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Corte de subsídio rural anima Santander

Postado em 22 de Março de 2019

Com Selic baixa, há demanda para crédito sem subsídio, avalia Carlos Aguiar

Apesar do temor dos produtores rurais com a redução dos subsídios ao financiamento agrícola, o Brasil nunca esteve tão preparado para o "desmame gradual" do apoio estatal ao setor. Essa é a avaliação do superintendente de agronegócios do Santander no país, Carlos Aguiar.

O banco espanhol é, assim como outros concorrentes privados, um dos potenciais beneficiados com as mudanças no Plano Safra 2019/20, que entra em vigor em julho e deverá ter uma fatia maior de crédito rural a juros livres em detrimento dos juros controlados, como já indicou a equipe econômica e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Em janeiro deste ano, a carteira de crédito rural do Santander totalizava R$ 16,8 bilhões, aumento de quase 22% na comparação anual. O Banco do Brasil lidera esse segmento com R$ 188 bilhões em carteira.

Historicamente, os bancos privados relegavam o crédito rural. Não raro, repassavam a outras cooperativas de crédito o volume de financiamentos obrigatórios – 31% dos depósitos à vista devem ser destinados às linhas de crédito rural com juros controlados -, alegando pouco estímulo para financiar um mercado subsidiado e amplamente dominado pelo Banco do Brasil. O risco de calote também foi um frequente argumento dos bancos privados para evitar os empréstimos ao setor.

Nos últimos anos, no entanto, essa realidade começou a mudar. Em entrevista ao Valor, o superintendente de agronegócios do Santander afirmou que as condições de financiamento agrícola se transformaram radicalmente, tornando a operação mais atrativa para as instituições privadas.

A principal transformação veio do Banco Central, com a mudança de patamar da taxa básica de juros. Ao longo do governo do ex-presidente Michel Temer, a Selic foi cortada de 14,25% por ano para 6,5%. Mas a redução dos juros não foi a única mudança, enfatizou o executivo. Os agricultores estão mais capitalizados devido à sequência de boas safras. "Na hora que junta isso, é poderosíssimo", acrescentou.

Nesse ambiente, os produtores do país ficaram mais propensos a investir mesmo com taxas de juros não subsidiadas. "Isso provou uma teoria nossa. Com juros [Selic] de 6,5%, o mercado tem mais apetite", afirmou Aguiar, que não quis revelar a taxa cobrada pelo Santander. De acordo com estimativas de mercado, um produtor rural em boa situação financeira paga, em média, 12% ao ano. Hoje, as taxas com juros controlados do Plano Safra ficam entre 6,5% e 9% ao ano.

Ao Valor, o executivo sustentou que o banco espanhol saiu na frente da concorrência ao redesenhar, há três anos, a estratégia para o agronegócio, constituindo uma equipe mais de 100 agrônomos (área que era vista como um diferencial competitivo do Banco do Brasil) e fincando a bandeira do Santander no interior do país, com o lançamento de 22 de escritórios voltados ao produtor rural. Os escritórios renderam ao banco uma carteira rural de R$ 1 bilhão.

"Foi uma coisa que encaramos de frente, como um mantra: gente, esse mercado não vai ficar assim para sempre", afirmou Aguiar, em alusão à redução da fatia dos juros controlados no financiamento rural. Atualmente, metade da carteira de crédito rural do Santander é baseada em juros livres – grande parte lastreada em captações via Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).

Na maior parte dos bancos, porém, a situação é diferente, e as taxas de juros controladas ainda representam a maior parte do carteira de crédito rural, de acordo com Aguiar. "Estão naquela dor da mudança", acrescentou o executivo.

No Santander, a demanda por juros livres vem impulsionando a participação do banco no setor. Segundo dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febrabran), o banco espanhol tinha uma participação de 5,4% no crédito rural em dezembro do ano passado, ante 4,6% em 2017 e 3,2% em 2016.

Com isso, o banco espanhol ocupa a quinta posição no ranking de crédito rural, atrás do Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Bradesco e Sicredi. Na liderança, o Banco do Brasil tinha 61,8% no fim de 2018.

Importante fonte de captação do Santander para os financiamento ao agronegócio, as LCA também aumentaram. No ano passado, o banco captou R$ 11,9 bilhões por meio desses papéis, crescimento de 33% na comparação com os R$ 8,9 bilhões do ano anterior. Assim, o banco espanhol foi responsável por 8% das captações via LCAs em 2018. Sem o Santander, as emissões dos papéis no país teriam caído 2%.

Por Luiz Henrique Mendes

 

 

 


Fonte: Valor Econômico