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BR, Raízen e Ipiranga serão investigadas pelo Cade por cartel nos leilões dos portos

Postado em 15 de Julho de 2019

Wilson Novaretti foi um dos primeiros pesquisadores brasileiros a alertar sobre o perigo dos fitonematoides em cana-de-açúcar. Após deixar a Copersucar, criou em 1994, o primeiro laboratório privado de nematologia do Brasil.

Wilson Roberto Trevisan Novaretti foi um dos maiores nematologistas que o Brasil conheceu. Sócio fundador da Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), passou grande parte de sua carreira alertando os agricultores sobre esses “inimigos invisíveis”, como ele mesmo gostava de chamá-los. “Não é porque não se pode ver, que significa que não existe nematoide. Existe, e a perda é grande.”

Após sua graduação como engenheiro agrônomo pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP) em 1973, Novaretti elegeu a cultura canavieira e os nematoides como companheiros em sua vida profissional. Nos anos seguintes, publicou duas teses sobre o tema: “Efeitos de diferentes níveis de populações iniciais de Meloidogyne javanica em duas variedades de cana-de-açúcar cultivadas no Estado de São Paulo” e “Controle de Meloidogyne incógnita e Pratylenchus zeae em cana-de-açúcar com nematicidas, associados ou não à matéria orgânica”.

Atuou por 16 anos como pesquisador na Coopersucar, sendo responsável pela criação do setor de Nematologia. Ao deixar a Copersucar, hoje, CTC, passou a desempenhar atividades de assessoria e consultoria técnica nas áreas de cana-de-açúcar e café, período em que também conduziu experimentos para empresas privadas, auxiliando no desenvolvimento de defensivos, entre eles, nematicidas. Para dar suporte às ações de consultoria, criou o primeiro laboratório privado de nematologia do Brasil: o Laboratório ANNA.

A luta para livrar a cana-de-açúcar dos fitonematoides fez parte da vida de Novaretti até o dia 09 de outubro de 2015, data em que faleceu em decorrência de uma grave doença. Porém, seus ensinamentos permanecerão para sempre vivos nos canaviais brasileiros. Constantemente preocupado em transmitir conhecimento, o pesquisador mudou conceitos no setor sucroenergético nacional, e criou vários moddus operandi para o controle, não apenas dos nematoides, mas também de outras importantes pragas da cana-de-açúcar.

De Ana para ANNA

Um dos maiores legados que Novaretti deixou para a agricultura brasileira foi o ANNA Laboratório de Nematologia, localizado em Piracicaba. A sigla remonta oficialmente às palavras “Análises Nematológicas Na Agricultura”. No entanto, o pesquisador costumava afirmar a seus amigos próximos que o nome fora dado em homenagem à sua esposa: Ana Augusta Purens Novaretti. Nada mais justo. Além de esposa e mãe, Ana foi a maior companheira de trabalho de Novaretti.

 

Wilson e Ana começaram seu relacionamento durante o ensino médio. Dia 17 de abril de 2019, completariam 51 anos de namoro. Embora formada em letras pela USP, Ana pode ser considerada uma agrônoma sem diploma. Durante toda a carreira de Novaretti, estudava junto dele, sendo a responsável, por exemplo, pelas correções gramaticais de todas as teses e artigos escritos pelo pesquisador e também pela edição dos slides de suas palestras.

“Como ele viajava muito a trabalho, eu traduzia artigos, livros, revistas e materiais de estudo do inglês ou espanhol para português e gravava em fitas cassetes para que ele pudesse ir ouvindo na estrada.” Ana era o braço direito - e o esquerdo - de seu marido, que compartilhava com ela todas suas ideias, palpites e resultados de experimentos de campo.

 

Ana foi uma das maiores incentivadoras para a criação do Laboratório, cujo intuito inicial era dar suporte aos experimentos do próprio Novaretti. “O foco das universidades e instituições de pesquisa naquela época era outro, já, meu marido conduzia experimentos de novos produtos. Devido a essa dificuldade - e com uma visão de futuro -, ele resolveu montar seu laboratório pessoal.”

