Clipping

Consumidor terá mais preocupação com questões ambientais após pandemia

Postado em 17 de Junho de 2020

Em entrevista nesta terça-feira à Live do Tempo, o presidente da Siamig, Mário Campos, disse acreditar que as pessoas vão ficar mais atentas com os temas ambientais, mudança climática, poluição, emissão de poluentes, e que isso deve favorecer o consumo de fontes alternativas de combustíveis. Ele também disse que o preço do etanol neste ano está bem mais barato do que no ano passado, mas que o setor vive a incerteza trazida pela Covid-19.

Os preço de combustível, de janiero a maio deste ano, contribuíram para conter o IPCA, ìndice Nacional de Preços ao Consumdor Amplo. Gasolina acumulou uma queda de 14,64% nos preços, o etanol recuou 18,14%, o diesel diminuiu 14,43%. Você acredita que o etanol vai continuar dando essa contribuição esse ano?

O preço dos combustíveis faz parte do dia a dia da população brasileira. Preciso explicar o que aconteceu. Nós tivemos, toda a economia teve, impacto da Covid-19, mas o setor produtor de biocombustíveis, energia em geral, associado à queda da demanda, um choque de preços de petróleo e, obviamente, de gasolina, E no Brasil hoje nós temos uma política de preço de derivados de petróleo muito bem definida no sentido de que internacionaliza as variações internacionais do preço de petróleo, da gasolina, do diesel, junto com a questão com câmbio. Em fevereiro, os árabes e os russos começaram a brigar por mercado, e os preços do petróleo caíram de US$ 60 o barril para menos de US$ 20. Tivemos, inclusive, em determinado momento, em abril, uma coisa totalmente surreal. No mercado americano o preço do petróleo chegou a ser comercializado com valores negativos, algo nunca visto até hoje. Momento é de redução de preços de combustíveis em geral e isso mexe muito com o mercado. No momento que iniciou a Covid-19 estávamos finalizando o período de entressafra, que é o mês de março, e estávamos preparados para iniciar o perído da safra 2020/2021, em abril. Essas coisas juntas fizeram com que o preço do etanol tivesse forte queda, junto com o da gasolina, e isso ajudou no índice do IPCA nos meses de março, abril e maio, quando tivemos reduções signficativas.

Após esse período, houve uma certa recuperação. Hoje o mercado está tentando encontrar esse equilíbrio. A Petrobras, que define o preço da gasolina, considerando o que a chama de paridade de importação, acompanhou muito certinho essa curva. Hoje ela está muito próximo do preço de gasolina ao preço do mercado internacional. Estamos vendo no mercado internacional o petróleo se acomodando por volta de US$ 40 o barril, o câmbio também se acomodando por volta de R$ 5, parece que o mercado está tentando encontrar esse equilíbrio. Mas estamos em um ambiente de muita incerteza em função da Covid, não se sabe o que vai acontecer nos próximos meses, mas, de fato, o etanol não fica fora desse movimento de preço e está também tentando encontrar esse equilíbrio.

Modelo enegértico do etanol no Brasil funciona muito bem. Se somar o consumo de gasolina e álcool, a cada dez litros seis são consumidos em gasolina e quatro de etanol,dados de 2019. O que falta para esse modelo energético brasileiro virar tipo exportação?

Carro elétrico é alternativa em alguns países, que estão colocando datas limites para parar de consumir combustível fóssil, e esse biocombustível, etanol, brasileiro, por que não está ainda está na vanguarda para ser exportado? Acredito que a gente possa ver nesse período pós-Covid-19 uma preocupação maior com dois temas: ambiental, mudança climática, que a gente já percebia e já visualizava antes da Covid-19, e agora tem uma preocupação com a poluição. A relação poluição com saúde pública. São duas linha diferenciadas, uma coisa é emissão e outra é qualidade do ar. Quando a gente observa essa questão das emissões, o etanol tem uma redução de até 90% de CO2 equivalente quando comparado com a gasolina. E quando a gente vai para a qualidade do ar, tem algo muito importante nos biocombustíveis, que é evitar emissão de material particulado, aquelas partículas finas que entram no sistema respiratório das pessoas e infelizmente podem acentuar e causar doenças respirátórias. Como os biocombustíveis têm esse efeito de atenuar essa emissão de particulados, a gente acredita que possa ser realmente, no período pós-Covid-19, uma busca por combustíveis alternativos, renováveis, como etanol, biodiesel e demais propostas, como o biometano e outras que a gente tem em cima da mesa.

O que falta para isso se tomar realidade no mundo?

