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Corte de subsídio rural anima Santander

Com Selic baixa, há demanda para crédito sem subsídio, avalia Carlos Aguiar

Apesar do temor dos produtores rurais com a redução dos subsídios ao financiamento agrícola, o Brasil nunca esteve tão preparado para o "desmame gradual" do apoio estatal ao setor. Essa é a avaliação do superintendente de agronegócios do Santander no país, Carlos Aguiar.

O banco espanhol é, assim como outros concorrentes privados, um dos potenciais beneficiados com as mudanças no Plano Safra 2019/20, que entra em vigor em julho e deverá ter uma fatia maior de crédito rural a juros livres em detrimento dos juros controlados, como já indicou a equipe econômica e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Em janeiro deste ano, a carteira de crédito rural do Santander totalizava R$ 16,8 bilhões, aumento de quase 22% na comparação anual. O Banco do Brasil lidera esse segmento com R$ 188 bilhões em carteira.

Historicamente, os bancos privados relegavam o crédito rural. Não raro, repassavam a outras cooperativas de crédito o volume de financiamentos obrigatórios – 31% dos depósitos à vista devem ser destinados às linhas de crédito rural com juros controlados -, alegando pouco estímulo para financiar um mercado subsidiado e amplamente dominado pelo Banco do Brasil. O risco de calote também foi um frequente argumento dos bancos privados para evitar os empréstimos ao setor.

Nos últimos anos, no entanto, essa realidade começou a mudar. Em entrevista ao Valor, o superintendente de agronegócios do Santander afirmou que as condições de financiamento agrícola se transformaram radicalmente, tornando a operação mais atrativa para as instituições privadas.

A principal transformação veio do Banco Central, com a mudança de patamar da taxa básica de juros. Ao longo do governo do ex-presidente Michel Temer, a Selic foi cortada de 14,25% por ano para 6,5%. Mas a redução dos juros não foi a única mudança, enfatizou o executivo. Os agricultores estão mais capitalizados devido à sequência de boas safras. "Na hora que junta isso, é poderosíssimo", acrescentou.

Nesse ambiente, os produtores do país ficaram mais propensos a investir mesmo com taxas de juros não subsidiadas. "Isso provou uma teoria nossa. Com juros [Selic] de 6,5%, o mercado tem mais apetite", afirmou Aguiar, que não quis revelar a taxa cobrada pelo Santander. De acordo com estimativas de mercado, um produtor rural em boa situação financeira paga, em média, 12% ao ano. Hoje, as taxas com juros controlados do Plano Safra ficam entre 6,5% e 9% ao ano.

Ao Valor, o executivo sustentou que o banco espanhol saiu na frente da concorrência ao redesenhar, há três anos, a estratégia para o agronegócio, constituindo uma equipe mais de 100 agrônomos (área que era vista como um diferencial competitivo do Banco do Brasil) e fincando a bandeira do Santander no interior do país, com o lançamento de 22 de escritórios voltados ao produtor rural. Os escritórios renderam ao banco uma carteira rural de R$ 1 bilhão.

"Foi uma coisa que encaramos de frente, como um mantra: gente, esse mercado não vai ficar assim para sempre", afirmou Aguiar, em alusão à redução da fatia dos juros controlados no financiamento rural. Atualmente, metade da carteira de crédito rural do Santander é baseada em juros livres – grande parte lastreada em captações via Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).

Na maior parte dos bancos, porém, a situação é diferente, e as taxas de juros controladas ainda representam a maior parte do carteira de crédito rural, de acordo com Aguiar. "Estão naquela dor da mudança", acrescentou o executivo.

No Santander, a demanda por juros livres vem impulsionando a participação do banco no setor. Segundo dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febrabran), o banco espanhol tinha uma participação de 5,4% no crédito rural em dezembro do ano passado, ante 4,6% em 2017 e 3,2% em 2016.

Com isso, o banco espanhol ocupa a quinta posição no ranking de crédito rural, atrás do Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Bradesco e Sicredi. Na liderança, o Banco do Brasil tinha 61,8% no fim de 2018.

Importante fonte de captação do Santander para os financiamento ao agronegócio, as LCA também aumentaram. No ano passado, o banco captou R$ 11,9 bilhões por meio desses papéis, crescimento de 33% na comparação com os R$ 8,9 bilhões do ano anterior. Assim, o banco espanhol foi responsável por 8% das captações via LCAs em 2018. Sem o Santander, as emissões dos papéis no país teriam caído 2%.

Por Luiz Henrique Mendes

 

 

 


Fonte: Valor Econômico