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Açúcar brasileiro pode reaver espaço

Postado em 1 de Novembro de 2019

A deterioração da situação das lavouras de cana na Índia, após chuvas em excesso, e a contínua queda da oferta na Tailândia devem aprofundar o déficit estimado para a atual safra internacional de açúcar (2019/20), iniciada em outubro, e abrir espaço para o Brasil recuperar a liderança na produção mundial da commodity, segundo estimativas da consultoria INTL FCStone apresentadas ontem.

A consultoria elevou sua projeção para o déficit global de produção de açúcar neste ciclo em 1,8 milhão de toneladas, para 7,7 milhões de toneladas. O principal ajuste nas estimativas de produção foi feito para a Índia, que passou por um período de excesso de chuvas durante o inverno, após o atraso das monções.

Em relatório assinado pelo analista Matheus Costa, a consultoria avaliou que, apesar de as precipitações abundantes terem enchido os reservatórios para o uso de irrigação nos meses secos, o efeito negativo sobre as lavouras provocado pelos alagamentos não devem ser revertidos.

A estimativa da consultoria para a produção da Índia foi reduzida em 1,3 milhão de toneladas, para 26,9 milhões de toneladas, uma queda de 18,3% ante a produção da safra 2018/20. Com esse volume, a Índia voltaria ao posto de vice-líder na produção global de açúcar, já que a FCStone estima que o Brasil caminha para recuperar parte de sua produção no ciclo atual.

Nas contas da consultoria, a produção do Centro-Sul brasileiro dentro do período da safra internacional atual crescerá 5,8%, para 27,5 milhões de toneladas, diante de um mix açucareiro das usinas da região. Somada à produção do Norte e Nordeste, a fabricação brasileira alcançará 30,2 milhões de toneladas, 1,7 milhão de toneladas a mais do que no ciclo 2018/19.

Considerando o período da safra brasileira, que começa em abril e termina em março, a FCStone estimou que as usinas do Centro-Sul elevarão sua produção em 8,8%, para 28,5 milhões de toneladas — superando inclusive a temporada 2018/19.

Para a consultoria, a queda da produção no Sudeste Asiático, aumentando o déficit global, deve impulsionar os preços da commodity na próxima temporada, estimulando a fabricação do adoçante no Brasil em detrimento do etanol.

Por outro lado, a consultoria avalia que o cenário para o mercado do biocombustível pode não ser tão favorável, considerando que os preços do petróleo não aumentem mais e que o real suba ante o dólar, aumentando a competitividade da gasolina importada no mercado nacional de ciclo Otto. Dessa forma, a FCStone estimou que, do total da cana a ser processada, a consultoria estima que 37,4% irá para a fabricação de açúcar, ante 34,6% na safra atual.

A Tailândia, por sua vez, deve continuar a reduzir sua produção de açúcar na temporada atual, aumentando a pressão sobre o déficit. A FCStone estima que o país, segundo maior exportador global da commodity, produzirá 13,2 milhões de toneladas, 11,2% menos do que na safra passada.

No cômputo global, a produção foi projetada em 178,8 milhões de toneladas, queda de 3,5% ante a safra passada, enquanto a demanda foi estimada em 186,5 milhões de toneladas, aumento de 0,8%.

Embora muitos analistas avaliem que os estoques continuam elevados, ofuscando o efeito do déficit na formação de preços, a consultoria estimou que o volume de açúcar armazenado no fim da safra atual será de 71,8 milhões de toneladas, levando a relação entre estoques e uso para 38,5%, 0,4 ponto percentual abaixo da projeção feita em agosto. Segundo a consultoria, esse é o pior nível desde 2011/12 e 4,5 pontos percentuais abaixo da safra (2018/19).

Na última temporada, a produção superou o consumo em 200 mil toneladas, e os estoques guardavam 79,5 milhões de toneladas, 43% do consumo de todo o ciclo, nas contas da FCStone.

Como resultado da preferência das usinas brasileiras pelo açúcar, a projeção para a produção de etanol de cana no Centro-Sul ficou em 29,4 bilhões de litros, redução de 3,8% ante o volume que se espera que seja produzido na safra atual (30,6 bilhões de litros).

Em paralelo, as usinas brasileiras que produzem etanol a partir do milho, cuja matéria-prima não concorre o mercado de açúcar, devem continuar aumentando sua produção, com a entrada de novas plantas em operação e pela expansão das capacidades atuais. A FCStone estimou que a produção de etanol a partir do cereal crescerá 48,2%, para 1,8 bilhão de litros. A maior parte desse volume, 1,2 bilhão de litros, deve ser de etanol hidratado.

 


Fonte: Valor Econômico