A questão de mistura de biocombustíveis nos combustíveis fósseis, mas especificamente, em gasolina, é uma realidade em quase 60 países. É claro que o que temos no Brasil, a prossibilidade de parar num posto de combustível com um carro que é flexível, biocombustível e poder escolher entre um produto e eoutro, é algo que só aqui no Brasil temos. A gente precisa valorizar. Se a gente somar etanol hidratado mais anido, que é misturado na gasolina em 27%, em 2019, atingimos 46% da participação dessa matriz de Ciclo Oto, nome técnico para soma de gasolina mais etanol. E essa participação importantíssima, aqui em Minas é ainda maior, em torno de 54% no ano passado, porque Minas é um Estado que incentiva a produção e o uso. Aqui em Minas, o mineiro consumiu mais etanol do que gasolina. Em alguns meses, o próprio hidratado foi consumido com volume maior do que a gasolina C, que é a mistura da gasolina pura com o etanol anidro. Mas ela já é realidade em vários países. Inclusive, você sabe que os americanos não brincam quando colocam uma política pública para ser efetivada. Hoje, os EUA são o maior produtor de etanol do mundo, produzem a partir do milho. Nós aqui no Brasil também produzimos a partir do milho de forma menos relevante, mas basicamente o nosso é a partir da cana-de-açúcar, mas essa é a realidade também na América do Sul, Argentina Paraguai, Bolívia, Colômbia.

Nós temos uma iniciativa muito importante na Índia, que é um grande produtor de cana-de-açúcar e de açúcar, até para dar uma alternativa ao país, ao produtor de açúcar indiano, que nos últimos anos, por exemplo, através de subsídio, inundou o mercado de açúcar no mundo. Então, a evolução e o incentivo maior à produção de biocombustíveis na Índia pode dar uma sustentação ao próprio mercado deles. A Tailândia também tem um programa muito interessante, é um grande produtor de cana-de-açúcar. A China também está entrando muito forte nessa questão de transição energética e dando alternativas, e o uso de etanol será uma delas. Fornecer aos seus habitantes o uso de combustível menos emissor de poulentes e gases de efeito estufa. O setor de etanol lutou durante muitos anos contra o monopólio, nós construímos a partir da década de 1970, o primeiro carro 100% a álcool produzido em Minas na Fiat. Temos uma história com esse segmento, com altos e baixos, mas desde 2003, quando em março a Volkswagen resolveu lançar o veículo flex, que corrigiu um problema que era muito corriqueiro, que era da opção.

Sobre a RenovaBio. O objetivo do programa, que entrou em vigor em 24 de dezembro de 2019, é reduzir pelo menos 100 milhões de toneladas as emissões de gases de efeito estufa em dez anos. Vamos conseguir?

Esse é o objetivo do governo e nosso. O RenovaBio é uma política que foi construída a várias mãos: setor produtor, governo, academia, agência reguladora, a ANP. Temos hoje no Brasil 206 empresas certificadas entre produtores de etanol, biodiesel e de biogás. O RenovaBio não é um programa só ou para o setor de etanol. Mas para todas as fontes energéticas que possam gerar biocombustíveis: biodisel, que hoje é misturado a 12% de volume no diesel, biogás, com potencial tambem no setor de resíduos sólidos, setor animal. Temos a possbilidade muito forte de crescer nesse segmento. O objetivo era fazer algo que colocasse o mercado para funcionar. Não queríamos subsídio, auxílio do governo.

Claro que uma política como essa, depende de uma lei, de agência reguladora, quero ressaltar a participação do Parlamento brasileiro que, de forma rápida, conseguiu aprovar a legislação, e o governo, que conseguiu regulamentar. Em síntese, temos um programa de eficiência. Foi criado um mecanismo de mercado que chama Certificado de Descarbonização, que é o CBio, equivalente a 1 tonelada de CO2 equivalente evitada. Ou seja, se eu tenho de um lado um combustível fóssil que a partir da sua produção, do seu uso emite gases de efeito estufa, e do outro lado, tenho um biocombustível que mitiga essa emissão, eu consigo fazer com que, quem está produzindo e vendendo biocombustível possa gerar esse certificado que, efetivamente, ao fazer isso, ele está ajudando a descarbonizar nossa matriz e transferir esse ônus para quem está efetivamente produzindo e usando o produto de origem fóssil.

Esse CBio vai ser comercializado no mercado através de uma plataforma e vai ter um valor. Além de produzir ertanol, açúcar, energia elétrica, também estamos vendendo um serviço ambiental. A gente começou a comercializar esse produto este ano, na sexta-feira nós tivemos a comercialização dos primeiros cem CBios da história ao valor de cerca de US$ 10 cada. É a primeira vez que temos um mercado de carbono oficial aqui no Brasil. Acho que esse exemplo que o setor e o governo fizeram nessa transição enegética, pode ser copiado por outro segmento. Se a gente caminha para uma matriz enegética cada vez mais limpa, e o Brasil é protagionista nesse tema, nada melhor do que começarmos por aqui e ter esse mercado de carbono institucionalizado. No fim, a gente tem uma meta global sempre pensando em dez anos, com metas anuais, podendo ser revistas ao logo do tempo, e as empresas produtoras de biocombustíveis vão receber certificações. E cada uma vai ter uma nota que vai depender da capacidade que ela tem de mitigar essas emissões.

