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Crédito ‘verde’ na exportação de açúcar

Postado em 5 de Agosto de 2020

A trading britânica Czarnikow concluiu o primeiro financiamento de uma operação comercial de açúcar com taxas atreladas a critérios sustentáveis com os quais todos os agentes de cadeia se comprometeram - desde os vendedores até os compradores finais. A operação envolveu a originação de 50 mil toneladas de açúcar da Usina Santa Terezinha, e saiu por US$ 16 milhões.

O financiamento foi concedido pelo OCBC Bank, de Cingapura, um dos integrantes da iniciativa. A parceria também exigiu o comprometimento com critérios sustentáveis da Usina Santa Terezinha, da The China Navigation Company (responsável pelo transporte marítimo) e da refinaria Central Sugars Refinery (CSR), da Malásia, que venderá o açúcar refinado para multinacionais de alimentos.

Embora, no papel, pareça uma operação de trading convencional, um longo tempo transcorreu para o envolvimento de todas essas empresas em compromissos conjuntos, afirmou Robin Cave, CEO da Czarnikow, ao Valor.

O financiamento foi viabilizado pela participação das companhias no programa de sustentabilidade vive, criado pela Czarnikow em parceria com a Intellync, companhia de tecnologia da britânica AB Agri.

O programa, que existe desde 2015, prevê, para cada empresa da cadeia, uma série de parâmetros relacionados a sustentabilidade ambiental e social a serem atendidos. Mas, diferentemente de um processo de certificação, em que a empresa pode obter o selo “verde” ou não, o Vive integra as companhias em um processo de pontuação. A ideia do programa é incentivar a melhoria contínua da empresa, sem excluí-la por não estar totalmente conforme.

As companhias fazem uma autoavaliação, mas o processo é auditado posteriormente e, de acordo com o resultado, é estabelecido um plano de melhorias.

Ao envolver todas as empresas que participam da comercialização do produto, esse tipo de financiamento também garante transparência sobre a originação do produto e seus caminhos na cadeia, uma demanda já existente de indústrias de alimentos, segundo Cave. “Em conversas, clientes finais multinacionais interessados em sustentabilidade queriam garantir que o fornecimento dos ingredientes fosse correto, queriam controle da cadeia de fornecimento”, afirmou.

Para a produção agrícola, por exemplo, há padrões relacionados à segurança do trabalho, emissões, proteção do solo, poluição de recursos hídricos, entre outros. Para o transporte, há requisitos relacionados não apenas às emissões, mas também à saúde e à segurança do trabalho e remuneração justa, entre outros. Para a industrialização do açúcar, critérios semelhantes também são avaliados. Os planos de melhoria são desenhados caso a caso.

O embarque está sendo realizado nesta semana, após alguns atrasos provocados pelo mau tempo no Porto de Paranaguá.

“Nos próximos anos [esses financiamentos] serão normais nos negócios”, disse o CEO da Czarnikow. Ele admite, porém, que há países em que a integração dos produtores agrícolas será mais difícil, e que a participação também dependerá de regulações governamentais. No Brasil, Cave acredita que esse tipo de operação pode ser mais comum, já que a produção está concentrada em fazendas maiores e, assim, mais fáceis de rastrear.

 


Fonte: Valor Econômico