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Biorrefinarias entram no foco de DSM e Amyris

Alguns hábitos triviais, como passar creme no rosto ou trocar o lubrificante do automóvel, sempre dependeram da exploração de petróleo, e poucas foram as matérias-primas que conseguiram competir nessas cadeias de produção que não fossem fósseis. As parcas iniciativas na direção contrária nas últimas décadas vinham esbarrando nos altos custos e na falta de tecnologia. Mas a americana Amyris e sua principal acionista, a holandesa DSM, estão tentando furar esse bloqueio e buscam no Brasil matérias-primas renováveis, em particular a cana-de-açúcar, para ganhar espaço na disputa.

No fim de 2017, a DSM comprou da Amyris uma biorrefinaria localizada em Brotas (SP), a única do tipo construída até o momento no país. A fábrica produz, a partir do melaço da cana, uma molécula chamada farneseno, utilizada em diversos processos fabris, como na produção de lubrificantes, combustível e plástico, eliminando a necessidade de derivados fósseis.

A transação, fechada por cerca de US$ 100 milhões, permitiu à DSM diversificar geograficamente a fabricação de produtos com matérias-primas renováveis. Para a Amyris, foi a oportunidade para levantar recursos para novos investimentos em biorrefinarias no país. Do valor total do negócio, US$ 35 milhões referem-se à aquisição da unidade industrial e US$ 27,5 milhões à transferência da propriedade intelectual sobre o farneseno.

Além disso, as duas firmaram um "acordo de valor compartilhado" por oito anos, pelo qual a DSM se compromete a pagar à Amyris parte de suas receitas com a venda de farneseno em mercados onde a americana já atuava. Em até três anos, serão pagos US$ 37,5 milhões. Nos anos seguintes os repasses seguirão os preços de mercado.

Com a aquisição, a DSM, que no ano passado faturou US$ 1,2 bilhão em todas as suas operações na América Latina, finca os pés na região do mundo que considera ser a mais promissora em termos de fornecimento de biomassa e que pode competir com o petróleo no fornecimento à indústria química, segundo Mauricio Adade, presidente da múlti holandesa para a América Latina.

"Temos biofábricas nos Estados Unidos e na Itália. [A aquisição] vai alavancar a importância dos nossos negócios na América Latina. Hoje, a produção é exportada, mas não exclui planos futuros de desenvolver matéria-prima para ser utilizada no Brasil", disse. A produção de farneseno integra-se a outros negócios da DSM, já que a molécula pode ser usada em sua produção de fragâncias e vitaminas.

A biorrefinaria de Brotas tem capacidade para produzir até 16 mil toneladas de farneseno por ano e usa como matéria-prima o melaço produzido em uma usina da Raízen na região.

Para a Amyris, que teve receita de US$ 143 milhões em 2017 e estima faturar US$ 190 milhões neste ano, a venda da biorrefinaria não significou sua saída desse ramo – muito pelo contrário. Segundo John Melo, CEO da companhia, os recursos levantados com a transação poderão ser investidos na finalização de projetos já iniciados no Brasil, como a segunda biorrefinaria em Brotas, e em outra unidade em Pradópolis, vizinha a uma usina do grupo São Martinho.

A primeira deve produzir farneseno para a indústria de ingredientes, fragrâncias e produtos nutricionais. A segunda usaria o xarope da cana para a produção de um adoçante natural sem calorias. Para a finalização dos dois projetos são necessários mais US$ 100 milhões.

A construção da segunda unidade de Brotas está em andamento. Já em Pradópolis, a construção foi interrompida em 2015 após a Amyris descumprir partes do acordo com a São Martinho, de quem era parceira. Se a americana retomar a construção, o grupo sucroalcooleiro poderá ser um fornecedor da biorrefinaria. Segundo Melo, o objetivo é ter as duas unidades rodando já no fim de 2019.


Fonte: Valor Econômico