Clipping

Clima generoso favorece safra de cana no Nordeste

Postado em 14 de Outubro de 2019

Enquanto as usinas do Nordeste deparavam-se com batalhas políticas inesperadas no início da moagem da safra 2019/20, como o aumento da cota de importação de etanol sem tarifa e a suspensão do uso de fogo em todo o país diante da crise das queimadas na Amazônia - logo depois ajustada pelo governo, após reclamações dos usineiros da região, que empregam o fogo na colheita-, as condições climáticas se apresentavam bem mais generosas.

A costa nordestina passou a registrar um clima “extremamente chuvoso” a partir de junho, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no período final de desenvolvimento da cana. Em agosto, as precipitações foram consideradas mais favoráveis do que no ano passado, totalizando 52,4 milímetros nas áreas produtoras do Nordeste e do Norte - crescimento anual de 33,6%. Em setembro, o volume de chuvas nas regiões foi 43,3% maior, somando 38,2 milímetros.

Com base nesses dados, a consultoria INTL FCStone estimou que a moagem de cana desta safra será de 51,1 milhões de toneladas, avanço de 6,4%, e 800 mil toneladas acima do esperado em agosto.

A produtividade nos Estados produtores deve ficar em 58,08 toneladas de cana por hectare, acréscimo de 7,5% ante a safra passada, embora longe, ainda, dos rendimentos do Centro-Sul (em torno de 76 toneladas por hectare). Já a área cultivada com cana no Norte e Nordeste tem se mantido sem grandes alterações desde a safra 2016/17, perto de 880 mil hectares.

O aumento esperado para a produtividade da cana deve compensar, inclusive, o efeito negativo das chuvas: a diluição da sacarose na cana. A quantidade de açúcares totais recuperáveis (ATR) que deve ser obtida da moagem da cana deve aumentar 5,5% ante a safra passada, nas contas da INTL FCStone, para 6,7 milhões de toneladas.

Nos próximos meses, o clima deve continuar trazendo boas notícias. Os escritórios de meteorologia da Austrália e dos EUA não identificam chances altas de El Niño (associado a secas no Nordeste) até o primeiro semestre de 2020 - quando as usinas nordestinas já terão terminado a safra. Para novembro, a Somar Meteorologia prevê chuvas abaixo da média, mas o retorno aos patamares acima da média entre os meses de dezembro e janeiro.

Com mais matéria-prima, a consultoria INTL FCStone estima que tanto a produção de açúcar como de etanol será maior. Para o mix produtivo, a consultoria tomou como premissa o atual cenário de preços, com tendência de redução da vantagem do etanol ante o açúcar, dado que o preço do adoçante está encontrando ligeira sustentação no mercado internacional.

A produção de açúcar para a safra 2019/20 foi estimada em 2,74 milhões de toneladas, aumento de 7,7% ante o ciclo passado, ou de 200 mil toneladas. O mix açucareiro foi estimado em 42,9%, ante 42,1% no último ciclo, mas ainda abaixo da safra 2017/18, que foi de 46,7%.

Mesmo com mix mais açucareiro, ainda sobrará mais matéria-prima para levar a um aumento de 4% na produção de etanol, para 2,25 bilhões de litros, segundo a consultoria. Desse total, 790 milhões de litros devem ser de anidro - ligeiramente acima da safra passada, mais ainda abaixo de 2017/18, quando foram produzidos 950 milhões de litros. Para o etanol hidratado, a INTL FCStone estima produção de 1,46 bilhão de litros, superando a última temporada 5,5%, ou 80 milhões de litros.

A consultoria ponderou que suas projeções para o mix foram feitas já considerando que a importação de etanol dentro da cota seria alocada de forma a evitar uma queda brusca dos preços do etanol nordestino destino durante a safra. Em relatório, os analistas Matheus Costa e João Paulo Botelho acrescentaram que a entressafra no Norte e Nordeste coincide com a época de maior demanda nos EUA. “Assim, caso a oferta de etanol se mostre menor, os preços do biocombustível estadunidense podem não se mostrar tão atrativos aos importadores brasileiros”.

 


Fonte: Valor Econômico