Instalado, a princípio, na lavanderia de sua casa em Piracicaba, em meados de 1993, o laboratório contava inicialmente com três “funcionários”: Wilson, Ana – que mais tarde deixou seu trabalho como professora de ensino fundamental para se dedicar exclusivamente à nova empresa - e a filha do casal: Tânia.

Já com alguns clientes em vista, o laboratório “se mudou” em 1994 para uma sede própria, também em Piracicaba, onde se encontra até os dias de hoje. Ana conta que, logo no início dos trabalhos, viram o quão era necessário este tipo de serviço para o mercado nacional, pois houve crescimento rápido e espontâneo da demanda “Nós desenvolvemos nova própria metodologia de processamento para que pudéssemos trabalhar em escala de produção, o que se mostrou altamente eficaz, e ajudou a alavancar o nome da empresa.”

Atualmente, o Laboratório ANNA ainda se encontra em uma posição de destaque no agronegócio nacional por realizar com rigor análises nematológicas em todos os tipos de culturas, com destaque para a cana-de-açúcar.

25 anos de história e inovações

Tânia Purens Novaretti passou parte de sua adolescência fazendo relatórios de laudos das amostras do laboratório. Ela brinca que, caso não batesse uma “meta” semanal, não poderia viajar ou sair com as amigas. “Meu pai sempre me envolveu no mundo da nematologia, conversando muito comigo sobre o tema. Por conta disso, desde meus 14 anos trabalhei junto dele no laboratório improvisado, montado no fundo de casa.”

Após concluir o ensino médio, Tânia partiu para Águas de São Pedro/SP a fim de estudar administração hoteleira, no Centro Universitário Senac. Uma vez graduada, conseguiu emprego em uma rede hoteleira na capital paulista. No entanto, nunca deixou a nematologia de lado. Entre uma prova e outra (neste tempo, também fazia MBA em administração) e durante os momentos de folga do hotel, trabalhava nos relatórios do laboratório. “Eu viajava todos os finais de semana à Piracicaba para buscar material da empresa para trabalhar ao longo da semana. Como meu pai ficava muito tempo fora do laboratório, ele precisava que essa parte mais burocrática ficasse comigo.”

Após dois anos nessa rotina, Tânia abandonou a Terra da Garoa, em 2003, para se dedicar em tempo integral à empresa, assim como fizera sua mãe na década anterior. Hoje, está à frente da gerência do laboratório, sendo responsável pela parte administrativa, relacionamento com clientes, entrada e saída de amostras e supervisão das análises.

De acordo com ela, ao longo dos 25 anos do Laboratório ANNA, já foram processadas 170 mil amostras de mais de 150 unidades agroindustriais. “Acredito que nosso sucesso se deve à busca incessante por inovações que atendam a demanda do mercado, no que tange a gestão de análises nematológicas.”

Além das análises, a equipe do Laboratório ANNA atua junto às usinas e produtores auxiliando, se necessário, no processo de retirada das amostras. Realiza, também, palestras e treinamentos com as equipes de campo. “Uma das maiores contribuições de meu pai foi o desenvolvimento de uma metodologia conhecida como Iscas de Embalagem (saquinhos), que revolucionou o combate aos fitonematoides na cultura da cana-de-açúcar, por ser mais econômica, prática e eficiente que o método convencional de análise.”

A técnica idealizada pelo Prof. Dr. Newton Macedo e aprimorada por Novaretti, que calibrou os níveis populacionais para a cana-de-açúcar, consiste em simular condições para que os parasitas se desenvolvam dentro de saquinhosde plantio de muda, a partir do solo coletado na rizosfera das plantas, no campo. Plantam-se “iscas” que são cultivadas por alguns dias. Nestas condições, os nematoides manifestam todo seu potencial de infestação das raízes emitidas pelas gemas dos toletes. A grande vantagem desta metodologia é poder fazer levantamento populacional de fitonematóides, em qualquer época do ano.

