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A civilização do açúcar: características singulares estruturam as políticas no Brasil

Postado em 10 de Janeiro de 2020

No Nordeste, a história da cana-de-açúcar começa em 1535, quando Duarte da Costa instala os primeiros canaviais na capitania de Pernambuco e Jerônimo de Albuquerque funda o primeiro engenho da região, em Nossa Senhora da Ajuda, nas proximidades de Olinda.

As condições de luz e solo, aliadas à distância mais curta da Europa e ao regime favorável de ventos, fundamental para a navegação, favoreceram o surgimento de outro centro açucareiro, ponto de encontro de diversos grupos mercantis. A formação de vilas e cidades, a defesa do território, a repartição de terras, o trato com os indígenas, as relações entre as várias categorias sociais, enfim, todas as instâncias da vida colonial delinearam-se a partir do açúcar.

“Chamei de ‘a civilização do açúcar’, que tem como características a grande propriedade, a produção predominantemente de exportação e uma sociedade polarizada, com uma massa de população livre muito significativa”, afirma a professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), Vera Lucia Amaral Ferlini.

No século 19, esses homens livres, que se colocavam a serviço dos grandes proprietários, são fundamentais na criação das estruturas políticas do Brasil independente. “O açúcar vai cristalizar a base dessa elite”, afirma Vera Lucia.

O café impulsiona o novo mercado

Em São Paulo, a riqueza herdada do café, a mão-de-obra imigrante e uma eficiente rede de transporte, que reduzia os custos de distribuição, permitiram que os paulistas modernizassem a produção de açúcar. Os Engenhos Centrais, que eram subsidiados, não podiam utilizar mão-de-obra escrava e recebiam cana-de-açúcar de lavradores, como se fossem terceirizados. Muitos fazendeiros passaram a arrendar suas terras.

“Em São Paulo, o açúcar vai criando, gradativamente, uma organização mais racional, com cabeça de empresário. Talvez, e isso é uma hipótese muito pessoal, isso tenha contribuído para criar uma elite menos patriarcal e mais aburguesada”, conjectura Vera Lucia Ferlini.

Nos anos 1950, o centro gravitacional da indústria canavieira mudou definitivamente: enquanto no Nordeste as usinas mais obsoletas apagavam suas caldeiras, no Centro-Sul, a produção aumentava consideravelmente a cada safra. Cenário que se mantém até hoje.

Curiosidade: Bom Jesus da Cana Verde

No livro “A Civilização do Açúcar”, a professora Vera Lucia Ferlini conta que as festas e cerimônias religiosas uniam o mundo do açúcar. A missa dominical levava às capelas dos engenhos a população das lavouras mais próximas. Os dias santos multiplicavam-se ao ano, propiciando novos encontros e uma missa solene, seguida de bênção das instalações e da introdução simbólica de feixes na moenda. Conhecido como dia do Bom Jesus da Cana Verde, 6 de agosto marcava o início da safra na época e era festejado em inúmeras localidades. Em todas essas comemorações, terminada a cerimônia religiosa, iniciavam-se os banquetes, com danças e cantos.

Aguarde os próximos capítulos! Enquanto isso, confira as reportagens anteriores dessa série:

 


Fonte: Copersucar