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A quarta revolução industrial já começou - Por Juliano Augusto de Oliveira

Postado em 6 de Setembro de 2019

A quarta onda da evolução da indústria é muito mais do que simplesmente atualizar tecnologias ou substituir equipamentos obsoletos, a verdadeira revolução está em como utilizar o conhecimento, a comunicação e os dados gerados nos processos industriais como uma alternativa mais consistente para aumentar a eficiência operacional, potencializar os rendimentos e entender melhor o cliente. Entretanto ainda são poucas as empresas que utilizam essa tecnologia como uma grande aliada para aprimoramento dos seus negócios.

Um estudo divulgado pela CNI - Confederação Nacional da Indústria, em fevereiro deste ano, mostrou que apenas 1,6% das indústrias estão utilizando processos inteligentes e análises de dados.

O levantamento apontou também que a utilização dessas novas tecnologias pode trazer uma redução nos custos operacionais de até R$ 73 bilhões por ano, em economia gerada pelo aumento de eficiência, redução dos custos de manutenção e consumo de energia.

Para que essa nova Revolução Industrial se torne realidade para a maioria das indústrias, sobretudo no setor sucroenergético, é necessário que barreiras sejam superadas, principalmente com relação à conexão das redes de Tecnologia de Automação (TA) com a Tecnologia da Informação (TI).

Nesse contexto, é necessário que essa jornada esteja fundamentada em pilares estratégicos e operacionais, os quais, juntos, contribuem para uma maior eficiência, por meio do aprimoramento dos "5 Cs" dessa nova revolução: Conhecimento, Compartilhamento, Customização, Conexão e Cloud.

O primeiro pilar está relacionado à adoção da gestão do conhecimento, a documentos, a banco de dados, à padronização, a benchmarking e à disponibilidade para uso comum. Por meio de ferramentas digitais como e-learning, realidade virtual e simulações de processo, é possível otimizar o treinamento dos profissionais, diminuindo os erros e melhorando a produtividade.

O segundo pilar envolve a utilização de sistemas que permitem a interconexão e a otimização de toda a cadeia produtiva ao adotar a inteligência analítica aos dados da indústria. Diversas soluções têm surgido nos últimos anos no mercado e ganhado notoriedade na indústria e também podem ser aplicadas ao setor sucroenergético.

Uma iniciativa recente na Raízen foi o Laboratório do Futuro. Sabemos que um dos principais fatores que determinam a qualidade da cana-de-açúcar é o seu teor de sacarose (açúcar) -- quanto mais elevados os teores, melhor é a cana -- e, com intenção de agilizar a medição, dar maior confiabilidade aos dados, a empresa inaugurou um sistema automatizado que analisa, em uma média de 5 minutos, a cana-de-açúcar assim que ela chega à unidade processadora, algo que, antes, era feito de forma manual e levava em torno de 45 minutos a uma hora.

A avaliação do material coletado é feita por um equipamento que utiliza a tecnologia de Infravermelho Próximo (em inglês: Near InfraRed -- NIR), capaz de fazer a análise simultânea de vários parâmetros, como as ligações químicas das substâncias que compõem uma amostra. Com a tecnologia, a frequência da amostragem é aumentada, bem como a precisão analítica.

Um outro exemplo é a adoção de tecnologias, para coleta, análise e otimização de variáveis de processo em nossos sistemas de cogeração de energia, visando ao melhor balanço energético e, consequentemente, ao aumento na eficiência e na produtividade das cogerações, por apontar com exatidão o parâmetro mais adequado para aquela situação momentânea de processo.

Para elevar de fato o setor sucroenergético a outro patamar, é necessário que haja também uma integração de todos os sistemas existentes dentro de uma unidade produtora, onde as redes integradas de Tecnologia de Automação com a Tecnologia da Informação permitam a utilização associada de algoritmos, que possibilitem calcular as interações entre as máquinas e outras variáveis e ajudam a tomar decisões mais precisas.

Em razão dos ganhos dessa associação, diversas startups no mercado, localizadas principalmente em Piracicaba-SP -- região conhecida como Agritech Valley, o Vale do Agronegócio brasileiro (em referência ao Vale do Silício, nos Estados Unidos), têm trabalhado em projetos que visam testar os possíveis ganhos nas usinas e auxiliá-las na tomada de decisões. Em um futuro muito próximo, essas startups auxiliarão as grandes indústrias a solucionarem seus problemas. Porém a inovação só será possível com investimentos na infraestrutura tecnológica das redes.

Além das barreiras físicas, existem também as fronteiras energéticas que precisam ser -- e que estão sendo -- superadas por meio de investimentos feitos no setor; esse esforço também compõe a sequência de pilares estratégicos necessários para irmos além. O momento atual do setor estimula a necessidade de se pensar em novas maneiras de produzir energia, majoritariamente limpa e renovável -- seja por biomassa ou solar.

O objetivo do setor é pensar em soluções energéticas que possam otimizar ganhos, possibilitando um crescimento mais sustentável como forma de introduzir a nova Revolução Industrial no campo. O setor sucroenergético, hoje, já é marcado por ser um grande produtor de energia limpa e sustentável, por meio da biomassa, oriunda da produção de açúcar e etanol. Esse potencial, inclusive, tem possibilidade de aumentar diante de novas políticas governamentais, como o RenovaBio, e projetos inovadores de grandes companhias do setor.

Por último, investimentos em biotecnologia também contribuirão para potencializar e aperfeiçoar, significativamente, ganhos em produtividade. Dessa forma, é possível fazer a combinação entre engenharia genética, biologia celular e ciência da computação. Já são realizados testes com levedura "engenheirada", ou seja, leveduras modificadas, que vêm melhorando o processo de fermentação. Pelos resultados preliminares, é possível atingir ganhos significativos na produção e potencializar a operação industrial.

A aplicação conjunta de todos esses aspectos, somados à utilização de Big Data e a consequente utilização assertiva desses dados, pode ajudar a solucionar problemas industriais e, tão importante quanto, construir um caminho contínuo de evolução do negócio. A informação ajudará na tomada da decisão e será fundamental para a sobrevivência das companhias nesta segunda década
do milênio.

O setor, com essa constante modernização, tem um potencial de crescimento muito grande e pode colocar o Brasil como um dos grandes exportadores, não só de commodities, mas também de tecnologia agrícola de ponta. E a indústria sucroenergética poderá ser, e muito em breve, uma das grandes impulsionadoras desse movimento.

*Texto originalmente publicado pela revista Opiniões.

Juliano Augusto de Oliveira é Diretor Industrial Corporativo da Raízen

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Fonte: Retirado do Portal CanaOnline