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Centro-Sul voltará a reinar no açúcar

Postado em 13 de Março de 2020

Maior polo produtor de açúcar do mundo, o Centro-Sul brasileiro deverá recuperar parte da presença perdida no mercado global da commodity na próxima safra de cana (2020/21) após alguns meses de alta dos preços internacionais e da forte desvalorização cambial. O volume de produção, porém, ainda deverá ficar aquém do que a região já produziu em boa parte dos últimos dez anos.

Segundo estimativa da consultoria Datagro, as usinas do Centro-Sul produzirão 32,5 milhões de toneladas de açúcar na próxima temporada, que começará oficialmente em abril. Isso significa uma adição de cerca de 6 milhões de toneladas em relação aos volumes produzidos nas safras passada (2018/19) e na atual (2019/20) - de abril do ano passado até o fim de fevereiro, foram 26,5 milhões de toneladas, segundo os dados mais recentes da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica). Apesar do crescimento relevante, o Centro-Sul produziu volumes maiores em cinco das últimas dez temporadas.

A projeção indica que o Centro-Sul poderá recuperar a liderança na produção mundial do açúcar, ao menos neste momento, perdida para a Índia nos últimos anos. Na safra 2019/20 da Índia, que está em curso e termina em setembro, a produção do país é estimada pela Datagro em 27,3 milhões de toneladas, após adversidades climáticas. Porém, se comparado com o que se espera para a produção indiana em 2020/21, o Centro-Sul deve voltar à vice-liderança, uma vez que a expectativa da consultoria é que os indianos produzam 33 milhões de toneladas.

Outras projeções do mercado para o Centro-Sul indicam mais ou menos o mesmo cenário. A consultoria FG/A, sediada em Ribeirão Preto, projeta uma produção maior de açúcar, de 33,4 milhões de toneladas, enquanto a SCA Trading, que comercializa etanol, prevê 32,1 milhões de toneladas.

O crescimento da oferta do Centro-Sul é estimulado por um cenário de produção global abaixo do consumo projetado para duas temporadas - o que vinha sustentando as cotações da commodity na bolsa de Nova York até a semana passada- e pela desvalorização do real, que favorece a remuneração das exportações brasileiras.

Antes do abalo provocado nos mercados pela guerra internacional de preços de petróleo, maximizado pelas preocupações com o coronavírus, as usinas já vinham acelerando a fixação de preços de exportação da próxima safra. Com isso, a consultoria estima que, da cana a ser processada, 41,5% será direcionada à produção de açúcar, ante 35,2% registrados na safra atual. Entre as demais consultorias, a FG/A vê um mix açucareiro ainda maior, de 42,56%, enquanto a SCA Trading projeta um percentual de 40,7%.

O aumento da produção também tende a ser favorecido pela maior oferta de cana, depois que os canaviais do Centro-Sul passaram por um período de chuvas acima da média durante a maior parte do verão. Desde o início do mês, as precipitações recuaram abaixo dos níveis históricos, mas a Datagro estima que, se a situação se normalizar, a moagem irá a 596 milhões de toneladas, enquanto no ciclo atual o volume somou 579 milhões de toneladas até o fim de fevereiro. Outras projeções de moagem são ainda mais otimistas. A FG/A e a SCA calculam cerca de 605 milhões de toneladas.

Com uma tendência mais açucareira indicada para a próxima safra, que já era esperada antes do colapso no mercado de petróleo, as consultorias preveem uma redução natural na produção de etanol de cana. Mas isso não significa que a produção total do bicombustível do Centro-Sul será menor. Nos cálculos da Datagro, o avanço da fabricação de etanol a partir do processamento de milho, com novas usinas entrando em operação, deverá compensar a redução que ocorrerá nas indústrias de cana.

Contexto

As vendas de etanol pelas usinas produtoras da região Centro-Sul do país somaram 2,403 bilhões de litros em fevereiro, diminuição de 2,5% ante os 2,465 bilhões de litros do mesmo intervalo de 2019, informou ontem a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). No acumulado da temporada 2019/20, iniciada em abril, as vendas de etanol das usinas do Centro-Sul totalizaram 30,965 bilhões de litros, crescimento de 8,9% ante os 28,426 bilhões de litros da temporada anterior.

 


Fonte: Valor Econômico