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A hora e a vez do milho

Com demanda crescente e um mercado cada vez mais estruturado, o grão sai da condição de coadjuvante para entrar de vez na agenda do produtor

Portanto, é isso que nós somos: milho processado, ambulante”. Assim, o escritor americano Michael Pollan termina um dos capítulos do seu livro o “O dilema do onívoro”, obra que traça uma espécie de genealogia do que vai para a mesa em seu país. Os Estados Unidos são os maiores produtores mundiais de milho, com 366,3 milhões de toneladas previstas para a safra 2018/2019. Em seguida, está a China, com 257,3 milhões de toneladas. O Brasil aparece na terceira posição entre os maiores produtores globais, mas não chegou aos três dígitos. Para a safra corrente, serão 82 milhões de toneladas. 

Os dados são do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda, na sigla em inglês). Embora haja divergência de expectativas em relação ao que aponta a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que prevê 92,8 milhões de toneladas, e também de várias consultorias que acompanham o mercado e apostam em volumes até maiores, um fato é incontestável: enquanto americanos e chineses vão colher menos grãos nesta safra, com uma queda da ordem de 1,3% e 0,7%, respectivamente, a colheita brasileira de milho deve crescer 15,2% neste ciclo, segundo o Usda. “Na última década, o milho ganhou espaço, porque é uma cultura que se encaixa bem para que o produtor aproveite o potencial de sua área”, diz Cleiton Gauer, gestor técnico do Instituto Mato-grossense de Economia Aplicada (Imea). “No caso de Mato Grosso, principalmente se o produtor antecipa a safra de soja.” O Estado deve produzir 29,3 milhões de toneladas, 11% acima do ciclo passado.

O movimento atual vem da última década, período no qual o Brasil mudou a configuração da commodity em sua cesta de produtos do agronegócio. Foi a partir da safra 2011/2012 que o País colocou o pé, definitivamente, no mercado global do grão, ao cobrir a demanda que os americanos não foram capazes de suprir. Naquele ano, uma seca feroz fez a produção dos EUA despencar de 375,7 milhões de toneladas para 274 milhões. Tom Vilsack, à época secretário de Agricultura dos Estados Unidos, disse: “Se houvesse uma oração ou uma dança para fazer chover, eu faria”. Não choveu. O Brasil, então, que sempre havia exportado abaixo de 10 milhões de toneladas ou muito próximo desse volume, exportou 19,7 milhões de toneladas em 2012. Vendeu até para países reticentes em comprar o produto brasileiro, como o Japão, por exemplo. E as exportações não pararam mais de crescer. No ano passado, foram 23,5 milhões de toneIadas, vendidas por US$ 4 bilhões. “O mercado de milho mudou muito na última década”, diz o agrônomo Thomé Guth, analista de mercado da Conab. “Desse tempo para cá, nem em anos de quebra de safra no Brasil exportamos menos do que 20 milhões de toneladas.”

O mercado global de exportação de milho está previsto em 167 milhões de toneladas na safra 2018/2019, um crescimento de 14% em relação à safra passada, de acordo com o mais recente relatório divulgado pelo Usda, em março. A previsão é de que o Brasil exporte 29 milhões de toneladas na safra 2018/2019, volume 14,2% a mais do que na safra passada. Briga, em pé de igualdade, com os seus dois principais concorrentes: a Argentina, que deve vender no mercado mundial 30 milhões de toneladas, e a Ucrânia com o mesmo volume brasileiro, de 29 milhões de toneladas. Já os americanos, os maiores exportadores globais, devem vender 60,3 milhões de toneladas, uma queda de 1,6 milhão de toneladas ante a safra passada. Para registro, no ano da grande seca, a venda externa dos americanos caiu à metade do atual volume exportado.

