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Disputa nos EUA é marco para era dos combustíveis fósseis

Postado em 4 de Novembro de 2020

As eleições presidenciais nos Estados Unidos são das mais decisivas na história moderna em termos climáticos. O mundo está entrando na década crucial em que é preciso reverter a curva de carbono e reduzir pela metade a emissão de gases-estufa, e os EUA são o segundo maior emissor global.

Se Donald Trump se reeleger e seguir negando a ciência e o aquecimento global, a maior economia continuará a enviar sinais confusos a países como o Brasil e ao mercado financeiro, que tem que bancar a transição para economias zero-carbono. Por outro lado, se for o democrata Joe Biden a vencer, pode ser criado um G3 climático pela primeira vez na história formado pela União Europeia (UE), China e EUA, todos buscando a descarbonização em 30 anos. “É o começo do fim da era dos combustíveis fósseis”, analisa o hidrólogo sueco Johan Rockström, um dos maiores climatologistas do mundo.

Entre 2020 e 2030 as emissões globais de gases-estufa têm que ser cortadas pela metade, se o que se quer é evitar os impactos mais perigosos da mudança do clima e conter o aquecimento global aos limites previstos no Acordo de Paris, lembra ele. Desde 2018 Rockström dirige o renomado Potsdam Institute for Climate Impact Research, o PIK, junto com o alemão Ottmar Edenhofer.

Famoso por ter coordenado em 2009 um grupo de 28 pesquisadores que mostrou que a humanidade cruzou três de nove fronteiras planetárias que podem levar a pontos de virada irreversíveis no sistema terrestre e a catástrofes, Rockström diz que Trump falhou, “por sorte do mundo”, em fazer com que os EUA investissem pesado em carvão e combustíveis fósseis. “Falhou porque não faz mais sentido econômico investir em carvão”, diz. Apesar da retórica política do republicano, o mercado viu que é mais barato investir em energias renováveis.

Se Biden vencer, contudo, e a UE, a China e os EUA buscarem a descarbonização, há ameaça de “vazamento de carbono” para economias emergentes - ou seja, as indústrias podem querer migrar para países com menos regras ambientais e onde emitir carbono será mais barato. Para proteger suas indústrias, a UE estuda uma taxa de carbono de fronteira. O sueco acredita que nem Biden nem Trump deixarão isso acontecer nos EUA. “Vazamento de carbono também significa vazamento de trabalho e empregos”, lembra.

O cientista sueco diz que o Brasil, com a maior floresta tropical do mundo, é um ator poderoso para determinar o futuro da humanidade. “Quem está em São Paulo se preocupa com a floresta, e eu, em Estocolmo, também. A minha vida também depende da Amazônia”, diz.

A seguir trechos da entrevista que Rockström concedeu ao Valor de Estocolmo:

Valor: Por que as eleições presidenciais americanas são importantes para proteger o clima global?

Johan Rockström: Eu diria que estas eleições nos Estados Unidos são uma das mais decisivas na história moderna se pensarmos no futuro do clima e da sustentabilidade do planeta. A razão disso não é apenas a forte polarização que existe entre republicanos e democratas, mas é porque chegamos à década decisiva da proteção do clima. Entre 2020 e 2030 as emissões globais de gases-estufa têm que ser cortadas pela metade. Este é o ano, 2020, em que precisamos começar a reverter a curva de emissões globais e começar, determinadamente, a reduzir em todos os países, no mundo todo. Só assim para que alcancemos uma economia net-zero [economia de emissões líquidas zero, situação em que as fontes de emissão se equivalem às que retém gases-estufa] no meio do século. Isso é daqui a 30 anos. Durante os últimos 30 anos tivemos muito sucesso com avanços científicos e apoio político, mas estamos apenas fazendo mudanças marginais e não as transformações significativas que são necessárias.

Valor: O que o senhor quer dizer?

Rockström: Poucos países realmente começaram a transformação. Não apenas migrando para economias de zero carbono, mas também evitando a destruição dos reservatórios de carbono [como florestas e oceanos] e as perdas de biodiversidade. E agora alcançamos o fim da estrada.

Se Trump continuar a negar a ciência, os EUA seguirão enviando sinais fragmentados e confusos ao resto do mundo”

Valor: O fim da estrada?

