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Basf firma os pés no mercado de sementes

Eduardo Leduc, vice-presidente de proteção de cultivos da Basf para a América Latina: aquisição de parte dos negócios da Bayer vai agregar receita anual de € 1,3 bi

Deu a lógica. Pressionada por agências regulatórias a se desfazer de negócios para tornar viável a compra da americana Monsanto, a Bayer CropScience, braço da gigante alemã de produtos químicos nos segmentos de defensivos agrícolas e sementes, anunciou na sexta-feira a venda de parte de suas operações na área para a compatriota Basf.

Fechada por € 5,9 bilhões, a transação, que também depende do aval de autoridades antitruste, representa a maior aquisição dos 152 anos de história da Basf. Como esperavam analistas, marca a entrada da companhia em sementes e fortalece sua divisão agrícola em meio a uma onda de fusões e aquisições que promete conferir nova dinâmica ao mercado mundial de agroquímicos.

"É uma aquisição global de impacto. Com ela, firmamos o pé na área de sementes e também conseguimos um avanço interessante em herbicidas. Ganhamos boas possibilidades de combinação com os nossos produtos", afirmou ao Valor Eduardo Leduc, vice-presidente sênior da unidade de proteção de cultivos da Basf para a América Latina.

Em comunicado, as empresas alemãs informaram que o pacote fechado inclui a operação global da Bayer CropScence com glufosinato de amônio, um herbicida não seletivo, e a tecnologia LibertyLink, que envolve variedades transgênicas tolerantes a defensivos usados contra ervas daninhas – "essencialmente todos os negócios de sementes de culturas de campo" da Bayer.

Fazem parte desses negócios sementes de algodão (excluindo Índia e África do Sul), sementes de canola nos EUA e na Europa e sementes de soja. Serão transferidos da Bayer para a Basf as respectivas propriedades intelectuais, bem como instalações e unidades de pesquisa que empregam cerca de 1,8 mil pessoas.

Os ativos geraram à Bayer CropScience receita líquida de € 1,3 bilhão em 2016, quando as vendas totais da divisão da múlti alcançaram € 9,9 bilhões. Já a receita líquida da área de proteção de cultivos da Basf atingiu € 5,6 bilhões no ano passado.

Por abrigar um dos maiores mercados para agrotóxicos e sementes do mundo, o Brasil será um importante palco para a mudança de guarda que está por vir. E a expectativa da Basf em relação ao impulso que deverá ganhar por aqui é grande.

"Como os materiais de algodão e soja adquiridos já estão rodando no Brasil, os reflexos de partida já serão importantes. E será uma integração interessante, já que não há sobreposição de mercados ou funcionários", afirmou Leduc. Conforme o executivo, por isso, particularmente no país, a transação não deverá enfrentar a oposição do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). E poderá ajudar a Bayer CropScience a obter do órgão o aval necessário para concluir a compra da Monsanto.

Em linha com a postura da Comissão Europeia em relação a essa transação, o Cade recentemente remeteu o "ato de concentração" (como são chamadas as fusões e aquisições no jargão antitruste) envolvendo Bayer e Monsanto para uma decisão de seu tribunal administrativo.

No parecer da Superintendência Geral do Cade que impugnou a operação até uma palavra final do conselho, foi realçada uma preocupação justamente com a concorrência nos mercados brasileiros de soja e algodão – que, com a venda anunciada na sexta-feira, deixará de existir.

Ocorre que a Monsanto é protagonista em sementes de soja e algodão, e mesmo as menores fatias da Bayer poderiam representar domínios difíceis de serem desafiados, e não só no Brasil. Situação parecida com a do mercado de sementes de hortaliças, para o qual são esperados movimentos que abram caminho para a união de forças de ambas.

Outra preocupação global com a consolidação em agroquímicos – além da compra da Monsanto pela Bayer, a ChemChina adquiriu a suíça Syngenta e as americanas Dow e DuPont anunciaram uma fusão – diz respeita às pesquisas no segmento.

Nesse ponto, a venda de parte dos negócios da Bayer CropScience – a empresa continua com linhas de defensivos e na área de sementes de arroz e trigo, entre outras – para a Basf pode ser um bom sinal. De 2006 a 2015, a divisão agrícola Basf investiu US$ 7,3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, ou 13% de suas vendas. Segundo a consultoria Phillips McDougall, foi o maior percentual entre os grandes grupos do ramo.

Por Fernando Lopes, Stella Fontes e Lucas Marchesini
 


Fonte: Valor Econômico