas desde aquela época.

Muitas frentes de desenvolvimento foram abertas por Sergio na Algae. A primeira delas, de biocombustível, conduzida logo no começo da empreitada, se demonstrou tecnicamente viável, mas economicamente inviável. “Se amanhã o petróleo for para 120 dólares o barril, vai começar a bater gente na minha porta.” Atualmente, com o petróleo entre 60 e 80 dólares o barril, isso não tem acontecido, mas a tecnologia está em hibernação.

Um outro ensaio mais recente é a produção de biomassa para a nutrição de camarões, indústria forte no Nordeste. “Nosso foco é inserir microalga como insumo para a ração de camarão. Isso não é feito comercialmente ainda. Estamos em fase piloto”, afirma. Também está no no radar, a aplicação da tecnologia para saneamento básico, mas a proposta ainda carece de abertura das empresas públicas. “Vai demorar um pouquinho para isso acontecer, cerca de dois anos entre ter um interessado e transformar esse processo em larga escala. Mas se a gente conseguisse tratar 1% do esgoto, geraria tanto fertilizante nitrogenado e fosfatado que extrair da mina passaria a não ter mais sentido.” Enfim, por enquanto, o que está mesmo rodando é a produção dos fertilizantes orgânicos.

A DIFERENÇA ENTRE O QUE ELE PRODUZ E OS AGROTÓXICOS

Um ponto que costuma tirar o bom humor do CEO da Algae é o limiar, obscuro para os leigos, a respeito do uso de fertilizantes e dos famigerados agrotóxicos. Segundo Sergio, a nutrição das plantas, impulsionada pelos fertilizantes, pode ser comparada à alimentação de um atleta de alto rendimento, que sabe absolutamente tudo o que ingere. É um campo sofisticado, em que se pesa quantidade de aminoácidos, vitaminas e macronutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre) de cada solo e cultivo.

É válido falar da diferença entre um fertilizante de microalga e um fertilizante químico tradicional. Quando se coloca fertilizantes tradicionais como ureia (nitrogênio) ou sulfato de cálcio (enxofre e cálcio) no solo, ali só há aqueles elementos químicos. Sergio fala mais a respeito:
“Quando se usa um fertilizante de microalga, há um mix de compostos bioativos, bioestimulantes e imunoestimulantes. Por isso, não gosto de abordar questões de custos e preços”

E continua: “A gente não compara arroz com filet mignon”. Ainda nesta linha de raciocínio, ele afirma que o mercado não compra fertilizante, mas seus resultados e que o produtor rural brasileiro, cada vez mais informado, sabe fazer a conta. Sob o ponto de vista de aplicação, o fertilizante produzido pela Algae pode beneficiar todo tipo de cultura. “Tendo a caminhar para os setores que são menos comoditizados como hortifrúti, flores, café, laranja. Aos poucos, com o ganho de escala da produção, queremos migrar para as culturas anuais como a soja.”

No momento, Sergio prefere trabalhar com grandes empresas que usem seu insumo para fortalecer suas marcas, pois elas têm a expertise de sair para vender. Ele diz que a Algae está em negociação com importantes players do mercado para a formulação de fertilizantes especiais, mas por terem contrato de confidencialidade, não é possível citar nomes.

COMO TRAZER PARA O MUNDO EMPRESARIAL UM TEMA RESTRITO À ACADEMIA

Quando descobriu o mundo das microalgas, Sergio trabalhava em uma empresa de irrigação que tinha atividades industriais. Caiu no colo dele a tarefa de estudar potenciais insumos para fabricação de biodiesel porque era o começo do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel – PNPB, criado em 2004.

Ele já tinha fundado e vendido uma empresa, a Irricampo, e estava cansado da área. “Quando decidi abrir meu primeiro negócio, já tinha 13 anos de mercado de trabalho e sentia que minha experiência era suficiente para permitir que abrisse uma empresa.”

Ao se aprofundar no tema das microalgas, percebeu que precisaria de gente que entendesse do assunto. Descobriu Eduardo Jacob-Lopes, que até hoje é consultor na Algae. Na época (e ainda hoje), todas as iniciativas de estudo e aplicação de microalgas eram acadêmicas e não havia nada relacionado ao universo empresarial. Eduardo preferiu continuar na universidade, mas foi peça importante no início da empresa.

