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A elite do açúcar em decadência

As usinas estão quebradas. Os usineiros vão muito bem, obrigado – como sempre estiveram. Graças ao jornalista Davi Soares, do site Diário do Poder, sabemos agora que sete usinas da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas formalizaram o pedido de recuperação judicial. É uma tentativa de escapar da iminente falência. Os empresários não têm como honrar o pagamento de dívidas de toda ordem, incluindo fornecedores de cana que alugam suas terras para o plantio. Os mais prejudicados são pequenos proprietário rurais, que não sabem quando vão receber.

Mas essa crise está longe de ser algo repentino. A decadência começou muitos anos atrás, primeiro fechando várias usinas que não integravam a poderosa cooperativa. A verdade é que essas empresas nunca foram exemplo de boa gestão de negócios. Sempre viveram sob as mamatas do poder político, recebendo todo tipo de subsídio e empurrando o prejuízo para os cofres públicos. Para ficar num único exemplo do que digo, pense no Banco do Estado de Alagoas, o famoso Produban. Se as coisas fossem sérias por aqui, usineiros teriam sido presos. Foram eles que quebraram o banco.

Já a cooperativa, que agora tenta a recuperação judicial, foi durante décadas o grupo de empresas mais rico do estado. Mas também abusou da gestão temerária, financiando campanhas eleitorais milionárias e, internamente, criando todo tipo de benesse para seus diretores. Os salários batiam no céu, as passagens aéreas nunca faltavam ao longo do ano e a remuneração extra era uma prática consagrada. Executivos da cooperativa sempre se portaram como verdadeiros rajás, num mundo paralelo de luxo, ostentação e poder descomunal. Pararam no tempo. A conta finalmente chegou.

Há pelo menos cinco anos, ou um pouco mais talvez, a cooperativa tomou pé do rombo em sua contabilidade. Resultado: começaram as demissões, a redução de salários e a extinção das absurdas regalias. Alguns funcionários tiveram a remuneração rebaixada e foram autorizados a trabalhar em casa. Diretores no topo da empresa que continuavam gastando a rodo foram afastados. Nessa fase de cortes agudos, a cooperativa viveu uma guerra de poder entre seus chefões. Houve momentos de tensão e, em algumas ocasiões, não faltaram ameaças entre os herdeiros de engenho.

Exemplo do que há de mais reacionário na vida brasileira, essa é a nossa elite econômica, muitas vezes truculenta e sempre ignorante. A cana-de-açúcar é o símbolo máximo da exploração do segmento mais pobre da população, especialmente no Nordeste. Pela força, com a conivência do poder público, usinas impuseram jornadas de trabalho desumanas, em condições degradantes. Fala-se hoje em trabalho escravo? Até um dia desses isso era pura realidade nos canaviais.

Que esses senhores não venham posar de vítimas desse ou daquele governo. Os fatos provam que isso é uma falácia – aliás, uma velha falácia, sempre usada justamente para meter a mão em recursos de qualquer governo. A vitimização, além de uma mentira factual, seria uma afronta ao povo. Espera-se que paguem suas contas, dentro da lei, sem os criminosos privilégios que sempre tiveram


Fonte: Blog do Celio Gomes - Site Cada Minuto, (27/10)