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Cresce a concentração no comércio de açúcar

Exportações de açúcar no porto de Santos: Brasil representa cerca de 40% das exportações mundiais do produto

É quase uma questão física: muitos gigantes não conseguem mais ocupar, ao mesmo tempo, um espaço que tem encolhido. É o que está acontecendo no mercado mundial de açúcar. Mesmo com poucas grandes companhias atuando na comercialização da commodity, os baixos preços intensificaram uma tendência já observada em outros segmentos, como grãos: a concentração.

O valor das vendas globais de açúcar recuou 25% na safra internacional 2017/18 ante o ciclo anterior, para cerca de US$ 8,8 bilhões, consideradas as estimativas da Organização Internacional do Açúcar para as exportações de açúcar bruto e branco e os preços médios de cada um deles nas bolsas de Nova York e Londres.

O tombo foi grande porque em 2016/17 as cotações estavam atipicamente elevadas, em razão das intempéries que prejudicaram a oferta no Brasil. Ou seja, voltou a prevalecer, em 2017/18, o cenário de cotações – e margens – mais baixas que tem marcado a última década.

Nesse contexto, grupos importantes abandonaram a comercialização de açúcar e estimativas de mercado indicam que as três maiores tradings – Alvean (joint venture entre Cargill e Copersucar), RaW (joint venture entre Raízen e Wilmar) e Sucden – já respondem por 60% do volume movimentado.

No início do ano, uma das maiores companhias de agronegócios da Ásia, a Olam, sediada em Cingapura, comunicou suas mesas de operação que as negociações de açúcar seriam encerradas e que os operadores poderiam ser realocados para outras commodities. Meses antes, a americana Bunge, terceira maior companhia do agronegócios do planeta, havia vendido seu livro de contratos de açúcar para a asiática Wilmar – que tem a americana ADM como acionista e é sócia da Raízen na RaW.

Para justificar suas decisões, Olam e Bunge lembraram do longo período de preços baixos do açúcar, que comprimem os ganhos dos produtores e não oferecem a volatilidade que as tradings precisam para garantir margens. Se essa situação persistir, executivos e analistas dizem que a concentração vai continuar.

"A relação entre estoques e consumo nunca esteve tão ruim. Quando uma situação como essa dura anos e há oferta estressada, a consolidação toma lugar em qualquer mercado de commodity", afirmou Gareth Griffiths, CEO da Alvean, ao Valor. A companhia lidera a comercialização global de açúcar, com uma fatia de 30% do volume de açúcar bruto negociado na safra 2017/18 (encerrada em setembro). É a principal fornecedora para o Oriente Médio e a segunda maior para o Sudeste Asiático.

Também pesa nessa tendência o fato de o mercado de açúcar ser particularmente sensível a decisões políticas de países produtores como as da Índia, onde o governo tem aberto os cofres públicos para subsidiar produção e exportação.

"Nesse mercado, uma canetada muda tudo – tanto preços como fluxos, de onde vai e para onde. Isso dificulta a vida da empresa que precisa de estabilidade e estrutura institucional estável", diz João Paulo Botelho, da consultoria INTL FCStone.

A velocidade e o acesso à informação por cada vez mais agentes tornam a concorrência mais acirrada e também exigem ajustes estratégicos. "Antigamente, a informação vinha mais devagar, dava tempo de especular. Hoje, se não tiver uma atividade especulativa muito bem ajustada, não é possível sobreviver nesse mercado. Tem que ter investimento em análise de oferta e demanda", afirma Luiz Silvestre, diretor comercial da francesa Sucden no Brasil.

Essa maior facilidade no acesso à informação também enfraqueceu as tradings que trabalhavam como meras intermediárias. "As origens conhecem os destinos e os compradores. O papel da trading passou a ser mais de coordenação e contratação de grandes volumes de serviço de logística, seja de terminal ou de navio. As que se mantêm dependem da construção de confiança e relacionamento e se apoiando em contratos de logística", diz Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro.

No ano passado, por exemplo, a Alvean firmou contrato de longo prazo para fornecer açúcar bruto à Al Khaleej Sugar, dona da maior refinaria de açúcar do mundo, em Dubai. Esse tipo de relação estreita com produtores e compradores pode garantir às tradings a escala necessária para superar as baixas margens atuais e obter retorno.

Para Griffiths, da Alvean, o apoio financeiro e material dos acionistas contribui para que a trading tenha "um forte portfólio de ativos de logística" para operar e uma ampla cobertura de mercados. "É mais fácil de se mover para reduzir custos e proteger margens", afirma ele.

Silvestre, da Sucden, não vê a propriedade de ativos de logística como um fator determinante. O que importa, avalia, é mirar não em volumes – ainda que eles façam diferença -, mas em resultados. "O negócio hoje não tem mais o glamour de antigamente, quando os traders viajavam de primeira classe. As coisas mudaram. Em um mercado de margens pequenas, o que faz a diferença é a gestão de custo", afirma.

Outro fator de pressão foi a reorganização da atividade de refino, com o surgimento de refinarias independentes de produtores de açúcar bruto. "Elas conseguiram criar estoques de açúcar bruto consideráveis e hoje determinam a intensidade da demanda, o que também influencia o mercado", avalia Nastari.

Para um executivo que preferiu não se identificar, as características dos países que dominam o mercado de açúcar também não ajudam. "O açúcar é um produto que vai do terceiro para o quarto mundo. Muitos países tem risco de crédito", observa.

Por Camila Souza Ramos

 

 

 


Fonte: Valor Econômico