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ADM compra Algar Agro e reforça operação no Brasil

A americana ADM, uma das maiores empresas de agronegócios do mundo, com forte presença no Brasil e vendas globais superiores a US$ 60 bilhões, anunciou ontem a compra da Algar Agro, braço agrícola da empresa mineira de telecomunicações Algar que, no auge, faturava mais de R$ 2,3 bilhões. A informação foi antecipada pelo Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

Com a aquisição, que depende da aprovação das autoridades regulatórias, a ADM se torna proprietária das instalações integradas de esmagamento e refino e envase de óleo de soja que a Algar detinha em Uberlândia, em Minas Gerais, e Porto Franco, no Maranhão. Também estão no pacote 17 armazéns espalhados nas regiões Sudeste e Nordeste.

O valor do negócio não foi divulgado. Mas, segundo fontes, as duas unidades adquiridas detêm, juntas, dívidas relacionadas da ordem de R$ 1 bilhão. Procuradas, as empresas não confirmaram essa informação. "A demanda por farelo e óleo envasado nas regiões Nordeste e Sudeste do Brasil continua crescendo, e estamos animados em expandir nossas competências", afirmou Domingo Lastra, presidente da ADM para a América do Sul, em comunicado.

Com as dificuldades financeiras decorrentes do cenário adverso no segmento de commodities agrícolas e problemas para crescer, a Algar Agro buscava possíveis compradores há dois anos. Em agosto de 2017, como noticiou o Valor, a empresa mineira avançou nas tratativas para a venda de uma participação acionária ao grupo japonês Mitsui. O negócio não vingou.

A necessidade de opções manteve a distribuição dos memorandos de informações da Algar Agro a potenciais compradores, enquanto que internamente o grupo tentava reorganizar-se e rever estratégias de ações. No âmbito executivo, três CEOs assumiram a posição entre abril de 2017 a janeiro de 2018 – Murilo Braz Sant’anna, Douglas Waldemar Vanderlei Ribeiro e, por fim, Djalma Teixeira de Lima Filho.

Em março, veio o anúncio da saída das atividades de trading de grãos para exportação. À agência "Reuters", Lima Filho afirmou que a companhia passaria a focar seus negócios somente no mercado interno, com a venda de óleo de soja, para elevar a rentabilidade no país.

Como outras empresas do agronegócio, a Algar Agro amargou defaults importantes em 2016/17, quando comprou soja e não recebeu parte expressiva dos volumes. Tampouco conseguiu expandir sua receita líquida – de 2014 a 2016, orbitou em R$ 2 bilhões, caindo a R$ 1,5 bilhão em 2017. O prejuízo no ano passado mais do que dobrou e atingiu R$ 196,5 milhões.

Mesmo com os ventos contrários, a empresa tentou expandir suas fronteiras, passando a originar grãos no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso, na tentativa de reduzir a dependência dos grãos do Norte e Nordeste. Em entrevista ao Valor em abril de 2016, Sant’Anna, então presidente, disse que pretendia investir de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões para elevar a capacidade de esmagamento em Porto Franco e em um projeto de cogeração de energia para atender a necessidade do parque industrial da Algar Agro em Uberlândia.

Segundo a Algar, que atua nos setores de telecomunicações, tecnologia, turismo e energias renováveis, sua presença no agronegócio ficará restrita ao plantio de grãos e pecuária, reunidos na Algar Farming.

Para a ADM, uma das poucas múltis do agronegócio com fôlego financeiro para aquisições, o portfólio da Algar Agro soma-se às fábricas de processamento de soja em Rondonópolis (MT), Campo Grande (MS), Ipameri (GO), Joaçaba (SC) e Uberlândia (MG), com capacidade total de 2,2 milhões de toneladas de grãos. As marcas comerciais ABC (óleo de soja) e Raçafort (farelo de soja) foram incluídas no acordo.

Na nota oficial, a ADM anunciou a compra de "certos ativos". Questionada, a Algar Agro afirmou se tratar de todo o portfólio. O descasamento de se deve a condições pós-fechamento do negócio que dão à ADM o direito de devolver ativos que eventualmente não quiser. Em situações de urgência na aquisição, a avaliação pelo comprador é feita sem todas as informações e o prosseguimento da "due diligence" é estabelecido por um prazo determinado.

No caso da ADM, a análise dos ativos envolve armazéns e até a planta de processamento de soja – tanto a da ADM quanta a da Algar estão em Uberlândia, numa sobreposição geográfica talvez desnecessária, diz uma fonte. As duas unidades adquiridas, no entanto, elevariam em 3,3 milhões de toneladas a capacidade de processamento da ADM no país.

A Algar Agro não atraiu o interesse apenas da ADM. Pessoas a par das negociações afirmam que a Bunge chegou a olhar os ativos à venda. Para ADM e Bunge, os armazéns da Algar são complementares e elevariam a capacidade de recepção de grãos. "Apesar dos problemas financeiros e de gestão, os ativos da Algar Agro são bons. Não me surpreenderia se a Bunge agora partisse para os ativos da Multigrain. É um movimento natural no tabuleiro de reorganização das tradings", diz uma fonte. A Multigrain, do Mitsui, encerrará operações no Brasil neste ano.

Em tempo: em janeiro, a ADM fez um proposta de fusão com a Bunge, num negócio de US$ 30 bilhões.

Por Bettina Barros


Fonte: Valor Econômico