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Brasil quer financiar venda de máquinas agrícolas à Nigéria

O Brasil costura um pacote de crédito de US$ 1,1 bilhão para financiar a venda de máquinas e equipamentos agrícolas para a Nigéria, o maior país africano. O objetivo é que a estratégia sirva como projeto-piloto para enfrentar a concorrência da China na África.

A China fornece facilidades de financiamento no continente, como taxas de juros de 2% ao ano e 20 anos de prazo de pagamento. No entanto, fontes nigerianas reclamam que os chineses vendem suas máquinas e equipamentos baratos e depois desaparecem. Com isso, os produtores ficam sem sabem operar as máquinas com precisão ou como manter os equipamentos em funcionamento, e um ou dois anos depois o que no início era solução se torna um problema.

Segundo Ricardo Guerra de Araújo, embaixador brasileiro em Abuja, capital da Nigéria, o pacote brasileiro inclui um plano de negócios amplo para impulsionar a agricultura em geral, além de uma estrutura de financiamento que une forças de bancos públicos e privados.

"O que nos diferencia da China é que estamos propondo um plano de negócio que cobre toda a cadeia de valor, incluindo montagem de equipamentos em solo nigeriano e treinamento para quem vai operá-los, além do fornecimento de fertilizantes, sementes, pesticidas, marketing e [ferramentas de] comercialização, chegando até consumidor", afirma.

O pacote, que negociadores esperam fechar até o fim do ano, prevê inicialmente a venda e a montagem na Nigéria de 20 mil máquinas e equipamentos. Se tudo der certo, a sul-coreana LSTractor, que atua no Brasil, poderá instalar uma montadora de tratores no Estado nigeriano de Bauchi.

As negociações entre os dois países giram no momento em torno da taxa de juros. A ideia é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Economico e Social (BNDES) e bancos comerciais façam o empréstimo em euros para tornar a taxa mais aceitável para a Nigéria. A taxa Libor em euro está em torno de 0,5% ao ano, ante a taxa Libor americana de mais de 2%.

A ideia é que o empréstimo tenha prazo de 13 anos, com três de carência. O Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF) deverão assegurar a garantia de crédito.

O Comitê de Financiamento e Garantia de Exportações (Cofig), que dentro da Camara de Comércio Exterior (Camex) aprova esse tipo de financiamento, discutirá o pacote nigeriano em reunião no fim do mês.

O plano de negócio agrícola com a Nigéria foi elaborado pela Fundação Getúlio Vargas. A entidade fez um estudo da viabilidade sobre a agricultura nigeriana, mapeando venda de equipamentos, produtividade e fontes de fornecimento de serviços, entre outros pontos.

Para a Nigéria, que tem 200 milhões de habitantes e o maior Produto Interno Bruto (PIB) da África, o desafio de garantir sua segurança alimentar passa por uma parceria estratégica com o Brasil na área agrícola. Em vez de acordos com chineses ou americanos, a cooperação com o Brasil é bem-vista inclusive porque os dois países têm o mesmo tipo de clima e de solo, por exemplo. A Nigéria quer também reproduzir o modelo da Embrapa na área de pesquisa agrícola.

O governo nigeriano queria inicialmente um pacote de investimento agrícola bem mais ambicioso, de US$ 10 bilhões. Mas o Brasil propôs começar mais devagar. Mas está em jogo não apenas esse projeto, mas a exportação desse modelo de negócio para outros países da África.

Em vez de apenas vender commodities, com o plano o Brasil poderá ampliar exportações de produtos industriais, com valor agregado.


Fonte: Valor Econômico