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Abertura traz novo impulso à biomassa

Postado em 18 de Dezembro de 2020

O mercado livre de energia é o grande impulsionador da cogeração a biomassa no Brasil e deve continuar fomentando essa alternativa, que vive um momento de poucos leilões no mercado cativo, com certames previstos apenas a partir de 2021. A abertura do mercado livre de energia para consumidores com carga menor que 500 kilowatts (Kw) a partir de 2024 e a possibilidade de que pessoas físicas também possam comprar sua energia no ambiente livre vão beneficiar o segmento.

Cerca de 70% da energia gerada pelas usinas de biomassa é direcionada para o mercado livre, e esse percentual pode chegar a 90% nos próximos dez anos, à medida que mais consumidores migrarem para o ambiente. A expectativa é que 48% dos consumidores brasileiros estejam no mercado livre após a abertura. "Em 2030, vamos poder comprar energia como quem compra um chip de celular", diz Newton Duarte, presidente da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen). "O mercado regulado vai atender aos consumidores comerciais e residenciais que não querem se preocupar com essa migração, mas os demais vão buscar o mercado livre para economizar com o insumo", afirma

O crescimento mais expressivo deve vir do segmento de cogeração a partir do bagaço da cana de açúcar, que hoje responde por 11,6 gigawatts (GW) dos 18,9 GW de capacidade instalada de cogeração em operação nacional. O segmento também será beneficiado pelo programa Renovabio, que prevê a expansão da produção de biocombustíveis no Brasil e, por consequência, a geração de energia a partir da biomassa - de acordo com Duarte, da Cogen, até 2030 o programa deve incorporar mais 4 GW produzidos pelas usinas de açúcar e etanol, com a moagem de 50 milhões de toneladas adicionais de bagaço de cana.

Nesse contexto, cresce também o potencial de produção de energia a partir do biogás produzido a partir dos subprodutos da fabricação do açúcar e do etanol, com a vinhaça e a torta de filtro. A Raízen inaugurou em outubro a planta de biogás em Guariba (SP), a primeira no mundo a gerar eletricidade em escala comercial utilizando esses resíduos como matéria-prima, com capacidade para processar 5 milhões de toneladas de cana de açúcar por ano e potência instalada de 21 MW. Desde que entrou em operação, a energia gerada está sendo comercializada no mercado livre. "A operação de biogás junto à cogeração de energia elétrica a partir da queima do bagaço possibilita que todas as 26 unidades da Raízen sejam autossuficientes em energia e 13 vendam o excedente para contratos e negociação no mercado livre", diz Ricardo Mussa, presidente da Raízen.

A recuperação energética de resíduos sólidos urbanos é outra alternativa que deve despontar nos próximos anos. Pela primeira vez, o MME incluiu essas termoelétricas em dois leilões de energia nova que serão realizados em 2021, A-5 e A-6, e a fonte deverá ser incluída no Plano Decenal de Energia 2030. Essa tecnologia, conhecida como WTE (waste-to-energy) deverá ser impulsionada pelo novo marco legal do saneamento básico, aprovado este ano. Ainda não há usinas WTE em operação comercial no Brasil, embora existam seis projetos em licenciamento ambiental, que somam 195 MW de potência.

O potencial estimado é de 250 usinas aptas a gerar 20 MW cada e atender a 6,4% da demanda nacional por eletricidade - a expectativa é de que, impulsionados pelo mercado cativo, essa energia também passe a suprir o mercado livre com a maturação da tecnologia no país. "A partir dos dois leilões de 2021, será possível trabalhar uma estratégia junto aos municípios para utilização dessa energia, como por exemplo na eletrificação das frotas de ônibus. O mercado livre viria em um segundo momento", diz Yuri Schmitke, presidente executivo da Associação Brasileira de Recuperação Energética (Abren).


Fonte: Valor Econômico