Clipping

Bolha dos combustíveis

Postado em 29 de Julho de 2019

Donos de postos de combustíveis estimam que, em média, dois estabelecimentos têm fechado por mês em Ribeirão Preto. Economistas avaliam que crise econômica é um dos principais motivos para falência

Se, para alguns, o mercado dos postos de combustíveis representa uma fatia lucrativa da economia, para quem está inserido nele a realidade é outra. Empresários ouvidos pela reportagem da Revide falam em uma crise no setor. “De mal a pior”, “desleal” e “catastrófico” foram alguns dos termos utilizados pelos proprietários para descrever o cenário. Em períodos de bons ventos para a economia nacional e com políticas que continham, artificialmente, o valor do combustível, muitos se aventuraram no mercado esperando altos lucros. Porém, a crise veio e o cenário mudou.

Se não bastasse a queda na economia, estabelecimentos que vendem combustível adulterado ou que sonegam impostos conseguem vender o produto a um preço impensável para quem age de acordo com a lei, forçando os concorrentes a abaixarem os valores nas bombas ou ficarem com o posto às moscas. Atualmente, Ribeirão Preto possui 193 postos. Desse total, 22 estão fechados e outros 90 estão à venda. Segundo proprietários, em média, dois estabelecimentos fecham as portas por mês na cidade.

O empresário Luiz Álvaro Lunardi é um dos vários donos de postos que viu a situação piorar nos últimos anos. Para ele, um dos principais fatores é a margem de lucro sobre os combustíveis. No momento, o etanol é o combustível mais comercializado e a margem de lucro sobre ele, segundo Lunardi, gira em torno de 5%, algo próximo de R$ 0,12 por litro. “Mas não é só um motivo. Esse ramo tem muita falcatrua: combustível adulterado, roubo de carga, entre outros”, reclama o empresário. As “falcatruas” representam outro duro golpe nos negócios. “Em Ribeirão Preto, tem um posto a cada esquina. É só o motorista andar uma quadra para notar os valores diferentes”, explica Lunardi. Desse modo, os postos que agem de maneira ilegal criam um efeito dominó na cidade, forçando os demais empresários a abaixarem os preços. Para ele, a fiscalização por parte do poder público deveria ser mais criteriosa em toda a cadeia produtiva, passando pelas usinas, distribuidoras e, por fim, postos.

Outra crítica unânime entre os donos de postos é a carga tributária. Quase metade do preço da gasolina é composto por impostos, enquanto no etanol essa parcela corresponde a um quarto. Contudo, o valor do álcool sofre variações da safra de cana-de-açúcar, o que também afeta o valor da gasolina, que possui 27% de etanol anidro em sua mistura. Além disso, é necessário cobrir o valor pago na distribuidora. Todos esses fatores sofrem influências internas e externas, que podem fazer com que o preço do combustível varie de um dia para o outro. Desse modo, a margem de lucro por litro de combustível vendido gira em torno de 10%. Apesar da margem não ter mudado radicalmente nos últimos anos, a crise econômica que o país atravessa fez com que toda a cadeia produtiva fosse abalada. “Se eu invisto R$ 40 mil para comprar 20 mil litros de combustível, não tenho a certeza que eu vou receber esse dinheiro no fim do mês. Muitos clientes pagam no cartão de crédito, o que faz com que a gente receba só no mês seguinte”, comenta Fernando Roca, membro do Núcleo Postos de Ribeirão Preto.
Roca acrescenta que conseguir crédito extra em bancos para suprir as necessidades do mês também sai caro, o que cria um dilema para os proprietários de postos. “Tem muita gente que, dessa forma, contrai uma dívida de R$ 100 mil e nem percebe”, comenta. Renê Abad, vice-presidente da Brás combustíveis, também compartilha das queixas de Roca. “Nossa margem de lucro é baixa. Isso não sustenta. Os donos de posto vivem das lojas de conveniência”, comenta. Abad explica que os postos de combustíveis dentro das cidades vendem, em média, uma relação de 70% de etanol e 30% de gasolina, o que diminui a margem de lucro. Além disso, postos em rodovias e estradas tendem a vender combustível mais barato, porque compensam com o lucro do diesel.

Outro tipo de concorrência que vem pressionando os donos de postos é a feita pelas grandes redes de supermercados, que possuem suas próprias bombas. “O negócio deles não é vender combustível, é trazer freguês para dentro do mercado”, diz Roca.

Concorrência
Para Roca, os estabelecimentos de supermercados que vendem combustível com valores abaixo do custo de produção realizam “dumping”. Essa prática consiste em vender um produto com um preço muito reduzido, de modo que prejudique outras empresas do ramo. Segundo o economista da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, Luciano Nakabashi, para ser caracterizado como “dumping”, os supermercados deveriam vender o combustível com um preço abaixo do custo por um longo período, não apenas promoções esporádicas. “Os postos de supermercados vendem a um preço menor para expulsar os concorrentes. Isso acontece somente por um período de tempo, se não a empresa terá que operar com prejuízo no longo prazo”, explica Nakabashi.