Outra grande inovação do laboratório é o Annalab, o primeiro software de gestão de análise nematológica do Brasil. Desenvolvido após intensa pesquisa, ele possibilita que os clientes preencham as fichas de análise de campo pelo site do laboratório e, mediante utilização de login e senha, compartilhem os resultados das amostras com quem desejarem. Dessa forma, o ANNALab, além de fornecer os laudos, alimenta um banco de dados com o histórico dos resultados das análises do cliente, convertendo-o em gráficos, em que são apresentados vários itens de interesse para a gestão do controle de fitonematoides. São informações preciosas para o agricultor em qualquer tomada de decisão.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vai investigar a possível prática prejudicial à livre concorrência na formação do consórcio entre Raízen, BR Distribuidora e Ipiranga para participação nos leilões dos portos. O superintendente-geral substituto do Cade, Kenys Menezes Machado, determinou na última sexta-feira, 12, a abertura de inquérito administrativo por conta da ausência de concorrência nos leilões..

As três empresas formaram o Consórcio Nordeste e arremataram juntas, no leilão realizado pelo MInistério da Infraestrutura em abril, os quatro terminais ofertados –três deles na Paraíba e um em Vitória. O investimento nas áreas é estimado em R$ 199 milhões nos próximos 25 anos e o consórcio sem comprometeu a pagar R$ 219,5 milhões de outorga à União.

Não houve competição no leilão pelo principal ativo do leilão, que era o terminal de Vitória e demanda investimento de R$ 128 milhões para ser construído. A oferta do consórcio BR, Raízen e Ipiranga foi a única apresentada na concorrência.

“Tendo em vista a ausência de concorrência ocorrida nos leilões de arrendamento de áreas portuárias destinadas à movimentação e armazenagem de granéis líquidos (combustíveis) nos portos de Cabedelo/PB e Vitória/ES, instaure-se Procedimento Preparatório de Inquérito Administrativo para apuração de possível prática prejudicial à livre concorrência consistente na formação de consórcio entre as empresas Raízen Combustíveis S/A, Petrobras Distribuidora S/A e Ipiranga Produtos de Petróleo S/A para participação em leilões dessa natureza”, diz o despacho de Machado.

A epbr procurou individualmente cada uma das empresas. Em consórcio, as empresas informaram neste domingo que não receberam notificação do órgão competente para poder se manifestar.

O consórcio Nordeste, formado pelas empresas Petrobras Distribuidora, Ipiranga e Raízen, vencedor do leilão do porto de Cabedelo (PB), informou que sua atuação foi feita perfeitamente em linha com as regras determinadas pelos certames e conforme previsto no edital do leilão.

“Ressalta ainda que as operações serão realizadas por uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) para movimentação e armazenamento de granéis líquidos e com o total compromisso das empresas participantes na criação da infraestrutura necessária que contribuirá para a eficiência logística de distribuição de combustíveis no país”, diz em nota.

O consórcio Navegantes, que vendeu a disputa pelo Porto de Vitória, afirmou que seguiu as regras determinadas no edital público. “Cabe ressaltar que, conforme legislação vigente, consórcios não estão submetidos à análise prévia de concentração de mercado pelo Cade, uma vez que o próprio processo licitatório ao qual os consórcios se submetem já está amparado por regras concorrenciais. O Consórcio Navegantes declara ainda que preza pela transparência e ética em todas as suas relações”, diz a nota.

Não será a primeira vez que as empresas são investigadas pelas sua atuação em conjunto. Em julho do ano passado, a Polícia Civil do Paraná realizou operação para prender gerentes e assessores comerciais das distribuidoras de combustíveis BR, Raízen e Ipiranga por suspeita de formarem uma quadrilha para controlar o preço final dos combustíveis nas bombas dos postos, informou a polícia paranaense.

Em abril, o Cade condenou a Ipiranga e a BR Distribuidora por induzir postos a uniformizar os preços de combustíveis nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Contagem e Betim, em Minas Gerais. O processo foi aberto em abril de 2010 para apurar uma possível formação de cartel entre 2006 e 2008. Ao concluir o procedimento, o Cade condenou as duas empresas por indução a conduta uniforme de preços, uma infração contra a ordem econômica. As duas empresas terão que pagar multas de R$ 40.693.867,35 e 64.445.861,88, respectivamente.

Por Felipe Maciel

 

 


Fonte: Agência epbr