Rockström: Agora estamos no ponto em que, se falharmos nos próximos dez anos, arriscamos pressionar os ‘tipping points’, os pontos de virada irreversíveis no sistema terrestre e que vão tornar o processo impossível de parar.

Valor: Quais pontos?

Rockström: Termos um aquecimento que exceda o limite de 2°C e submeta todas as futuras gerações a um aumento do nível do mar de mais de um metro. De termos constantes incêndios florestais, secas, ondas de calor e uma frequência de tempestades que tornarão o mundo muito prejudicial para humanos e para a economia. É por isso que esta eleição é tão importante.

Valor: E se os cidadãos americanos escolherem ter mais quatro anos de governo Trump?

Rockström: Antes de responder quero fazer um desvio: felizmente para todos os países no mundo, Trump falhou.

Valor: Como, falhou?

Rockström: Falhou em entregar o que prometeu - mais investimentos em carvão e em combustíveis fósseis. Falhou porque não faz mais sentido econômico investir em carvão. Apesar de sua retórica política, os negócios nos Estados Unidos eliminaram o carvão no país até mais rápido do que o presidente Barack Obama procurou fazer. Mas o problema com Trump é outro.

Valor: Qual?

Rockström: O problema é que se ele continuar a negar a ciência, a negar o aquecimento global, a negar que existe uma agenda estratégica para descarbonizar os sistemas energéticos e termos uma economia competitiva baseada em renováveis, mandará o sinal errado para países como o Brasil, a Indonésia, a Turquia, a Índia, as grandes economias africanas da Nigéria, África do Sul, Etiópia. Cria uma sensação de confusão no mundo. Teremos a mais poderosa economia enviando sinais fragmentados e confusos. Não é só sobre o impacto nos EUA, mas sobre o que isso significa para o mundo. O setor financeiro global deve se sentir confiante de que os mercados de amanhã são renováveis. Esta é a grande preocupação.

Valor: Com Joe Biden este cenário seria outro?

Rockström: Se Joe Biden entrar na Casa Branca, a primeira coisa que irá ocorrer é que os Estados Unidos voltarão ao Acordo de Paris. Este ponto dará segurança a todos os outros países. O segundo ponto, que eu acho mais importante, é que se criará pela primeira vez um G3 de clima no mundo.

Valor: Um grupo de três?

Rockström: Sim. União Europeia, China e Estados Unidos. As três regiões econômicas mais importantes vão se amarrar ao mastro do veleiro dizendo ‘net-zero em 2050’. Imagine o que pode significar, as três maiores economias dizendo: ‘Vamos descarbonizar em 30 anos’. A União Europeia já está zarpando. A China anunciou agora que fará o mesmo, o mais tardar, em 2060. Pode ser antes. Biden disse que os Estados Unidos será net-zero em 2050. Tenho quase certeza que se Biden se tornar presidente e se os EUA ingressarem neste rumo, teremos um G3 para o clima, e então os sinais para o mundo serão claros como cristais. É o começo do fim da era dos combustíveis fósseis. E como posso afirmar isso sendo um professor de ciências do sistema terrestre?

Valor: Sim?

Rockström: Porque faz sentido econômico. Porque a mobilidade elétrica compete hoje com veículos a gasolina e diesel. Porque a eletricidade é mais barata sendo produzida hoje através de ventos, Sol e biomassa do que carvão na maioria dos mercados do mundo. Não precisamos mais dos argumentos de sustentabilidade para sair dos combustíveis fósseis. Isso está ficando realmente interessante. Dez anos atrás os argumentos tinham a perspectiva ambiental. Hoje os argumentos têm também a perspectiva financeira.

Antes havia só a perspectiva ambiental. Hoje existe também a perspectiva financeira como estímulo à transição”

Valor: Quando o petróleo irá atingir o pico do consumo? A exploração de petróleo está mais perto do que o mercado chama de stranded assets, os ativos podres?