A Algae começou, efetivamente, porque o CEO participou do fórum New Ventures, organizado pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV. Como consequência da apresentação do projeto da Algae, foi contatado por um fundo de investimentos internacional, o Grupo Ecos. Mas em vez de receber um aporte direto, a Algae foi incubada dentro de uma outra empresa investida. “Me deram uma mesa e um pedaço de um laboratório. Fui unido com o Grupo Ecogel por intermédio do Grupo Ecos, que fica em Campinas (SP). Tinha de viajar todo dia até lá. Estava insatisfeito porque era uma vida horrorosa.”

Em 2014, quando o Grupo Ecogel foi vendido e não demonstrou mais interesse em ter a Algae sob seu guarda-chuva, a empresa continuou a operar investida, diretamente, pelo Grupo Ecos e dois outros private offices europeus. Assim que teve oportunidade de escalonar o piloto, Sergio transferiu a empresa para o parque tecnológico de Piracicaba (SP), onde conseguiu uma boa estrutura física para instalar a planta piloto. Em 2017, a empresa mudou-se para um terreno maior em Holambra, onde fizeram a ampliação.

O PROJETO FUTURO É TER UNIDADES MÓVEIS PARA TRATAR RESÍDUOS INDUSTRIAIS

Segundo Sergio, a história da Algae tem três fases bem distintas: “De 2009 a 2012, estávamos muito focados em P&D. Olhávamos para o nosso próprio umbigo e fomos muito criticados por termos pouca exposição de mercado”. Já em 2013, houve uma virada e a empresa fez uma parceria com a fábrica de cimentos InterCement para desenvolver o processo de tratamento de efluentes gasosos com biofixação de CO2 (ainda em andamento, com o objetivo de tornar a empresa carbono negativa).

O acordo forçou o empreendedor a montar a planta piloto e, em 2014, começou o segundo projeto, já encerrado, de tratamento de efluentes líquidos com a cervejaria Brasil Kirin (hoje Heineken). “De 2014 até 2017, a gente teve a segunda etapa da empresa que foi muito focada no desenvolvimento de processos de tratamento de efluentes por microalgas. E do ano passado para cá, passamos a focar no desenvolvimento de produtos e chegamos ao modelo para produção de fertilizantes especiais.”

Agora, está formatada a ideia da Algae construir, alocar nas empresas e fazer a exploração de unidades móveis, ou “plantas containeirizadas”, como prefere chamar Sergio. A proposta é produzir ensaios pilotos in loco em indústrias que queiram tratar os efluentes e transformá-los em fertilizante. “Demorou um pouco para a gente perceber que ninguém quer comprar unidades de tratamento de efluentes. Então, se a indústria chamar a gente para resolver um problema com nitrogênio e fósforo, nós investimos em uma planta modular, a indústria me paga por tonelada de efluente que eu tirar. O fertilizante produzido é meu e eu vendo.”

O ineditismo da iniciativa da Algae resume-se em dois fatores. Primeiro, não existem outras empresas envolvidas na produção de extrato de microalgas para fins agrícolas no Brasil. Segundo, também não existe quem utilize microalgas para tratamento de efluentes industriais. Há, contudo, vários importadores de cápsulas de microalgas (conhecidas como chlorella) para suplemento nutricional humano.

Sergio fala mais a respeito: “Não quisemos entrar na comercialização desses produtos importados. Tem um monte de produtores disso na China e Japão, de todos os níveis de qualidade. Muitas vezes, esses produtos vêm cheios de metais pesados. Preferimos fazer todo o desenvolvimento para produzir, em breve, aqui no Brasil, porque daí sabemos de onde vem a matéria-prima.”

A opinião de Sergio, externada no início da reportagem, sobre a utilidade de criar startups que resolvam as “necessidades reais do mundo”, é mais que um desabafo. É uma tentativa, como fala, de abrir os olhos das pessoas para como transformar demandas urgente em um bom investimento financeiro. E é isso o que ele vem tentando fazer com as microalgas. Afinal, como diria o químico Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.


Fonte: Projeto Draft