Ainda sobre concorrência, outra prática criticada pelos empresários é a da verticalização. Diferente do “dumping”, a verticalização já recebeu o aval do diretor geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone. A ação consiste na aquisição de postos por distribuidoras de combustíveis. Segundo o diretor geral da Rede Sewal, Adolfo Silveira de Oliveira Neto, a prática deveria ser proibida, pois cria uma concorrência desleal no mercado. “Distribuidoras não deveriam operar postos. Elas têm um poder econômico muito maior do que os varejistas”, argumenta.

Diversas associações de varejistas do mercado de combustíveis criticaram a medida de Oddone. Em nota publicada no dia 2 de abril, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) classificou como “uma aventura irresponsável” a atitude do presidente da ANP. Segundo a Federação, a ANP não aprofundou a discussão do tema com as entidades do segmento.

Artificialidade
Como já foi citado anteriormente, além da concorrência entre os postos que buscam maneiras de se sobressair no mercado, existe a concorrência com empresas que atuam de maneira ilegal, vendendo combustível adulterado ou burlando o fisco. “Isso reduz o custo operacional desses estabelecimentos que conseguem vender o combustível na bomba com redução de até 20% no valor. Quem tenta acompanhar esse preço para atrair os clientes, cria um efeito dominó na cidade inteira, reduzindo drasticamente as margens”, explica Abad. Para se ter uma noção do tamanho do problema, a Fecombustíveis estima que sonegação de impostos chega a R$ 4,8 bilhões por ano no setor. O diretor da Rede Sewal denuncia que muitos postos ilegais são verdadeiras redes do crime organizado, com bens em nomes de laranjas e esquemas elaborados para burlar o pagamento de impostos. “O poder público deveria fiscalizar mais esse mercado. Ele gera mais de dois mil empregos para Ribeirão Preto e agora se encontra em colapso total”, afirma Oliveira Neto.

Para o economista Luciano Nakabashi, um dos fatores que explicam esse fenômeno pode ser o fato de que, aparentemente, o mercado de combustíveis vende um produto homogêneo. “É difícil para o consumidor diferenciar a qualidade do combustível. Essa característica ajuda no processo de formação de cartéis ou de conluio entre postos”, observa. O economista também argumenta que elevações artificiais no preço dos combustíveis tendem, em um primeiro momento, a gerar mais lucro para os proprietários.

Por outro lado, os rendimentos vantajosos atraem cada vez mais pessoas para esse nicho de mercado, o que aumentaria a oferta, mesmo sem uma elevação natural na demanda. Como consequência, o mercado se “autorregularia”, com o fechamento de diversos estabelecimentos até que a oferta e a demanda se equilibrassem.

Para ilustrar, em dezembro de 2015, Ribeirão Preto possuía 166 postos. Em três anos, o mercado cresceu 14%, mesmo durante a crise que reduziu o poder de compra dos brasileiros. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) apresentou resultados negativos do primeiro trimestre de 2015 até o terceiro trimestre de 2017.

O professor de Economia da FEA, Edgard Monforte também visualiza esse aumento na oferta sem um acompanhamento da demanda. Para ele, o principal motivo para o fechamento dos postos de combustíveis é o momento pelo qual o país atravessa. Segundo Monforte, a economia brasileira vem de um crescimento tímido nos últimos anos. Nesses momentos, a lucratividade de alguns setores é reduzida, as vendas caem e os custos não diminuem. “Muitas vezes, ocorre esse fenômeno durante uma retração na economia. A oferta aumenta, mas a demanda está em queda ou estagnada. Com isso, o número de falências tende a aumentar”, explica o economista. “Em momentos de crise, o mais importante é gerir os negócios com cautela, buscando evitar o endividamento”, finaliza.

Impacto além das bombas
Em média, um posto de combustíveis, em pleno funcionamento, emprega entre 20 e 25 pessoas. Com 22 postos de combustíveis fechados na cidade, aproximadamente 500 pessoas perderam os empregos. Segundo o Sindicato dos Frentistas de Ribeirão Preto, o salário de frentistas e caixas de loja de conveniência varia entre R$ 1,5 mil a R$ 2,2 mil, dependendo do horário de trabalho. Com esses números, o membro do Núcleo Postos estima que, somente com o fechamento dos 22 postos, deixam de circular por mês em Ribeirão Preto cerca de R$ 1 milhão. À reportagem, o Sindicato confirmou que muitos postos são obrigados a reduzir as margens para se manterem competitivos. Além disso, afirmou que acompanha as demissões e presta apoio aos funcionários que não tiveram todos os direitos honrados pelo empregador.

Por Paulo Apolinário

 


Fonte: Revista Revide - Ribeirão Preto