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Censo Varietal dos canaviais mostra realidade dos últimos anos

Postado em 23 de Junho de 2020

Produtividade, renovação e variedade possuem uma forte relação em um canavial. E no campo se começa toda a cadeia do setor sucroenérgetico. Para facilitar a vida do produtor, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) realiza anualmente a Censo Varietal, que visa atender a crescente necessidade de informação do setor, possibilitando aos participantes o acesso a importantes conhecimentos referentes às variedades mais utilizadas nas principais regiões produtoras de cana-de-açúcar do país.

Segundo o Consultor do Programa Cana IAC, Rubens Leite do Canto Braga Junior, nos dados já coletados foi observado houve uma redução de 2,8% na área cultivada. “Essa diminuição se deve aos anos de crise em que o setor está envolvido, fazendo com que um grande número de empresas entrem em fase de recuperação judicial”, explica. Proporcionalmente, o Espírito Santo e Paraná tiveram as maiores reduções de área.

Foi identificada uma taxa de renovação na safra 2019/20 de 16,1%, que representa um aumento de 5,3% em relação à safra passada. As variedades mais utilizadas foram pela ordem: RB867515, RB966928, CTC4, RB92579 e RB855156. Ao todo foram mencionadas 543 variedades ou clones de cana-de-açúcar. Do Instituto se destacaram no censo algumas variedades. A IACSP95-5094, que está em franca expansão; além das IAC91-1099 e a IACSP97-4039, que são destinadas as regiões com maior déficit hídrico, como o norte paulista, Goiás e Minas Gerais); além das recém lançadas – IACSP01-5503 e IACCTC07-8008 – ambas com característica de rusticidade.

A região de São José do Rio Preto (São Paulo) se destacou pelo maior uso de variedades modernas, alcançando o melhor Índice de atualização varietal. Já o Estado de Goiás se sobressaiu por ser o estado da região Centro-Sul onde houve a maior proporção de áreas renovadas, no qual 17,3% das áreas cultivadas foram trabalhadas como áreas de renovação.

A renovação do canavial é de extrema importância para a produtividade do mesmo, pois restringe o risco ambiental provocado pela introdução de novas enfermidades no sistema de cultivo da cana-de-açúcar. “Produtores com um plantel varietal mais diversificado são menos afetados pelas perdas provocadas por novas doenças,” enfatiza. O IAC preconiza que o produtor nunca tenha mais de 15% de sua área com uma única variedade. Isso permite, teoricamente, que uma variedade afetada por uma nova doença seja erradicada em apenas uma safra.

O levantamento

O estado do Mato Grosso apresentou o canavial mais antigo, com estágio médio de corte igual a 4,20. Já São Paulo apresentou o canavial mais jovem, com estatura média dos colmos (EMC) igual a 3,78. Mas o pesquisador explica que estudos mostram que a cada ano a mais no EMC existe uma perda de 8,5 t/ha.

O Programa Cana IAC também faz uma pesquisa sobre as novas técnicas de plantio que estão sendo utilizadas pelos produtores. Este levantamento está em curso, mas já é possível afirmar que apesar do aumento do plantio manual, principalmente, associado ao desdobramento de linhas do sistema de meiose, o plantio mecanizado ainda é o mais utilizado.

“Vale destacar o compromisso desse trabalho em apresentar as informações ao público de maneira transparente, mas garantindo a confidencialidade da informação individual das empresas. Os dados fornecem relevantes análises, permitindo uma visão contextual de regiões com maior inovação”, complementa Rubens .

O atual Censo ainda não foi publicado, o levantamento da região Centro-Sul para a safra 2019/20, já foi concluído com uma área recenseada de 6,1 milhões de hectares. O Instituto levantou informações sobre as áreas de variedades de dois terços da desta região, sendo o maior levantamento, desse tipo, realizado no país. “Essas informações geram análises estratégicas para as empresas, em função das variedades que estão utilizando e das que deveriam passar a utilizar”, explica Rubens. Ainda está em desenvolvimento o Censo da região Norte-Nordeste.

