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Atvos terá de encarar desafios operacionais

Postado em 31 de Maio de 2019

Além da difícil missão de renegociar R$ 15 bilhões em dívidas, a Atvos, braço sucroalcooleiro da Odebrecht, terá de resolver velhos desafios operacionais se quiser sair mais saudável e rentável da recuperação judicial na qual acabou de ingressar.

Inicialmente batizada como ETH Bioenergia, a empresa foi criada em 2007 sob um clima de euforia embalado pelo sonho de o Brasil se tornar uma potência exportadora de etanol. O objetivo não foi atingido e a Atvos jamais conseguiu ter canaviais suficientes para suportar o gigantismo da estrutura industrial inicialmente planejada.

 Com nove usinas espalhadas por São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a Atvos moeu 25,8 milhões de toneladas de cana na safra 2017/18 (último dado disponível), o que significou uma ociosidade de 30%, uma vez que sua capacidade nominal de moagem é de cerca de 36 milhões de toneladas - líder desse mercado, a Raízen moeu 60 milhões de toneladas em 2018/19.

Para reverter o quadro, a empresa teria de fazer investimentos bilionários nos próximos anos para expandir e renovar a área de canavial, o que não é considerado factível por especialistas em consequência de sua situação financeira.

Na petição enviada na quarta-feira à 1ª Vara de Falências da Comarca de São Paulo, na qual a Atvos pediu a recuperação judicial, a companhia mencionou um estudo realizado pela consultoria Canaplan para avaliar a viabilidade da empresa. O trabalho indica que, com investimentos em expansão e renovação de canaviais, a geração de caixa da Atvos poderá saltar de R$ 1,5 bilhão para R$ 3,4 bilhões até a temporada 2028/29.

Para isso, a empresa teria de investir cerca de R$ 700 milhões por ano. Pelas projeções da Canaplan, a geração de caixa aumentaria em R$ 1 bilhão em apenas três safras com esses aportes. Para se ter uma ideia da relevância dos investimentos nos canaviais, basta dizer que eles representariam quase 20% da geração de caixa prevista para a safra 2022/23.

Segundo o analista Wiliam Hernandes, da consultoria FG/A, a ociosidade da Atvos dificulta a diluição de custos fixos da empresa. Na safra 2017/18, as despesas administrativas representaram R$ 14,05 por tonelada de cana-de-açúcar moída, quando a média de 58 grupos acompanhados pela FG/A foi de R$ 11,45.

Em comparação à produção efetiva, a Atvos é uma das mais endividadas do segmento. Na safra 2017/18, a empresa devia R$ 361,01 por tonelada de cana moída, enquanto a média do segmento era de R$ 134,25.

Além da falta de canaviais, as regiões onde as usinas da Atvos estão localizadas também sofrem com o clima pior do que a média, segundo fontes que conhecem suas operações. Em Mato Grosso do Sul, o problema são as constantes geadas. Em Mato Grosso, é a falta de chuvas.

Mas quem conhece os ativos argumenta que as usinas são boas - "estado da arte", nas palavras de um experiente executivo do agronegócio. Das nove usinas da Atvos, sete foram construídas do zero pela companhia ou pela Brenco, companhia criada em 2007 pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul a partir de investimentos de US$ 2 bilhões para, como a Odebrecht, aproveitar o "boom" do etanol.

Em 2009, a Brenco já enfrentava dificuldades financeiras e, após negociar inclusive com a Petrobras, teve seu controle vendido à Odebrecht. Mas a união de ETH e Brenco na nova Odebrecht Agroindustrial, com foco no etanol, viu o cenário piorar quando o governo Dilma passou a controlar os preços da gasolina e, por tabela, os do biocombustível.

Caso não consiga se recuperar, a saída da Atvos será vender seus ativos. Mas também não será uma tarefa fácil. "Não há ninguém no mercado com apetite para engolir a Atvos toda - e há outros ativos à venda, como os da Bunge. Talvez a empresa consiga vender algumas usinas e, no máximo, 30% de seus canaviais", disse um executivo do segmento.

É a segunda recuperação judicial de um grande grupo do ramos em poucas semanas - a Usina Santa Terezinha, do Paraná, que já chegou a processar 18 milhões de toneladas por safra, anunciou a sua em março. "Quando tombam os primeiros mamutes, os bancos começam a correr atrás e há usinas menores em dificuldades", disse a fonte. Os problemas podem "ajudar" a enxugar a produção brasileira de cana em tempos de avanço da oferta global, puxada por países como a Tailândia.

 


Fonte: Valor Econômico