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Castello Branco defende continuidade na Petrobras

Postado em 26 de Fevereiro de 2021

Em suas primeiras declarações públicas depois de o governo pedir a troca no comando da Petrobras, o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, saiu ontem em defesa de sua gestão e do alinhamento dos preços dos combustíveis ao mercado internacional. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro prometia dar uma “nova dinâmica” à empresa em agenda política ao lado do general da reserva e diretor-geral de Itaipu Binacional, Joaquim Silva e Luna - indicado para assumir a petroleira -, Castello Branco pregou a continuidade do plano estratégico da estatal, com foco na redução da dívida e aumento da rentabilidade aos acionistas, incluindo a União.

Em meio à repercussão negativa no mercado em torno da intervenção de Bolsonaro na Petrobras, o executivo garantiu que não vê sinais de desistência de investidores interessados na compra das refinarias, nos negócios em curso. E anunciou que, enquanto a troca no comando da empresa não for sacramentada, a gestão atual seguirá perseguindo o preço de paridade de importação (PPI).

“É surpreendente, em pleno século XXI, ainda dedicarmos tanta atenção ao assunto da paridade de preços de importação. Combustíveis são commodities cotadas em dólares, os preços são formados pela oferta e demanda global e não há como se desviar deles. A experiência de fugir da regra da paridade de importação foi desastrosa, a Petrobras perdeu US$ 40 bilhões com isso”, disse o executivo em videoconferência com investidores, sobre os resultados de 2020. 

Castello Branco voltou a afirmar que os preços de combustíveis no Brasil “não são caros, nem baratos”, e sim preços de mercado, mas que “impostos são elevados” no país. E destacou que, para empresa com dívida bruta alta, de US$ 76 bilhões, os efeitos de não se trabalhar com a paridade são ainda mais prejudiciais. “A nossa dívida é majoritariamente em dólares. Como conciliar obrigações em dólares com receitas em reais? Esse é outro efeito perverso do descolamento da paridade dos preços de importação”, disse.

A reunião virtual com analistas e investidores foi marcada por recados diretos - e também indiretos - às críticas de Bolsonaro a sua gestão. Durante a videoconferência, Castello Branco vestiu uma camisa de malha estampada com a mensagem “Mind the gap” - expressão em inglês, usada nos avisos sonoros do metrô de Londres, no Reino Unido, para alertar os passageiros sobre o vão entre o trem e a plataforma e que pode ser traduzida também como “atenção à lacuna”. “Gap”, em inglês, é também o termo usado, por analistas financeiros que acompanham a petroleira, para se referir à distância entre os preços de combustíveis praticados pela empresa e a referência internacional.

Ao ser questionado sobre a vestimenta, o executivo explicou que fazia referência à distância que separa a Petrobras das grandes petroleiras globais, em termos de performance. Um dos objetivos do plano estratégico da empresa é justamente reduzir essa disparidade e a expressão foi usada para a divulgação do plano de negócios para os anos de 2020 a 2024.

Na mesma hora, Bolsonaro discursava ao lado de Silva e Luna e defendia que “uma estatal, seja qual for, tem que ter sua visão de social”. “Não podemos admitir uma estatal, um presidente que não tenha essa visão”, disse. “Todos aqueles que dependem do produto da Petrobras vão se surpreender positivamente com seu trabalho quando ele [Silva e Luna] assumir”, disse o presidente, na cerimônia de lançamento da revitalização do sistema de transmissão de energia de Furnas, em Foz do Iguaçu (PR).

O diretor de logística e comercialização da Petrobras, André Chiarini, disse que o conselho de administração da empresa continuará a zelar “com rigor” pela política de preços da companhia. Ele citou que, ao todo, a estatal fez 38 reajustes no preço da gasolina em 2020, que representaram uma baixa de 4% nos preços ao longo do ano. No caso do diesel, foram 28 reajustes, com uma queda de 13%, enquanto no gás liquefeito de petróleo (GLP), houve alta de 22% após 13 reajustes ao longo de 2020. Castello Branco rebateu, ainda, críticas sobre a falta de transparência dos preços da empresa. Por força de uma resolução da Agência Nacional de Petróleo (ANP), a companhia divulga o preço dos derivados praticados em 36 pontos de suprimento. O executivo, porém, descartou abrir a fórmula de preços.

“Espero viver um dia em que assunto de preços de combustíveis deixem de ser relevantes como deixaram de ser os demais preços da economia”, disse. “Fomos acusados injustamente por falta de transparência” concluiu, ao comentar que nenhuma empresa privada revela detalhes de suas respectivas políticas comerciais.

Sobre a troca no comando da estatal, Castello Branco disse que não vê necessidade de mudanças nos rumos da empresa, e pregou a continuidade no plano estratégico. “A estratégia da companhia está traçada há bastante tempo, mas em termos de execução ainda há muita coisa a ser feita. Ainda há mais de 50 ativos à venda, alguns muito importantes, como as refinarias, a BR Distribuidora, a Braskem, campos de petróleo. Cortes de custos têm que ser contínuos, existe muita coisa a ser feita na transformação digital. Se for respeitada a mesma estratégia, a sua execução terá que continuar em ritmo acelerado”, afirmou.

Ele disse também que desconhece qualquer processo de transição em curso - Silva e Luna ainda precisa ser eleito conselheiro da Petrobras em assembleia geral de acionistas, e passar pelo crivo do conselho de administração da petroleira antes de assumir. “Sem dúvida nenhuma estamos dispostos a fazer com que a transição ocorra da maneira mais suave e eficiente o possível”, comentou.

O atual presidente garantiu que ele e a diretoria executiva atual da companhia vão cumprir seus mandatos até o fim, em 20 de março -ou até que a troca no comando seja sacramentada. “Não há debandada”, disse.

O executivo também optou por não comentar sobre perspectivas futuras para a continuidade do programa de venda de ativos. Ele afirmou, no entanto, que até o momento não houve desistência de interessados na compra das refinarias nos processos em curso e que viu apenas “manifestações de preocupação” dos potenciais compradores que apresentaram propostas.

Sob críticas de Bolsonaro, de que a Petrobras precisa de um presidente com “visão social”, Castello Branco destacou que a estatal pagou R$ 129 bilhões em tributos e participações governamentais em 2020. “Essa é a verdadeira contribuição social, trabalhar, gerar valor e poder ajudar a financiar o desenvolvimento econômico”, disse.


Fonte: Valor Econômico