Rockström: Não estou tão certo em relação ao petróleo. No caso do carvão, já atingimos o pico. Vimos o presidente Trump dizendo que amava o carvão, colocando todos os subsídios possíveis ali e mesmo assim, caiu o consumo. O pico, no caso do uso de carvão, ocorreu há vários anos. Mas com o petróleo é diferente. Gostemos ou não, temos que admitir que petróleo é um vetor de energia muito eficiente e é difícil competir com ele na fase de transição. Vamos ver demanda por petróleo nas próximas décadas.

Valor: Como o senhor imagina a eliminação do petróleo?

Rockström: Há setores com mais dificuldade de se livrarem dos combustíveis fósseis como o transporte pesado a caminhões, a siderurgia, a aviação e o transporte marítimo. Estes setores se tornarão livres de combustíveis fósseis, estou totalmente convencido, mas de modo mais vagaroso. São os setores que irão consumir o último petróleo do mundo. Precisamos reconhecer isso e identificar os setores que inevitavelmente vão precisar daquele petróleo restante e que irão consumir o orçamento de carbono que nos resta.

Valor: O senhor pode explicar?

Rockström: Temos um orçamento de carbono pequeno sobrando: só 340 bilhoes de toneladas de CO2 para emitir se queremos ter alguma chance de manter o aquecimento global em 1,5°C. Ou 600 a 700 bilhões de toneladas se quisermos ficar abaixo de 2°C. Isso é o equivalente a 10 ou 20 anos de emissões globais se continuarmos como hoje. Por isso precisamos identificar os setores que inevitavelmente vão precisar daquele petróleo restante. Por isso os outros setores, com mais facilidade, terão que descarbonizar muito mais rápido. E qual é o mais rápido? Eletricidade. Então, a primeira coisa que temos que fazer é começar a produzir toda a energia do mundo através de energias renováveis. Esta é a fruta da árvore que está mais próxima de nós. Com petróleo é tudo mais desafiador. Irá acontecer, mas mais devagar.

Valor: Como evitar o risco de vazamento de carbono com o G3? Ou seja, que empresas europeias, chinesas ou americanas migrem para economias em desenvolvimento?

Rockström: Há um risco real nisso. Existem algumas medidas que podem e devem ser feitas. A número um é óbvia: colocar um preço ao carbono. O espírito dos Estados Unidos, que hoje é “America First”, quer dizer que tanto Biden quanto Trump não vão permitir vazamento de carbono. Porque vazamento de carbono é a mesma coisa que vazamento da força de trabalho, dos empregos. Ou seja, transferir a outros países posições de trabalho. Por isso acredito em um forte debate sobre colocar preço ao carbono para evitar o vazamento. Não acredito em um preço global de carbono, porque aprendemos que isso é muito difícil de acontecer. Mas o que podemos fazer é começar a colocar tarifas de importação ao carbono. Isso poderá ocorrer no G3, com todos os produtos importados, e assim nivelando a competitividade do mercado para evitar o vazamento. Mas isso, é claro, será muito doloroso para os países em desenvolvimento que dependem das exportações.

Valor: O que pode ser feito?

Rockström: Combinar as tarifas de importação dentro do G3 com esquemas financeiros de transferência de recursos muito subsidiados, como créditos e empréstimos para países em desenvolvimento, para que possam investir em infraestrutura renovável. O motivo pelo qual a África do Sul não migra rapidamente para energia solar e eólica é que a taxa de juros para empréstimos é tão alta que mantém a geração de energia a combustível fóssil ainda competitiva. Então, estes dois mecanismos podem ajudar a fazer que gradativamente os países em desenvolvimento possam ter exportações de zero carbono também. Há maneiras de lidar com estes desafios. Existe outro ponto, mais importante até.

Valor: Qual seria?

Rockström: Minha opinião é que quando o G3 começar a se mexer rumo à descarbonização para que suas economias sejam zero-carbono em 30 anos, haverá tanta inovação, tanta tecnologia e novas maneiras de produção, que isso irá transbordar ao mundo em desenvolvimento como uma corrida competitiva. Como foi com os telefones celulares e a internet que se espalharam pelo mundo rapidamente. Acredito que veremos tecnologias de zero carbono também virando norma. Enfrentaremos desafios tremendos, mas a beleza, neste caso, é que temos muitas evidências que a rota sustentável é mais competitiva e atraente. É uma situação única.

Valor: Por quê?

