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Consumo de etanol tende a resistir à baixa do petróleo

O derretimento do petróleo no mercado internacional nos últimos dois meses está chegando aos poucos aos postos de combustíveis. Embora o preço da gasolina nas bombas ainda não tenha caído na mesma proporção que a gasolina vendida nas refinarias da Petrobras, o movimento já coloca uma pulga atrás da orelha dos usineiros. Até então, eles tinham a expectativa de elevar os preços do etanol hidratado nesta entressafra. Mas o cenário indica que, apesar de a demanda se manter aquecida, os preços não devem atingir os patamares desejados pelo setor.

Desde o início de outubro – quando o petróleo começou a ceder nas bolsas de Nova York e Londres – até a semana encerrada dia 17 de novembro, o preço da gasolina C (vendida nos postos já misturada ao etanol anidro) caiu em média no país 1,8%, ou R$ 0,108 por litro, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No mesmo período, o preço que a Petrobras pratica nas refinarias para a gasolina A – sem adição de anidro – já caiu 27%, ou R$ 0,6065 po litro.

Concorrente da gasolina, o etanol hidratado começou a refletir esse movimento em novembro, em um momento em que a expectativa era que o biocombustível começasse a subir, já que as usinas do Centro-Sul estão encerrando a moagem da cana da safra 2018/19. Na média nacional, o preço do hidratado caiu 1,9% desde a última semana de outubro, ou R$ 0,057 o litro, segundo a ANP. Nesse mesmo período, o etanol já recuou 7% (ou R$ 0,129 por litro) nas usinas paulistas, de acordo com indicador do Cepea/Esalq.

Essa queda vem na contramão da expectativa das usinas, uma vez que o preço do biocombustível já estava mais alto nesta safra e costuma começar a subir nesta época do ano. Mas o mercado ainda está cético quanto a uma pressão adicional sobre os preços do etanol, já que o produto vem de um período em que esteve bastante competitivo ante a gasolina, o que estimulou uma demanda recorde em meses recentes.

"[O etanol] perdeu um pouco de competitividade, mas ainda estamos bem competitivos tanto na correlação com a gasolina como em valores absolutos. Devemos permanecer assim em novembro", afirma Martinho Ono, da SCA Trading, que comercializa o biocombustível. Para ele, o etanol vai se ajustar ao novo "teto" da gasolina. Assim, o preço na entressafra deve ser um pouco menor que o esperado.

Em São Paulo, maior centro consumidor, mesmo com a queda recente do etanol, a correlação com o valor da gasolina subiu, passando de 61% na segunda semana de outubro para 63,1% na última semana de novembro. Mas continua distante do patamar em que estaria equivalente ao rendimento da gasolina, de 70% para a média da frota flex brasileira. A diferença nominal entre o litro do etanol e o da gasolina também caiu, mas continua grande, alcançando R$ 1,617 o litro na última semana pesquisada pela ANP no Estado.

Enquanto essa correlação continuar favorável para a venda de etanol, o consumo tende a se manter aquecido, avaliam analistas. Ono estima que o volume de hidratado vendido aos postos deve ficar em média em 2 bilhões de litros ao mês neste último trimestre do ano. O volume é bem superior ao do mesmo período do ano passado, quando as vendas ficaram em torno de 1,4 bilhão de litros por mês.

Para Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A, ainda que a distância entre os preços do etanol e da gasolina encurte para 67%, "o consumo vai continuar alto e tende a explodir". Ele avalia, porém, que quanto mais tempo o preço do etanol ficar vantajoso em relação ao da gasolina, mais violenta tende a ser a correção dos preços no futuro. "Também podemos ver sair de 64% para 75% do nada", afirma. A rapidez, acrescenta, vai depender do gradualismo do ajuste entre os preços dos combustíveis.

Ambos concordam, porém, que uma eventual alta do etanol no último trimestre da safra 2018/19 (primeiro trimestre do próximo ano) deve frustrar a expectativa das usinas, pois deve ficar abaixo do esperado.

Por Camila Souza Ramos


Fonte: Valor Econômico