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Brasil inaugura fundo ‘sustentável’ de ONU e Rabobank

O fundo de US$ 1 bilhão criado pela ONU Meio Ambiente, com apoio do Rabobank, para financiar projetos e práticas de agricultura sustentável, anunciado no ano passado, começará a ter seus primeiros desembolsos no próximo mês. O primeiro projeto beneficiado deverá do segmento sucroalcooleiro do Brasil, afirmou o diretor global de sustentabilidade do banco holandês, Bas Rüter, durante a Conferência Global de Ações Climáticas (GCAS, na sigla em inglês), realizada em San Francisco, na Califórnia.

Os recursos do fundo vão financiar a ampliação de uma usina, o aumento da produtividade e projetos de conversão de áreas agrícolas degradadas e de reflorestamento, detalhou Rüter ao Valor. Ele não revelou qual empresa será beneficiada nem qual será o valor do aporte, mas afirmou que a companhia em questão faz parte da iniciativa Bonsucro, uma certificação de sustentabilidade. "É um projeto que pretende combinar os benefícios ambientais com a melhora da situação dos trabalhadores no campo", disse.

Batizado de Kickstart Food, o fundo da ONU foi criado no ano passado para contribuir com iniciativas que ajudem a reduzir as emissões de gases de efeito estufa na agricultura por meio do aumento da produtividade e do fortalecimento da resiliência das lavouras. O fato de a primeira iniciativa apoiada pelo fundo ser direcionada para um projeto brasileiro está alinhada com a prioridade dada ao país e à Indonésia, nesses aportes, segundo Rüter.

O fundo conta com um aporte de US$ 700 milhões do Rabobank. Os demais US$ 300 milhões estão sendo negociados com outras instituições e bancos públicos. Apelos a financiamentos dos governos deverão ocorrer apenas quando os produtores não conseguirem tomar empréstimo a taxas regulares e dentro das linhas normais dos bancos.

Como o fundo está focado no apoio a projetos de sustentabilidade, os prazos de pagamento serão longos. "Os prazos serão definidos caso a caso. Por exemplo, para projetos de reflorestamento, podem ser necessários mais de dez anos. Para projetos em áreas degradadas, o prazo pode ser menor", afirmou.

Nesse horizonte, disse, já deverá ser possível colaborar para a redução das emissões de gases de efeito estufa dentro dos prazos estabelecidos pelo Acordo de Paris para a limitação do aumento da temperatura global. Segundo Rüter, há especial atenção a projetos de reflorestamento, uma vez que metade das emissões do setor agrícola está relacionada ao desmatamento.

Além do setor sucroalcooleiro no Brasil, também está na mira do fundo o apoio a projetos de integração lavoura-pecuária-floresta no país em áreas hoje voltadas à produção de soja no Cerrado. Projetos de agricultura sustentável de produtores rurais de pequeno e médio porte também poderão ser favorecidos.

Nesses casos, os recursos serão repassados pelo Rabobank a cooperativas financeiras rurais, que por sua vez operarão os financiamentos, afirmou Rüter. Além de Brasil e Indonésia, outros países do Sudeste Asiático, regiões da África e das Américas do Sul e Central também têm potencial para incentivo a soluções "inteligentes" na agricultura.

Rüter ressaltou que as ações na África serão mais cautelosas, por causa do risco elevado. Os primeiros projetos na África deverão ser financiados por meio de grandes companhias que têm intenção de estabelecer uma relação de longo prazo com os agricultores africanos de pequeno porte e pequenas cooperativas. "Queremos garantir que os primeiros projetos ocorrerão em regiões que são relativamente estáveis", assegurou.

A jornalista viajou a San Francisco a convite da UN Foundation

Por Camila Souza Ramos


Fonte: Valor Econômico