Rockström: No passado, resolver problemas ambientais esteve sempre associado a um certo nível de sacrifício e a custos. Mas agora é diferente. Podemos ver uma dinâmica em que forças de mercado podem acelerar o caminho da direção do zero carbono. É diferente de colocar um freio no desenvolvimento.

Valor: É pela ameaça de vazamento de carbono e fuga de empresas que a União Europeia estuda uma taxa de carbono de fronteira?

Rockström: Exatamente. E para ter um mercado justo e competitivo dentro da União Europeia. Mas também como um incentivo para as nações exportadoras começarem sua própria transição.

Valor: Qual a importância do Brasil nesta dinâmica global?

Rockström: O Brasil é uma das super potências quando o assunto é determinar o estado ambiental do planeta Terra. O país hospeda o mais rico ecossistema do mundo, a floresta tropical amazônica, que também é um dos mais importantes reservatórios de carbono e um sistema que regulamenta o fluxo de água através da América do Sul. O Brasil é uma super potência no que diz respeito ao futuro de todos em termos de condições de vida no longo prazo. Porque se perdemos a floresta amazônica teremos impacto no sistema climático global. No Brasil, Carlos Nobre, um dos cientistas líderes no mundo, mostra que o desmatamento está se aproximando perigosamente de um ‘tipping point’ em que a Amazônia poderia deixar de ser floresta e se tornar savana. Se virar a Amazônia uma savana seca, não se perderá apenas biodiversidade, mas também carbono e capacidade de geração de água. A Amazônia é decisiva no clima.

Valor: Decisiva, quanto?

Rockström: Tão decisiva que eu a chamo de ‘global common’, ou bem comum. No passado falávamos que bens comuns eram a Antártica, as zonas de alto mar e o espaço sideral. Mas hoje ameaçamos tanto a estabilidade da Terra que nos damos conta que as florestas tropicais da Amazônia, do Congo e da Indonésia também são bens comuns porque não podemos correr o risco de perdê-las. Elas importam a todos. Quem está em São Paulo se preocupa com a floresta, e eu, em Estocolmo, também. A minha vida também depende da Amazônia. Não é apenas um assunto brasileiro. Claro, isso é muito desafiador porque é a floresta dos brasileiros. Digo que é um bem comum no sentido que todos dependem da saúde da floresta. Espero que o Brasil veja que a sua responsabilidade e que o mundo veja a super potência que o Brasil é. O Brasil é uma grande economia e também hospeda o mais precioso componente do que determina o estado do planeta.

Valor: Como o senhor vê o que ocorre hoje na Amazônia?

Rockström: Estou muito preocupado com o que acontece no Brasil e com a falta de vontade do presidente Bolsonaro de ver o valor para o Brasil, para o bem-estar dos brasileiros, para a economia brasileira e para a economia global de realmente proteger a floresta amazônica. Já se cortou 17% da floresta. Nobre e outros pesquisadores dizem que se perdermos 20% a 25% da Amazônia pode-se chegar ao ponto em que não se pode mais voltar atrás. Não gostaria de me aproximar tanto deste nível de risco.

Valor: A revista Nature diz que ciência e política são inseparáveis e que a ciência vem sendo ignorada. O que pensa disso?

Rockström: Me sinto triste sobre este período em que há tanto desrespeito ao conhecimento e aos fatos. Sete anos atrás eu sentia uma excitação no que parecia um novo renascimento com tecnologia, ciência, inovação, revolução digital. Mas aí veio Donald Trump, que é sintoma e não a causa de uma polarização generalizada em que a mídia social, o horizonte digital e o mundo super conectado permitem às pessoas criarem suas próprias verdades. Mas sinto que a pandemia devolveu à Ciência algum respeito. Creio que estamos em uma fase temporária em que há muita turbulência e frustração, mas no longo prazo creio que estaremos nos movendo a um inevitável desenvolvimento baseado em ciência. Pela simples razão que, se falharmos, deslizaremos para um mundo insustentável e muito mais conflituoso. Ou transitaremos para um mundo mais próspero, saudável e equilibrado baseado em ciência e com mais dados, mais observações sobre a Terra, mais informações ecológicas, econômicas e inovação.

 


Fonte: Valor Econômico