Eu acredito que isso, dependendo do desenvolvimento do mercado, nós vamos criar uma competição sadia entre os produtores de biocombustíveis de forma que a gente fique mais eficiente e possa disponibilizar ao mercado com custo menor. Temos 387 empresas no Brasil. Dessas, boa parte produz etanol, a maioria, em torno de 350, 360. E dessas, estamos vendo em torno de 210, 220, inicialmente entrando no programa, e cada uma tem uma nota. vamos criar um programa benchmarketing, onde as empresas vão comparar com outras.

Sabemos a importância e a preferência do consumidor pelo etanol por preço, mas tem aquele problema que dura entre novembro e março, que o preço dá uma subida na entressafra. O que fazer para minimizar isso para o etanol ser vantajoso o ano inteiro? Pleiteam ter alívio tributário na entressafra?

Não tivemos nos últimos anos grandes problemas relacionados a isso. O etanol tem sido competitivo aqui em Minas há praticamente dois anos. Tem uma situação que incomoda as pessoas que gostam do etanol e querem consumir durante todo o ano o produto. Nos útlimos anos, a gente teve dificuldade porque o mercado de etanol, principalmente o hidratado, não tem muitos contratos, nem durante a safra. O produtor inicia a safra, produz o etanol, aqueles que optam por estocar não tem uma previsão por quanto ele pode vender na entressafra. Aí muitos vendem nesse período.

Algumas coisas ocorreram nos últimos anos que minimizaram um pouco essa sazonalidade da produção de etanol a partir da cana-de-acúcar. Não há com resolver. A cana, até por ser período de chuva, quando chega novembro, dezembro, não há como produzir mais. No últimos anos cresceu muito a produção de etanol de milho, principalmente nos Estados do Centro-Oeste.

Mato Grosso é o Estado referência, Goiás também cresceu muito, Paraná tem alguma produção, Mato Grosso do Sul tem alguns projetos. Como o milho é estocável, ao contrário da cana, muitos produtos de etanol de cana montaram anexas às suas plantas de etanol de cana, a planta para produzir etanol de milho. Isso reduziu muito essa sazonalidade e aumentou a disponibilidade de etanol de milho durante a entressafra. Aí começaram a aparecer plantas 100% de etanol de milho, espeiclamente em Mato Grosso, que tem um preço de milho mais acessível ao produtor. Essa oferta, que vem, principalmente na entressafra, reduziu o efeito sazonal.

Outro ponto que queria destacar é que há alguns anos não tínhamos no mundo um mercado externo do etanol, hoje já existe um fluxo de etanol entre o Brasil e outros países, O Brasil exporta para os EUA, importa deles também. Por fim, temos uma vocação liberal, lutamos para que o governo deixasse de interferir no mercado, e sabemos como isso foi penoso para todo o sistema produtor de combustível no Brasil. É preciso ter uma liberdade nesse processo. O consumidor é o grande idealizador desse processo.

Por que o etanol sofre aumento nos mesmos moldes da gasolina?

Somos produtores de etanol, tem as companhias distribuidoras de etanol, somos obrigados a vender para elas, que têm sua função no mercado. São 42 mil postos no país e alguém precisa distribuir esse produto. São diversos elos da cadeia. Se for falar pelos últimos 20 dias, houve sim um aumento por parte do produtor, Hoje o preço no produtor é menor do que no mesmo período do ano passado. Quase 10% a menos. O consumidor quando vai ao posto está pagando 10% menos do que no ano passado, no caso da gasolina é 15% a menos. Os donos dos postos também têm suas políticas comerciais. As distribuidoras também. Podemos ter em algum momento redução, aumento de margem de um ou outro. O mercado hoje, se a gente for considerar a diferença entre um produto e outro, o preço do etanol ficaria por volta de 70%, mas o mercado não é tão certinho assim. No ano passado, tivemos uma relação de preço etanol-gasolina abaixo de 60%, uma economia tremenda para o consumidor. Este ano é muito complicado para todos. Temos em Minas nove empresas que só produzem etanol. No mês de março, o mercado caiu 15%; em abril, 35%; em maio, 35%. Postos estão vendendo muito menos do que meses atrás. Mercado está em busca do equilíbrio. Cenário de muita incerteza.


Fonte: O Tempo/MG