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Amostragem sobre incidência de nematoides nos canaviais devem ser feitas nos períodos chuvosos

Postado em 10 de Dezembro de 2019

Amostras coletadas em época seca podem levar a um diagnóstico errado do problema

“Independentemente de onde se planta cana-de-açúcar no Brasil, haverá nematoides no solo.” A afirmação vem de especialistas no tema, como a pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Leila Luci Dinardo-Miranda. “Essa praga já tomou proporções alarmantes, estando presente em mais de 70% dos canaviais.”

Embora sejam recorrentes desde os primórdios da agricultura mundial, os nematoides ainda são extremamente negligenciados pela maioria dos produtores rurais. Isso ocorre porque são invisíveis a olho nu. E as ações para o seu controle só acontecem quando o canavial já está tomado pela praga, quando o correto é adotar técnicas de manejo que não favoreçam os nematoides, que, cedo ou tarde, irão surgir.

Para Leila, a espécie P. zeae é a mais importante, pois é frequentemente encontrada em populações altas o suficiente para causar danos

Quatro espécies atacam a cana-de-açúcar, são os das galhas (Meloidogyne incognita e M. javanica) e os das lesões radiculares (Pratylenchus zeae e P. bracyurus).  De todas, a pesquisadora do IAC ressalta que a Pratylenchus zeae deve ser considerada como a mais importante para a cultura, pois é frequentemente encontrada em populações altas o suficiente para causar danos. Segundo Leila, é difícil analisar uma área de cana e não encontrar infestações dessa espécie.

Infelizmente, ainda há produtores e técnicos de usinas que dão importância apenas para as Meloidogynes – afirma. “Na verdade, essas espécies são apenas mais patogênicas para a cana do que as Pratylenchus, ou seja, são necessárias populações menores de incógnita e javanica para causar os mesmos danos de altas populações de zeae e bracyurus. Todavia, é muito mais fácil encontrar altas populações de zeae do que de incógnita ou javanica.”

Ao parasitarem o sistema radicular, bulbos e tubérculos, os nematoides podem causar grandes danos à cana-de-açúcar, que se torna deficiente e pouco produtiva. Em casos de variedades muito suscetíveis e níveis populacionais muito altos, as perdas podem chegar a até 50% da produtividade.

Estimativas apontam que o Brasil perde, anualmente, 15% de sua produção por causa dos nematoides. Mas esses números podem ser bem maiores, já que muitos contabilizam apenas as perdas mais severas, sendo que mesmo baixas infestações podem atrapalhar o desenvolvimento pleno de uma área.

SAIBA COMO IDENTIFICAR E AMOSTRAR OS NEMATOIDES

Outro mito que permeia o setor é que nematoides estão presentes apenas em solos arenosos. Ledo engano. Experimentos conduzidos por nematologistas em todo o Brasil evidenciam a presença dessa praga nos mais variados tipos de solo. Outro fato importante a ser destacado é que os nematoides não matam a cana. Portanto, se você está esperando seu canavial morrer para desconfiar que existem problemas com eles, pode esperar sentado.

Os indicativos da presença de nematoides incluem canaviais irregulares e pouco produtivos, especialmente em áreas que, supostamente, deveriam estar produzindo bem mais – alerta Leila. “Se plantou a variedade certa, adubou corretamente, utilizou os defensivos necessários, o solo não tem deficiência e, mesmo assim, a área não responde, pode ir lá que tem nematoides.”

Entretanto, para um diagnóstico correto e detalhado, é necessária a realização de uma amostragem de solo, enviando o material colhido para um laboratório qualificado a fim de ser analisado por um nematologista.

De acordo com Leila, essas amostragens devem ser feitas, preferencialmente, nos períodos chuvosos (primavera e verão), quando as condições de temperatura e umidade são adequadas a um bom desenvolvimento da maioria das plantas e dos nematoides. “Amostras coletadas em época seca podem levar a um diagnóstico errado do problema, pois as populações de nematoides nessas condições tendem a se reduzir drasticamente, já que muitas raízes morrem em consequência da falta de umidade no solo.” 

TRATAR A CANA COM NEMATICIDA É UMA FORMA DE MANEJO QUE NÃO DEVE SER DISCUTIDA, MAS SIM FEITA

É correto dizer que a maioria dos canaviais brasileiros apresenta, ao menos, uma espécie de grande importância de nematoides. Adotar ferramentas de controle sempre que o necessário é vital para que a área volte a ser produtiva.

Por conter uma substância que mata por ingestão, Crotalaria spectabilis é uma arma poderosa no combate a algumas espécies de nematoides

A rotação pode ser um grande aliado no combate a estas pragas, já que algumas culturas possuem efeito supressor de nematoides. No entanto, é preciso saber qual material plantar, pois existem também aquelas plantas que são fontes de alimentos, que impulsionarão o problema em vez de atenuá-lo. Uma das armas mais poderosas é a Crotalaria spectabilis, devido ao fato de possuir uma substância que mata por ingestão, levando a praga a morte no momento em que bica a raiz.

Outra medida passível de ser adotada é a descompactação do solo. Ocorre que em um solo compactado, a raiz não se aprofunda no perfil, criando uma oportunidade perfeita para os nematoides, que gostam da camada mais superficial, onde existe mais oxigênio.

Nematicidas terão impactos positivos na cana-planta e nas socas subsequentes

Porém, a medida mais importante – além de mais eficaz – ainda são os químicos. O nematicida aplicado no sulco de plantio irá diminuir as populações nos meses subsequentes a aplicação, fazendo com que a arrancada inicial da cultura não seja comprometida. Com o uso desses produtos, as raízes se aprofundarão no perfil do solo, local onde não há a presença de nematoides. Dessa forma, mesmo que essa praga volte a atacar o sistema radicular superficial, a produtividade não será afetada, pois haverá muita massa de raiz não atacada.

Até mesmo a soca que virá dessa cana-planta estará melhor estabelecida e mais produtiva – observa a pesquisadora Leila. “Não que o nematicida ainda esteja lá reduzindo nematoides. Ocorre que essa soca veio de uma cana-planta tratada, que se desenvolveu melhor e estabeleceu mais massa de raiz.”

 


Fonte: CanaOnline