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Austrália tenta atrair investidores estrangeiros

Vasta área disponível, grandes reservas de água e gás, condições mais camaradas para a compra de terras e, se preciso, a mãozinha do Estado com uma ajuda financeira. É com esse "pacote de bondades" que a Austrália pretende atrair uma nova leva de produtores e investidores estrangeiros do agronegócio (inclusive brasileiros) nos esforços de desenvolvimento do Norte do país ­ provavelmente a última grande fronteira agrícola a ser explorada entre as economias desenvolvidas.
 
O foco do governo está na chamada "Northern Australia", a metade de cima da ilha continental que compreende 40% da área total do país, 60% de seus recursos hídricos e 90% das reservas de gás conhecidas. Ao mesmo tempo, apenas 1% da população (2,4 milhões de habitantes) vive na região. Ou seja, é um vasto ninho ainda vazio.
 
"Ao contrário dos brasileiros, que migraram do Sul para expandir a agricultura no Centro­Oeste e no Norte, na Austrália não há tanta gente assim para ocupar o país. Precisamos dos estrangeiros", diz Tony Eyres, especialista­sênior de investimentos da Austrade, o escritório de promoção global de investimentos do governo australiano.
 
Os esforços para atrair estrangeiros ganharam força em 2015, quando o governo federal elaborou um documento de estratégias para a ocupação desse território. Uma gama de segmentos econômicos foi contemplada, mas é na agricultura que as expectativas são mais altas devido às características do Norte australiano. Segundo Eyres, há atualmente cerca de 17 milhões de hectares aráveis na região e grande área de pasto com baixa produtividade ou apta para a conversão para a agricultura.
 
Em sua quinta visita ao país ­ ele veio anteriormente a trabalho pela Fonterra, a gigante neozelandesa de lácteos ­, Eyres diz ver nos brasileiros um potencial interessante para parcerias comerciais. "A visão de longo prazo dos produtores daqui é o tipo de abordagem que queremos para o Norte", diz ele. "Acho que as empresas brasileiras deveriam ir lá e olhar por si próprias essas oportunidades".
 
Eduardo Lima, sócio do Millenium Bioenergia, é um dos que já estão em tratativas finais para entrar no país. O executivo finalizou um estudo de investimento em Queensland, no norte australiano, onde planeja construir duas plantas de etanol de cana e de milho no Norte australiano para atender o mercado australiano e asiático. "É uma grande oportunidade", diz. 
 
O Brasil ganhou peso no mercado australiano em 2008, quando a JBS comprou a americana Swift, a maior empresa de bovinos posicionada na Austrália. Mas há ainda poucos produtores rurais representados, diz Eyres, Eduardo Lima, sócio do Millenium Bioenergia: "É uma grande oportunidade" assim como empresas de outros setores. O governo federal gostaria de diversificar essa representação, e tem se mostrado favorável à chegada de investidores nas áreas de biocombustíveis, grãos, aquicultura e até para um segmento bastante apreciado no país ­ a criação e o processamento de carne de crocodilo.
 
Outro indicador que sugere o potencial de crescimento do agronegócio é a baixa participação do setor no montante total de investimentos estrangeiros diretos. Segundo o Tesouro australiano, no país como um todo foram investidos só US$ 3,4 bilhões em agricultura, floresta e pesca no ano fiscal de 2015/16. Ao mesmo tempo, os aportes estrangeiros no setor imobiliário trouxeram US$ 56 bilhões. Em exploração mineral, US$ 20 bilhões. Em serviços, US$ 17 bilhões.
 
A baixa participação dos investidores estrangeiros no negócio agrícola tampouco dialogava com outra informação preciosa para a Austrália: a constatação de uma guinada expressiva na renda per capita na Ásia, o principal mercado de exportação do país. Segundo a OCDE, que reune o grupo dos países mais desenvolvidos do mundo, enquanto a Europa registrará um crescimento de 2,4% em sua classe média entre 2009 e 2030, passando de 664 milhões para 680 milhões de pessoas, a Ásia Pacífico explodirá para 3,2 milhões de consumidores nessa classe econômica ­ um aumento de 514,9% na mesma comparação.
 
Por uma questão logística, quem mais poderia atender a explosão esperada no consumo? "Estamos vendo oportunidades no segmento de produtos frescos, com tempo de prateleira mais curto, que podem ser escoados por avião para mercados como Hong Kong, Cingapura e grandes cidades na China. Também temos notado um interesse crescente do Sudeste Asiático por alimentos australianos, sobretudo de Jacarta e Manila. Então reconhecemos que era preciso um esforço maior para a criação de oportunidades no Norte", explica Eyres, sinalizando um reposicionamento estratégico da Austrália no xadrez comercial.
 
Em 2015, as novas estratégias de colonização ficaram claras. Na elaboração do documento "Our North, Our Future" [Nosso Norte, Nosso Futuro], um calhamaço de 200 páginas sobre a visão do governo federal para o povoamento do Norte, as linhas­mestras de ação sintetizam aonde se quer chegar: "Iremos arrumar as estradas e as telecomunicações, construir represas, derrubar os preços para a realização de negócios e tornar o Norte um local atraente aos que querem investir e trabalhar".
 
O lançamento do documento foi acompanhado pela divulgação de um fundo de quase US$ 4 bilhões para investimentos em obras de infraestrutura (portos, aeroportos, rede de água) e outro de US$ 443,8 milhões exclusivo para a melhoria de estradas. "Como no Brasil, temos clima tropical e subtropical, o que no período de chuvas torna as estradas intransitáveis".

O atual processo de colonização para o Norte é também um capítulo mais simpático na história sangrenta da ocupação pelos ingleses, no século XVI, que dizimou comunidades inteiras de aborígenes (os indígenas nativos da Austrália). Ao contrário do Brasil, onde a exploração de área indígena não é possível, na Austrália ela só é intocável sem o consentimento deles.

Agora com direitos garantidos, a população nativa é enxergada como parceira, seja por meio de joint ventures ou contratos comerciais. "Portanto, não são áreas fora de questão', diz Eyres. "Apenas com nível de complexidade maior". Apesar dos ruídos após as investidas recentes de aquisições de ativos australianos por chineses, o governo federal diz que menos de 5% das terras estão nas mãos de estrangeiros, encabeçados por britânicos e americanos. Outras nacionalidades, incluindo os chineses, representam menos de 1%. "Isso não é uma questão para as pessoas do Norte porque eles conseguem ver as oportunidades. Muito desse conversa sobre estrangeiro está concentrada nas capitais do sul", diz Eyres.

"Qualquer um pode comprar terra na Austrália. O governo só analisa negócios a partir de US$ 11 milhões ou de US$ 40 milhões para indústrias. E a maioria dos pedidos é aprovada".
 


Fonte: Valor Econômico