Clipping

Alerta com questões geopolíticas

Postado em 18 de Setembro de 2019

Apesar desse ajuste que ocorrerá em toda a cadeia do petróleo, Zuñeda diz não estar pessimista, mas admite se preocupar com a questão geopolítica, pois o que aconteceu na Arábia Saudita mostrou uma nova forma de ataque – com drones. “Pode haver uma desestabilização dos preços de uma hora para outra. A diferença é que agora o percentual de petróleo da Arábia Saudita não é tão importante como no passado.”

Diretora de Economia e Estatística da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), Fátima Giovanna Coviello Ferreira também teme que conflitos bélicos possam agravar ainda mais a situação do mercado de petróleo. “Tem um sinal de alerta aí. Estamos um pouco preocupados com o encaminhamento da questão e como isso vai se resolver. Agora, estamos tentando entender o que aconteceu e as opções que serão colocadas pelos EUA, que tem um papel político fundamental. Qual vai ser a resposta que vai ser dada ao ataque?”, diz.

O país aumentou muito a produção de petróleo e hoje está em uma posição confortável nessa área. Autossuficientes, lembra Fátima, os EUA podem colocar uma parte dessas reservas no mercado e segurar parte do risco de disparada da commodity.

A volatilidade que o barril de petróleo apresentou desde o ataque na Arábia Saudita, explica a diretora da Abiquim, ainda não permite que seja medido o impacto que poderá ter no setor químico. Essa imprevisibilidade seria diferente, segundo Fátima, se em vez de um ataque tivesse acontecido um acidente, seja uma refinaria ou em um campo de petróleo. “O problema é não sabermos o que vai ocorrer a partir de agora.”

Mesmo sem poder cravar o tamanho do impacto que a ação terrorista terá no mercado, Fátima avalia que algum efeito será inevitável. “A volatilidade no preço do óleo traz o mesmo para as matérias-primas do setor, como nafta. O Brasil importa muito, por isso, o que acontecer no mundo vai refletir aqui por conta da dependência. Haverá reflexo nos preços dos químicos, só não sabe de quanto e por quanto tempo.” Normalmente, explica a representante da Abiquim, existe um intervalo de cerca de um mês até ocorrer um impacto no preço. Da mesma forma, são os mesmos 30 dias, em média, até começar a cair.

Esse chacoalhão no mercado internacional poderá comprometer ainda mais a balança comercial do setor químico, que espera por um déficit de US$ 30 bilhões em 2019, maior do que o registrado no ano passado. Hoje, com a desaceleração da economia nacional, a indústria química trabalha com 30% de capacidade ociosa.

E O ETANOL?  

A crise internacional do petróleo pode se agravar em um momento em que nem o setor sucroalcooleiro tem condições de capitalizar. A avaliação é de Antonio de Pádua Rodrigues, diretor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa os produtores do Centro-Sul do país.

Os baixos preços pagos pelo açúcar no mercado internacional têm levado nos últimos anos a um aumento da produção de etanol pelas usinas. Agora, com a safra no Centro-Sul entrando na fase final (o encerramento é entre novembro e início de dezembro), não há como aumentar a produção – que bateu recorde neste ano – imediatamente para atender a um crescimento da demanda, resultado de um possível reajuste no preço da gasolina.

Mas Pádua também compartilha da opinião de que a grande preocupação está na forma como a Petrobras vai reagir com a alta do preço do barril de petróleo. Segundo o representante da Unica, há três possibilidades – uma real e outra menos viável – para o caso de ser necessário aumentar a oferta de etanol no mercado nacional. Uma é contar com o aumento da produção do etanol obtido do milho, que vai ganhar novas unidades fabris nos próximos meses.

Outra possibilidade é transformar parte do açúcar que ainda não foi comercializado em etanol, em um processo em que é feito o derretimento. O custo nem sempre compensa. Há ainda a alternativa de aumentar a compra de etanol de milho dos EUA, que recentemente recebeu o sinal verde do Brasil para aumentar a cota embarcada para cá sem a incidência de Imposto de Importação.

Pádua não acredita que uma crise do petróleo possa levar à falta de gasolina e diesel no Brasil. Por isso, só vê como grande preocupação quais serão os próximos passos da Petrobras. “O Brasil quer vender suas refinarias, então deve ter coerência de manter o preço do petróleo alinhado ao mercado internacional.” 

 

 


Fonte: Estado de Minas