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Cosan pronta para um novo ciclo econômico mais favorável

Grupo projeta crescimento para 2019. Presidente diz apoiar posição brasileira de buscar aproximação com os Estados Unidos, mas admite preocupação com reforma da Previdência

Nem as incertezas sobre o rumo da reforma da Previdência, o comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 e o futuro das parcerias comerciais do Brasil, sob teste de resistência desde o início do governo de Jair Bolsonaro (PSL), mexem com o otimismo de Marcos Lutz, presidente do grupo Cosan. No máximo, despertam alguma cautela. Na manhã de ontem, Lutz e os principais executivos das companhias que compõem a holding — Rumo, Raízen, Comgás e Moove — se encontraram em um hotel em São Paulo com algumas dezenas de analistas que acompanham o desempenho dessas companhias.

Aos convidados, Lutz garantiu que as empresas do grupo estão preparadas para um ciclo econômico mais favorável por já terem feito as adequações necessárias nos últimos anos. Agora, mesmo diante do atual quadro de imprevisibilidade sobre o que deve acontecer com o país, o executivo prefere dar tempo ao tempo até ver o que será colocado em prática pelo novo governo.

“As relações internacionais nos últimos anos não foram muito melhores (do que as do governo de Bolsonaro). Vejo a aproximação do Brasil com os Estados Unidos como positiva. Sobre os atritos (com outros países), avalio que são necessários para negociar coisas”, afirma.

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Reforma

Mas o presidente da Cosan não disfarça a cautela que tem quanto ao futuro da reforma da Previdência. “Sem ela, todo o resto não tem muito sentido. Será essa reforma que garantirá a atração de investimentos, será a forma de o Brasil mostrar que consegue ser solvente”, diz. Para o executivo, ainda é preciso ter cautela ao avaliar o ambiente de negócios no médio e no longo prazos. “Vai depender muito da capacidade de aprovação da reforma. Da nossa parte, faremos tudo que pudermos. Por enquanto, é preciso esperar.”

Ao olhar para 2018, no entanto, o executivo não esconde o desapontamento com percalços tão significativos. Os negócios sentiram o impacto da greve dos caminhoneiros, em maio, e a produção de açúcar da Raízen sofreu com a falta de chuvas, que comprometeram o cultivo, e a queda no preço internacional da commodity. Além, é claro, das incertezas sentidas durante o período eleitoral.

Do ponto de vista macroeconômico, disse Lutz aos analistas, 2018 não poderia ter sido mais complicado. Não foi um ano nada brilhante. “Mas, com tudo isso, conseguimos entregar resultados bastante relevantes, com algumas superações e algumas frustrações, mas em linha com nossos planos e orçamento.”

Números otimistas

Pouco antes da apresentação aos analistas, a Cosan divulgou as projeções esperadas para 2019. A expectativa de resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) consolidada pró-forma vai de R$ 5,6 bilhões a R$ 6 bilhões.

Foram divulgadas ainda as projeções para todas as subsidiárias do grupo. A previsão é chegar a um Ebitda normalizado de R$ 1,95 bilhão a R$ 2,1 bilhões na Comgás. Já os investimentos na companhia, com operações em parte do estado de São Paulo, poderão variar entre R$ 400 milhões e R$ 900 milhões.

A projeção para a empresa de lubrificantes Moove, que atua no Brasil, nos Estados Unidos e em alguns mercados da Europa, é de um Ebitda variável entre R$ 260 milhões e R$ 290 milhões.

Já a Raízen Combustíveis Brasil, segundo a divulgação, poderá chegar a um Ebitda entre R$ 2,9 bilhões e R$ 3,2 bilhões, com investimentos que poderão variar de R$ 950 milhões a R$ 1,15 bilhão. No caso da Raízen Argentina, uma operação que começou no ano passado depois de uma aquisição, o Ebitda deverá ficar entre R$ 210 milhões e R$ 260 milhões, e o investimento projetado deverá variar de R$ 100 milhões a R$ 140 milhões.