No Brasil, embora a China tenha se tornado o principal cliente da soja e também tenha comprado muito milho, nos últimos ciclos o gigante asiático não aparece como o maior demandante do cereal. Isso porque o País ganhou outros grandes clientes, diversificando o leque. Hoje, sete países compram mais de 1 milhão de toneladas por safra, cada um. No ano passado, o maior comprador foi o Irã, com 6,4 milhões de toneladas por US$ 1,1 bilhão, seguido pelo Vietnã, com 3 milhões de toneladas, por US$ 516 milhões. A maior parte dessas compras, cerca de 80%, tem sido destinada à produção de ração animal, principalmente para aves e suínos.

Bioenergia no tanque

Mas não é só isso que justifica o atual mercado sustentável para a commodity. As exportações são grandes, mas hoje já não respondem sozinhas pelo apetite dos produtores pelo cultivo do milho. A Conab prevê um consumo interno da ordem de 60 milhões de toneladas, mas há números além. O Cepea/USP, por exemplo, estima em 62,5 milhões de toneladas, elevação de 4,4% em relação à temporada anterior. “Além da exportação, há o etanol de milho, que é um mercado novo e crescendo muito rapidamente”, diz Guth.

Para Gauer, do Imea, a industrialização do cereal vem provocando um sentimento de segurança no produtor. “Nos últimos três anos, isso tem sido bastante nítido”, diz ele. “As compras antecipadas pela indústria do etanol, que neste ano já estão acontecendo, são um bom indicativo.” Em Mato Grosso, o milho da segunda safra começa a ser colhido em junho.

NOVAS USINAS 

De acordo com a consultoria INTL FCStone, a produção brasileira de etanol de milho está entrando na casa de 1 bilhão de litros por ano. Isso é inédito no País. E Mato Grosso vem tendo um papel de destaque. O Centro-Oeste deve responder por boa parte da demanda de milho para processar etanol, um mercado crescente. Até o final da próxima década, a expectativa é de que a produção nacional chegue a 20 bilhões de litros anuais. A produção de etanol a partir da cana-de-açúcar é estimada em 32,3 bilhões de litros na safra 2018/2019, volume 18,6% acima do ciclo anterior.

Não por acaso, no mês passado a FS Bioenergia, que pertence à brasileira Tapajós Participações e ao americano Summit Agricultural Group, anunciou a construção de três usinas que serão utilizadas exclusivamente para a produção de etanol de milho, em Mato Grosso. A primeira delas começará a ser construída no próximo mês, no município de Nova Mutum, com investimentos de R$ 1 bilhão. As duas outras usinas serão erguidas nos municípios de Campo Novo do Parecis e Primavera do Leste. Em 2017, a empresa já havia inaugurado sua primeira usina exclusiva para etanol de milho, a um custo de R$ 450 milhões. No fim do ano passado, a unidade foi expandida. Até o projeto da FS Bioenergia, havia usinas de etanol de milho no Estado, mas apenas as chamadas “usinas flex”. Como a Usimat, no município de Campos de Júlio, por exemplo, que processa cana-de-açúcar na safra e milho na entressafra.

No Estado, há outros cinco projetos de usinas exclusivas para etanol de milho a ser implementados e outros sete projetos em estudo. Atualmente, o consumo interno de milho em Mato Grosso é de cerca de 4 milhões de toneladas, próximo de 13% da produção. As usinas de etanol demandam praticamente metade de todo esse volume. Nas três usinas anunciadas pela FS Bionergia, a demanda será de 1 milhão de toneladas cada, por ano. Quando as cinco usinas estiverem em operação, a capacidade para processar etanol será de 2,6 bilhões de litros por ano. “A FS Bioenergia será uma das três maiores empresas de etanol do nosso País”, destaca Rafael Abud, CEO da FS Bioenergia. A Raízen – uma parceria da americana Shell com a Cosan, do empresário Rubens Ometto – é outro gigante do setor, com produção de 2 bilhões de etanol de cana por ano.

Por Vera Ondei

 


Fonte: Revista Dinheiro Rural