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Aquisições de usinas voltam a ganhar força

Postado em 4 de Janeiro de 2021

Após uma crise que começou há mais de uma década e provocou o fechamento de dezenas de usinas no país, uma lenta recuperação ganhou corpo no segmento sucroalcooleiro em 2020 - e, com ela, o número de aquisições de unidades voltou a crescer. Mas a maioria dos negócios foi fechada no âmbito de recuperações judiciais ou falências, e os valores praticados foram bem inferiores aos registrados durante a fase de bonança observada nos anos 2000.

Segundo levantamentos das consultorias RPA e Datagro e do Valor, ao menos oito aquisições de usinas, totais ou parciais, ocorreram neste ano; em 2019, houve apenas três. Foram, em geral, operações lideradas por compradores das regiões onde estão as plantas, como usineiros vizinhos e fazendeiros, ou investidores já com alguma atuação no ramo.

Três dessas aquisições ocorreram em leilões de falência, duas delas da massa falida do grupo Infinity Bio-Energy Brasil, do empresário Natalino Bertin, condenado na Lava-Jato. Outras três foram em leilões de recuperação judicial e envolveram unidades da Renuka do Brasil (da indiana Shree Renuka Sugars), da Abengoa Bioenergia Brasil (da espanhola Abengoa) e do grupo Carolo.

Fora de leilões, houve a venda de uma usina da americana Dow Chemical para a gestora Geribá Investimentos, que já detinha o ativo de cogeração anexo à planta e assumiu a unidade. Outra operação foi a venda de uma fatia do capital da Tietê Agroindustrial, que era da gestora americana Proterra Investment Partners, para o grupo FKS, de Cingapura, dono da trading Enerfo.

O levantamento não considera a compra do controle da Atvos - que tem nove usinas e está em recuperação judicial - pelo fundo americano Lone Star porque a operação é questionada pela Odebrecht na Justiça e em arbitragem. O negócio resulta da compra da alienação fiduciária executada pelo banco Natixis, à revelia do grupo baiano e de seus credores, que aprovaram um plano de recuperação judicial em maio deste ano.

Em geral, os valores das transações efetivadas refletem o fato de boa parte dos negócios terem ocorrido dentro de leilões de usinas “problemáticas”. Além disso, a desvalorização do real tornou os ativos brasileiros ainda mais baratos, ao menos para compradores estrangeiros.

Cálculos de Ricardo Pinto, sócio da RPA, a partir de três aquisições realizadas neste ano mostram que o desembolso médio por tonelada de cana moída de capacidade instalada ficou em torno de US$ 10 neste ano. Em 2017, por exemplo, o valor oscilava em torno de US$ 30.

“Para os valores de avaliação do processo nos leilões, que são muito altos, não tem comprador”, diz Hermelindo Ruete de Oliveira, diretor da Datagro Financial. A consultoria mantém parceria com a consultoria Agriplanning e com a plataforma de leilões Superbid para viabilizar leilões de usinas e outros ativos no segmento. Nos últimos três anos, essa aliança destravou sete negócios, que movimentaram R$ 400 milhões.

Mas, mesmo em meio a dificuldades, o fato é que já há mais trocas de controle hoje do que três ou quatro anos atrás, quando as empresas afetadas pela crise começaram a entrar em recuperação judicial e falência. Faz parte do pano de fundo desse cenário a conjunção entre juros baixos e câmbio depreciado, que oferece um ambiente favorável ao retorno de investimentos neste que é um segmento exportador, segundo especialistas.

Em alguns casos, compradores citam como estímulos adicionais o potencial de expansão da demanda por etanol, reforçado pelo programa RenovaBio, e a onda de investimentos com pegada “ESG” (ambiental, social e governança). “O RenovaBio mudou a dinâmica do segmento.

Existe uma visão de maior prosperidade para energias renováveis em geral. Não tem aquela preocupação de não existir luz no fim do túnel”, afirma Guilherme Nastari, diretor da Datagro Financial.

Em algumas situações, a aquisição também atende aos anseios da comunidade do entorno por causa do impacto econômico regional da usina. Foi o caso da Usina Alcana, em Nanuque (MG), que era da Infinity Bio-Energy e foi arrematada pelo grupo Alcon, em leilão, por R$ 13 milhões.

Produtores rurais se mobilizaram e entregaram uma carta pedindo ao grupo que fizesse uma oferta e recuperasse a usina, parada desde 2013. “Sem a carta, não teríamos participado do leilão”, reconhece Nerzy Dalla Bernardina Junior, diretor da Alcon.

A Infinity ainda tenta embargar esse negócio na Justiça, mas a Alcon está confiante. Como a usina atual da companhia está a 80 quilômetros da Alcana, há facilidade na integração. O grupo pretende investir mais R$ 80 milhões para recuperar canaviais e garantir contratos de fornecimento e arrendamento na região. A expectativa é retomar a operação no fim de 2021 e criar 2 mil empregos.

Em outros casos, as transações foram desencadeadas mais pelo interesse nas terras do que nas unidades industriais. Foi o que aconteceu na venda da Usina Floralco para o empresário e produtor rural Fernando Fehr Pereira Lopes, ainda em 2019. “Queríamos comprar as terras, mas, quando fomos visitar, vimos que a usina estava completa e decidimos comprar tudo”, afirma.

O custo da unidade, porém, supera os R$ 54 milhões acertados em leilão, já que o empresário também já gastou R$ 22 milhões com plantio de canaviais e deverá desembolsar mais R$ 25 milhões na indústria. A reativação da usina aguarda agora negociações para a entrada de um sócio e pode ocorrer em 2022.

Também têm aparecido investidores do mercado financeiro, como na compra da Usina Revati pela Íntegra Special Situations, com recursos do sócio Sérgio Firmeza Machado, da gestora ARC Capital - o negócio ainda depende de negociação com credores. Outro caso é o aquisição da Usinas Itamarati, hoje Uisa, pelo fundo CVCIB Holdings, em 2019.

Grandes fusões

Mesmo mais aquecido, o mercado de fusões e aquisições no segmento sucroalcooleiro ainda não voltou a ser palco de negócios de grande porte. Nos últimos anos, o único caso mais relevante foi o da união entre as multinacionais BP e Bunge, em 2019, em que a petroleira britânica pagou US$ 75 milhões e compartilhou com a nova sócia americana uma dívida de US$ 700 milhões.

Em meados deste ano, a Raízen Energia, joint venture entre Cosan e Shell, começou a negociar a compra da Biosev, controlada pela Louis Dreyfus Company (LDC) - que tem dívidas bilionárias que vencem a partir da próxima safra -, mas as conversas não avançaram muito desde então. Em novembro, a venda de uma fatia minoritária da Dreyfus ao fundo de Abu Dhabi ADQ abriu um novo horizonte para a Biosev. O fundo poderá fazer um aporte de ao menos US$ 800 milhões na múlti francesa, e parte desse valor poderá ser usado para socorrer a sucroalcooleira.


Fonte: Valor Econômico (28/12)