No caso da Raízen Energia, a previsão é otimista graças a uma estratégia adotada pela companhia que buscou costurar o uso de ferramentas tecnológicas e de inovação no campo. Drones foram usados para monitorar o crescimento da cana-de-açúcar e identificar onde era necessário reforçar o plantio. Além disso, a empresa renovou parte das lavouras com o investimento em novas mudas, fez uma série de análises de solos e melhorou os processos em máquinas.

Essa renovação dos canaviais, prevista para a safra 2019/2010, chegará a cerca de 100 mil hectares. Segundo Luis Henrique Guimarães, deverá ser a maior feita desde que a companhia surgiu como marca, há cerca de 10 anos. Na última safra, essa renovação foi de quase 86 mil hectares de cana. Atualmente, a área total plantada pela companhia, que faz parte da joint-venture entre Cosan e Shell, é de 860 mil hectares.
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Mais dinheiro em caixa

Esse reforço no campo terá um peso na expectativa que a direção da Raízen Energia tem para o Ebitda de 2019. Segundo a divulgação feita pela empresa, esse valor deverá ficar entre R$ 3 bilhões e R$ 3,2 bilhões se a conta levar em consideração a safra 2018/2019 e de R$ 3,4 bilhões a R$ 3,8 bilhões na safra 2019/2020, quando a moagem deverá chegar a 63 milhões de toneladas de cana.

Apesar desse número, a companhia só deverá chegar a 100% da capacidade instalada na safra 2022/2023, segundo João Alberto Abreu, vice-presidente de Etano, Açúcar e Bioenergia da Raízen Energia. A previsão era para 2021. Isso deve ocorrer, segundo o executivo, por conta dos problemas climáticos registrados nos últimos dois anos.

Ainda de acordo com a apresentação feita pela companhia, a expectativa é investir de R$ 2,7 bilhões a R$ 2,9 bilhões na safra 2019/2020. Será mais do que os R$ 2,6 bilhões estimados para a safra que termina agora. Parte desses recursos será destinada à renovação dos canaviais da Tonon, comprada pela Raízen há cerca de dois anos.

Segundo Lutz, o grupo poderá manter sua posição compradora, como tem mostrado nos últimos tempos, e continuar a adquirir participações em suas empresas. Isso tem ocorrido, explica, porque a companhia tem avaliado boas oportunidades com o aumento da participação.

Rumo está de olho nas concessões

A Rumo, empresa do setor de logística do grupo Cosan, divulgou uma projeção otimista de crescimento. Seu Ebitda deve manter a expansão a uma taxa de dois dígitos nos próximos anos. A estimativa é de que essa taxa seja, em média, de 15%. Se a expectativa se confirmar, o Ebtida, hoje de R$ 3,2 bilhões, chegará em 2023 a R$ 6 bilhões. A partir de 1º de abril, a companhia passa a ser comandada por Beto Abreu, que chega para ocupar o lugar de Julio Fontana Neto, que fará parte do conselho de administração. Aos acionistas, o executivo explicou que esse crescimento se baseia na previsão de expansão do mercado e também no aumento da participação da companhia em seu setor.

Uma das apostas fortes é no estado de Mato Grosso, grande produtor de grãos que tem 70% do que é colhido destinado ao mercado internacional. “É mercado que cresce e vamos procurar participação mais forte, mas para isso precisamos ganhar capacidade operacional”, afirma o executivo. Essa área é atendida pela Rumo por meio do chamado eixo norte. A empresa tem planos para construir um terminal na região e trabalha com a expectativa de colocar de pé mais um trecho de ramal ferroviário.

Esses projetos deverão absorver parte dos investimentos de R$ 13 bilhões a R$ 15 bilhões estimados para serem feitos até 2019. Por enquanto, a Rumo aguarda algumas decisões importantes sobre a renovação de seus contratos de concessão para definir se terá de ampliar os desembolsos.

 

 

 

 


Fonte: Correio Brasiliense