Bactérias para melhora da produtividade da cana

Aumentar a produtividade da lavoura é uma necessidade de qualquer produtor. Assim, há muitas análises e desenvolvimento de tecnologias, mas uma pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba (SP) voltou nas origens da agricultura e conseguiu aumentar a produtividade sendo mais sustentável.

Com o uso de bactérias e torta de filtro e cinza de caldeira, que são resíduos da cana-de-açúcar, a pesquisa trabalhou a milenar arte de compostagem de micro-organismo para enriquecer o solo e as plantas e conquistar números expressivos. Assim, a alternativa ponderou o uso do fósforo no trato do solo com o uso de fertilizante orgânico em substituição ao fosfato, que é sintético e derivado de rocha. O fósforo foi selecionado por ser o segundo micronutriente mais limitante no cultivo da cana, atrás apenas do nitrogênio.

O resultado foi além do esperado. A variedade usada no primeiro corte – a CTC 24 – que apresenta pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) uma produtividade média de 140 toneladas por hectare, com o uso das técnicas do projeto, saltou para até 160 toneladas. Sendo uma opção mais ecológica do que os métodos utilizados atualmente nas lavouras. Infelizmente, a pesquisa não conseguiu identificar a questão da descarbonização – uma necessidade presente devido ao RenovaBio- e mais dados sobre produtividade.

A metodologia

O engenheiro agrônomo Antonio Marcos Miranda Silva, integrante do projeto e aluno de doutorado na instituição, conta que o processo foi bem longo e contou com muitas etapas e com uma grande equipe de pesquisadores.

Assim, os testes iniciaram em ambientes controlados, em casa de vegetação, com a produção de dois consórcios de bactérias. Um com psedonomas, azobacter e rizóbio e um segundo com dois tipos de bacilos e rizóbio. Em outra etapa, usando mudas de cana pré-brotadas, foram adicionados os resíduos da cana e compostos já conhecidos na agricultura. Foram trabalhados três diferentes formatos. Todos com torta de filtro e cinza de caldeira. O primeiro apenas com os resíduos, os outros dois receberam pó de roxa. No segundo foi adicionado fosfato de Araxá e no terceiro fosfato de Boava.

Após 45 dias após a inoculação, foi verificado que as plantas com maior teor de N, P e K foram que que receberam os bacilos e o rizóbio e o composto com os resíduos.

Com os bons resultados em condições controladas, os pesquisadores realizaram o experimento em campo e observaram o aumento de produtividade com 28 unidades experimentais com variações de 15 a 18 toletes por metro linear. O solo recebeu a adubação nitrogenada e potássica de acordo com a recomendada, por isso, foram descontados nos cálculos dos pesquisadores as quantidades de cada composto. “A aplicação por hectare para atender a demanda de fósforo é de 20 toneladas, com o processo reduzimos para dez”,e explica Antonio.

Após 18 dias após a plantação, o concentrado de bactérias também foi aplicado com o apoio de uma bomba costal. Seis meses depois, a equipe coletou amostras do solo dos tratamentos para estudar a dinâmica dos microrganismos. Só após um ano, o experimento foi colhido à mão.

Com isso, foi percebido que todos os cultivos que receberam as bactérias tiverem um aumento na produtividade. “As bactérias já existem no solo e o alimento delas é gerado durante o processo de industrialização da cana, ou seja, temos um viés totalmente sustentável e que pode ser aplicado em condições reais”, apontou.

O projeto foi financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A pesquisa foi desenvolvida com a orientação da professora Elke Cardoso, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/ USP. Também fizeram parte dele os professores Godofredo Cesar Vitti e Rafael Otto, além dos pesquisadores Germán Estrada-Bonilla e Cintia Masuco Lopes.

Por Cejane Pupulin


Fonte: Canal-Jornal da Bioenergia