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Caixa e Petrobras agem contra empresas controladas pela J&F

A Caixa Econômica Federal e a Petrobras tomaram medidas que podem provocar perdas para a J&F, alegando preocupação com os crimes revelados pelos irmãos Joesley e Wesley Batista em seu acordo de delação premiada.
A Caixa decidiu cobrar antecipadamente um empréstimo de R$ 50 milhões da Flora, empresa de higiene e limpeza dona das marcas Minuano e Neutrox. O financiamento só venceria em 2018.

Com prejuízos acumulados de R$ 57 milhões em 2014 e 2015, a Flora enfrenta dificuldades financeiras e trocou recentemente de presidente. A cobrança antecipada da dívida pode agravar os problemas.

FATORES DE PRESSÃO
Governo e autarquias aumentam pressão sobre a empresa, que enfrenta crise de reputação

Caixa
Maior credor da J&F, com cerca de R$ 10 bilhões emprestados ao grupo, o banco estatal tenta bloquear o acesso de empresas dos irmãos Batista a crédito

AGU
A ministra Grace Mendonça afirmou que a AGU irá processar a JBS por danos ao sistema financeiro caso a CVM conclua que a empresa lucrou com a divulgação da delação premiada de seus executivos
Petrobras

Estatal usou uma cláusula anticorrupção para extinguir contrato de fornecimento de gás para térmica do grupo J&F, controlador da JBS, em Cuiabá. Empresa vai cobrar do grupo empresa multa de R$ 70 milhões

CVM
A Comissão de Valores Mobiliários já abriu 11 investigações contra a empresa; os processos podem resultar em multas à empresa e punições a seus administradores
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Executivos próximos ao grupo disseram à Folha que a companhia não rompeu nenhuma cláusula do contrato que pudesse justificar a cobrança antecipada. Procurada, a Caixa não comentou.
A Petrobras cancelou contrato de fornecimento de gás para usina termelétrica da Âmbar, que também pertence à J&F, em Cuiabá. A estatal diz que cobrará da empresa multa de R$ 70 milhões.

O relacionamento das duas companhias já enfrentava problemas desde que a J&F apelou ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para forçar a Petrobras a vender gás a preços bolivianos para a usina.
Em sua delação premiada, Joesley disse que ofereceu propina ao presidente Michel Temer e ao ex-deputado Rodrigo Rocha Loures para influenciar a decisão do órgão antitruste.


Em nota, a Petrobras diz que o contrato de fornecimento de gás à Âmbar tem uma cláusula anticorrupção e que "tomou conhecimento" dos depoimentos em que os executivos da J&F admitem que "cometeram atos que violam a legislação anticorrupção".

A Âmbar informou que "não é nem nunca foi alvo de investigações de atos de corrupção" e que "os fatos relatados na colaboração se dão no âmbito da holding".

A empresa diz ainda o acordo de leniência com o Ministério Público Federal liberou as controladas da J&F para celebrar contratos com instituições e empresas públicas.​

RETALIAÇÃO
Pessoas próximas aos Batista dizem que a empresa é alvo de retaliação do governo por causa do impacto político da delação dos irmãos Batista.

Joesley entregou às autoridades a gravação de uma conversa com Temer.
Além dos problemas com a Caixa e a Petrobras, os executivos dizem que o grupo está sendo alvo de um pente-fino da Receita Federal e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e de vários processos abertos pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Mas as medidas tomadas até agora atingiram negócios menores, por causa do receio do impacto da crise do grupo no setor financeiro e nos pecuaristas.

A J&F é dona da JBS, maior processadora de proteína animal do mundo.

Com pelo menos R$ 23 bilhões a receber do grupo J&F, BB, Bradesco, Itaú, Santander e Caixa temem o risco de um calote da empresa, que os obrigaria a lançar provisões volumosas em seus balanços.

Segundo um banqueiro, não há disposição para dar dinheiro novo ao grupo, mas executar suas dívidas seria pior para todos, já que ele não teria condições de pagar tudo.

A Caixa é a que teria mais a perder, porque é o maior credor das empresas dos Batista.

Para alongar os prazos de pagamento, os bancos estão pedindo mais garantias, como mandatos de venda de ativos. A dívida das empresas da J&F supera os R$ 70 bilhões, mas é concentrada na JBS e na Eldorado Celulose.
Wesley Batista já teve várias reuniões com o setor financeiro para explicar a situação.

Conforme uma pessoa presente a um desses encontros, o empresário deixou claro que o grupo pode quebrar se os bancos interromperem os financiamentos de capital de giro.

Boicote a empresas da JBS preocupa agricultores
O efeito pós-delação premiada dos donos da JBS toma um rumo que preocupa muito o campo: o do boicote de produtos.

A possibilidade de aumento do boicote, já iniciado por algumas empresas, provocaria uma interrupção das atividades dos produtores ligados a esse setor.

Só a Seara, uma das empresas da JBS, tem 10 mil produtores integrados —são famílias de agricultores que criam animais para a empresa.

Além disso, a Seara tem outros 70 mil funcionários dentro das unidades de produção.
A transferência das ações comprometedoras de dirigentes de empresas para todo um processo produtivo põe em risco a sobrevivência de empregos e de receitas de municípios, afirma Francisco Turra, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).

Apenas no caso da Seara, pelo menos 100 mil trabalhadores serão afetados, segundo ele.
"O boicote visa os dirigentes, mas pode afetar também as finanças de pelo menos 60 municípios onde a empresa atua."

Turra reconhece, no entanto, que uma série de ações de ajustamento de conduta ética precisa ser feita.
"Muitas delas já estão sendo tomadas", diz.

Além de buscar uma recuperação da imagem do setor, a ABPA desenvolve normas de conduta para o setor com o Ministério da Agricultura. O objetivo é evitar novos casos de desvio de conduta no setor, segundo o presidente da entidade


Fonte: Folha de S. Paulo