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Com alta liquidez, São Martinho não sofrerá pela crise

Postado em 2 de Abril de 2020

A São Martinho é um dos grupos sucroenergéticos do país que está bem preparado para a safra 2020/21 e para lidar com a grande crise que se instalou no horizonte do segmento para os próximos meses, consequência da queda vertiginosa do preço do petróleo e da pandemia do Coronavírus, que impactou fortemente a demanda pelo etanol.

Se por um lado se prevê unidades sem caixa para dar continuidade na colheita da cana, por outro, algumas usinas como as da São Martinho, com alta liquidez, estão preparadas e com estratégia montada para o que vem por aí. Assim como já divulgado, a companhia também fará uma safra mais açucareira do que o ano passado.

Em videoconferência realizado pelo banco Credit Suisse na tarde de hoje, 02, Felipe Vecchiato, CFO da São Martinho, afirmou que além dos preços, a demanda pelo açúcar está muito boa. “Estamos vendo a demanda aumentar nas telas de maio. Vamos começar a embarcar açúcar em volume relevante já no primeiro e segundo trimestre da safra, história que vai ser diferente para o etanol.”

Devido aos preços do produto e da demanda, que caiu 50%, a São Martinho deverá carregar mais etanol, já que tem 70% de capacidade de tancagem, para vender no terceiro ou quarto trimestre, quando espera que a demanda seja normalizada.

“Não sabemos qual vai ser o preço do etanol, depende do preço do petróleo na data, que vai ser bastante importante, mas acreditamos que daqui seis meses a demanda de etanol estará retomada e voltaremos a vender. Então, do ponto de vista de caixa, vamos embarcar muito açúcar no início de safra e carregar o máximo possível de etanol para vender ao final da safra, quando acreditamos que teremos aumento na demanda, se tudo der certo e o vírus se dissipar ao longo do tempo”, disse Vecchiato.

A liquidez é uma grande preocupação do setor e para a São Martinho também. A companhia, segundo o CFO, se preparou para isso. “Sempre carregamos um volume de caixa bastante relevante. Tivemos uma safra com geração de caixa bastante importante. Tivemos uma safra com preços do etano fortes, custos baixos, temos uma safra com a melhor liquidez da história. Então estamos muito tranquilos para passar essa tormenta desse ano do ponto de vista de caixa.”

Supensão do contrato por distribuidoras não preocupa

Os contratos de venda de etanol feitos entre usinas e distribuidores, seja anidro ou hidratado, são feitos por uma regulamentação da ANP, que obriga as usinas a fazerem contratos, entre os meses de abril e maio, para que garantam a entrega do etanol anidro por 12 meses para garantir a mistura da gasolina.

A São Martinho tem contrato com uma das distribuidoras que declarou motivos de Força Maior. Para o mês de março isso significa 5 a 7 mil m3 apenas de um total de mais de 1 bilhão de l de etanol. Então, vamos deixar de vender 7 mil m3 cúbicos e levar essa quantia para o estoque para o ano sequente. Para o mês de abril, a companhia teria mais 20 mil m3 e para maio também mais 20 mil m3 que faria parte dessa força maior.

“Esse é o arcabouço. Nosso time comercial está sentado com a distribuidora para negociar. Mas, do ponto de vista financeiro, eu acho um grande problema para a São Martinho, particularmente, nesse primeiro momento. Porque, primeiro que não temos um volume tão relevante de abril e maio. Segundo que, na nossa visão, os meses de abril, maio junho vão ser os meses em que os preços de etanol vão cair consideravelmente. Então, teríamos a obrigação de vender esse etanol a preços muito baixos. Sengo assim, dado a esse cenário que tenho um colapso no preço do petróleo e não tenho demanda, a tendência é que o preço do etanol continue caindo até maio e comece uma recuperação só quando a demanda voltar, quando o lockdown terminar”, destacou em Vecchiato.

Para ele, usinas que tem muitos contratos e necessidade de gerar caixa talvez tenham mais dificuldades e talvez não consigam nem terminar de realizar a colheita da safra, o que impactar no volume total de moagem no Centro-Sul, que inicialmente era projetado para quase 600 milhões de t.

“A cana está no campo, mas não sei se todas as usinas vão ter dinheiro para tocar essa safra. Comprar diesel para colocar na colhedora, comprar pneus para rodar tratores e caminhões. Então, mesmo vendendo etanol a um preço baixo, as vezes não será o suficiente. Se a usina decidir cortar 100% do capex e só colher cana, ela chega a cortar de 40 a 50 reais por t, o que é equivalente a um preço de etanol próximo a R$ 900 o metro cúbico, então, usinas que já estavam em situação delicada não conseguirão moer 100% dessa cana”, afirmou em videoconferência o CFO da São Martinho.

Como fica a moagem a São Martinho?

Questionado se a São Martinho poderia moer mais cana, caso sobrasse cana de outras unidades, Vecchiato afirmou que, com um clima de verão e início de safra com boas chuvas, a São Martinho deve cumprir a programação de moagem e só saberá em meados de agosto, quando a maioria das unidades já terão moído 70% da cana, se terá disponibilidade para moer cana adicional.

“Minha produtividade vem crescendo. Além disso, com esse cenário de Coronavírus pode ser que tenhamos que trabalhar com a possibilidade de contingência de pessoas em algum momento, e teremos que ter uma equipe para fazer a safra acontecer. A questão das pessoas é importante para dar tração na safra. Vamos ter cana disponível, muito mais do que há dois meses atrás, mas não sei se vou ter muitos dias de safra para colher essa cana”, afirmou.

Por Natália Cherubin


Fonte: Revista RPA NEWS