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Aporte em startups do campo dobra nos EUA

As startups agrícolas receberam mais investimentos em 2017 do que nos dois anos anteriores combinados, em meio ao confronto cada vez mais evidente entre grandes grupos de agricultura e investidores de capitais de risco do Vale do Silício dispostos a virar de ponta-cabeça esse setor multibilionário. Foram injetados mais de US$ 700 milhões em "agtechs" no ano passado, segundo a empresa de análises de mercado CB Insights, ante US$ 332 milhões em 2016 e US$ 233 milhões em 2015.

A onda de investimentos nessas startups, que usam avanços como os da robótica ou da ciência de dados para tornar a agricultura mais eficiente, contrasta com a situação financeira na zona rural dos EUA.

A renda das fazendas vem caindo desde que a tendência de alta das commodities chegou a seu pico no início da década de 2010 e resultou em excesso de produção e queda dos preços. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os produtores enfrentam o terceiro ano consecutivo de declínio na renda.

Em Broken Bow, Nebraska, a fazenda de Clay Govier, viu a receita diminuir cerca de 50% desde que os preços do milho começaram a cair, em 2012. "Com o preço da terra e impostos sobre propriedades subindo […] isso joga o aperto para o lado dos pequenos", diz. Além disso, os custos dos insumos, como fertilizantes, continuam altos, o que corrói os lucros de Govier.

A situação encoraja investimentos que podem elevar a eficiência do setor. O aumento do dinheiro levantado pelas startups nas rodadas de investimentos em estágios mais avançados indica que o setor de tecnologia agrícola está amadurecendo, diz Rob LeClerc, da AgFunder, plataforma especializada no setor. Ele destaca os US$ 203 milhões da rodada de investimento da série D fechada em dezembro pela Indigo, empresa de Boston que pretende usar micróbios para melhorar a saúde e produtividade das plantas.

Quase 25% dos investimentos no agronegócio foram feitos por grandes grupos ou seus veículos de capital de risco, como os da Monsanto e Syngenta, alta de 7 pontos percentuais em relação a 2016. Isso levanta dúvidas se os grandes conglomerados são inimigos ou aliados dos novatos que querem sacudir o mercado.

Uma dessas startups, a Farmers Business Network (FBN), que levantou US$ 110 milhões do braço de capital de risco do Google e de outras empresas em 2017, diz ajudar os agricultores a evitar que sejam enganados por fabricantes de insumos agrícolas, após fusões gerarem temores sobre oligopólio.

As maiores empresas agroquímicas, conhecidas como as "seis grandes", poderiam virar quatro em breve, depois da fusão entre Dow Chemical e DuPont, da aquisição da Syngenta pela ChemChina e da proposta de fusão entre Bayer e Monsanto, que depende de análise antitruste europeia.

Um estudo da FBN encontrou grandes diferenças de preços de sementes e fertilizantes, nos EUA, sobretudo em regiões remotas, onde os agricultores têm poucas opções de compra. Alguns agricultores pagaram três vezes mais do que outros pelo mesmo produto.

A empresa fundada na Califórnia, por Charles Baron, ex-gerente de projetos do Google, e Amol Deshpande, um ex-investidor de capital de risco em tecnologia, reúne dados de quase 5 mil agricultores do Canadá e EUA. Por uma taxa anual de US$ 600, analisa as informações e transmite conclusões e conselhos aos membros, desde preços exatos a indicações de sementes e solo.

Segundo Baron, os agricultores não se beneficiaram das guerras de preços da internet como outros setores. Embora se possa comprar certos produtos on-line, os "varejistas agrícolas lutaram com unhas e dentes para impedir a competição on-line. Já era um mercado pequeno e está diminuindo. Naturalmente, há menos opções e competição".

A rodada de financiamento da série D na FBN foi encabeçada pela T Rowe Price e pelo fundo soberano Temasek, de Cingapura. Também injetaram mais dinheiro investidores já existentes, como a GV, braço de capital de risco do Google, Kleiner Perkins e Acre Venture.

As grandes companhias agrícolas não estão sentadas sem fazer nada. Só a Bayer investiu entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões nos últimos 18 meses em empresas de ciências da vida, apostando em projetos como o ao lado da Ginkgo Bioworks, empresa de biotecnologia avaliada em mais de US$ 1 bilhão, que pretende criar sementes pré-revestidas com um fertilizante microbial.

A Monsanto Growth Ventures encabeçou rodada de aportes da série C, de US$ 30 milhões, da NewLeaf Symbiotics, empresa do Missouri que tenta usar bactérias para ajudar no crescimento das lavouras. Em dezembro, a Syngenta Ventures liderou rodada da série B de US$ 12 milhões na Asilomar Bio, que busca melhorar o rendimento do campo.

Os grandes grupos também vêm fazendo aquisições diretas. Um dos maiores negócios de 2017 foi a compra da Blue River Technology, startup do Vale do Silício que usa técnicas de aprendizado das máquinas para tornar mais precisos os equipamentos de pulverização, pela Deere & Co., por US$ 305 milhões. A DuPont comprou a Granular, firma de San Francisco que faz softwares para agricultores, por US$ 300 milhões.

Ben Belldegrun, do Pontifax Agriculture Technology Fund, prevê que as grandes empresas vão continuar gastando para se sintonizar com mudanças tecnológicas, o que deverá fazer de 2018 outro ano positivo para as agtechs.

 


Fonte: Valor Econômico