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Atvos deve ser colocada à venda após plano

Postado em 3 de Março de 2020

Terceira maior companhia produtora de etanol e açúcar do Brasil, a Atvos deve ser levada à venda em breve, tão logo a companhia e o grupo Odebrecht aprovem seus processos de recuperação judicial. O grupo acredita que o valor do negócio varie entre R$ 7,3 bilhões e R$ 13 bilhões, considerando o uso de capacidade produtiva atual e a total, conforme diversas fontes ouvidas pelo Valor. Hoje, a Atvos responde por 7% do abastecimento de etanol do país, operando com 70% de sua estrutura.

As discussões sobre o destino da empresa passaram por uma reviravolta no começo deste ano e o conglomerado está próximo de um acordo com os bancos credores do grupo e da sucroalcooleira. O consenso significa um acordo para todo o passivo do grupo, de R$ 98 bilhões.

A Odebrecht esperava ter um prazo de quatro a cinco anos para vender a companhia, que nasceu em 2007 com o nome de ETH Bioenergia. Entretanto, após exigências feitas pelo BNDES, a venda pode ser pedida pelos bancos credores a qualquer momento após a homologação do plano de recuperação judicial.

O desenho da reestruturação financeira teve de ser modificado em pouco mais de um mês para contemplar o pleito do banco. Quando tudo estava em vias de definição, na primeira quinzena de janeiro, o BNDES voltou com questões que estavam fora da mesa, mas que estiveram em debate há cerca de um ano.

O BNDES colocou como ponto crucial vender a Atvos antes de reorganizar a dívida ou trocar a gestão, para afastar a Odebrecht da administração, caso não fosse possível garantir a alienação.

A Atvos listou no processo R$ 11 bilhões em dívidas com terceiros. Os credores entenderam que vender antes da aprovação do plano seria impossível. Nenhum comprador assumiria passivos vencidos sem solução. A Odebrecht, por sua vez, teve de ceder à ansiedade dos bancos de receber o quanto antes.

O plano final deve prever que, dos compromissos da Atvos, metade permanece como dívida e a outra metade será convertida em um instrumento híbrido - nem ações, nem dívidas tradicionais. Os compromissos não têm vencimento e funcionam como uma debênture de participação nos lucros (DPL).

A companhia terá 2,5 anos de carência sobre juros. Esse serviço da dívida será somado ao total do compromisso no vencimento.

A conversão de 50% da dívida em DPL não será na largada, mas sim no momento da venda ou caso seja feita uma estrutura de um fundo de investimento em participação (FIP) para gerir a Atvos - outra novidade do plano. Em ambos os cenários, a Odebrecht ficará com 10% do valor atribuído às ações da empresa.

No caso da venda, a Odebrecht recebe no ato. No cenário de um FIP, passa a ter um direito de 10% sobre a venda futura. Caso em dois anos não ocorra nem a venda nem a transferência da gestão, metade da dívida será automaticamente convertida em DPL.

Encontrar um comprador será um desafio, tanto maior para os parâmetros de preço almejados. Apesar da alta recente do açúcar e do dólar e da nova política de biocombustíveis, existem muitas indústrias à venda após uma avalanche de recuperações judiciais, que alcançaram quase 100 usinas. Promete ser mais complexo achar investidor para um ativo tão grande, pois a aquisição é sempre seguida de pesados investimentos no canavial.

Duas vendas recentes, concluídas em 2019, foram da Biosev, que alienou duas usinas no Nordeste por US$ 15 e US$ 29 por tonelada de cana de capacidade instalada.

Em seus cálculos, a Odebrecht avalia a Atvos por no mínimo US$ 50 por tonelada de cana moída. Mas, dadas as transações recentes, a venda sairia por R$ 6 bilhões.

Nos últimos cinco anos, durante a crise da Operação Lava-Jato, a Odebrecht aportou nada menos que R$ 8,25 bilhões na Atvos. No período, seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) passou de R$ 780 milhões para R$ 1,6 bilhão, na safra atual (2019/20).

A aposta da Atvos é melhorar sua eficiência e elevar a produção de cana para operar a plena capacidade. A carência prevista no plano deve dar uma folga de R$ 2 bilhões ao caixa nesses dois anos, que poderão garantir aportes nas lavouras, hoje 15% menos produtivas que a média do Centro-Sul. A companhia gasta R$ 1 bilhão por safra em investimento agrícola, renovando 13% de seus canaviais por safra. O plano é aumentar esse índice para 17%.

A recuperação da produtividade não deve vir logo. Após divergências com credores, a empresa cortou o plano de plantio da cana a ser colhida na safra que começa em abril.

A baixa produtividade é seu principal desafio operacional. A “curva de aprendizado” para que o grupo melhorasse seu desempenho onde, dez anos atrás, não tinha cana, é apontada internamente como responsável por metade da dívida atual. O controle de preços da gasolina na era Dilma é apontado como responsável por ao menos R$ 2 bilhões da dívida. A lista de desgraças fica completa com os compromissos herdados da Brenco, incorporada em 2010.


Fonte: Valor Econômico