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Due diligence agrícola: importante instrumento para gestão e investimentos no setor sucroenergético - Por Dib Nunes Jr.

Na área agrícola das empresas do segmento sucroenergético, se concentra mais de 65% dos gastos do setor e é onde se encontram também os maiores problemas. É um campo propício para a realização uma due diligence. Para esta avaliação, são envolvidos diversos contingentes de colaboradores e os mais variados recursos de produção. Sua imprevisibilidade é alta e as situações encontradas são, muitas vezes, as mais inusitadas.

A maioria dos problemas se repetem, mas muitas tecnologias utilizadas são geradas e aplicadas quase que exclusivamente em suas próprias condições. Numa análise realizada por uma eficiente due diligence, se encontram muitos diferenciais competitivos e também se tornam visíveis os grandes desafios para quem está interessado em investir ou gerir um negócio sucroenergético.

As rotinas de relacionamento com o mundo do agronegócio, sejam fornecedores, parceiros, órgãos públicos e instituições comerciais, são com frequência muito particulares, seja no âmbito operacional, legal, comercial, financeiro ou estratégico. Muitas vezes a viabilidade da empresa está diretamente ligada a estes fatores.

Os principais pontos de riscos encontrados estão ligados a contratos mal elaborados, contratos com elevada concentração de vencimentos e valores de serviços acima do mercado, dependência de fornecedores de cana e de terras, canaviais com baixa produtividade, falta de tratos culturais, regiões com problemas ambientais, solos de menor fertilidade, relevo impróprio para a mecanização, frota velha ou reduzida com elevado índice de terceirização, resultados operacionais ruins nas operações de colheita e transporte, logística extremamente comprometida com longas distâncias das áreas de produção  ou por estradas ruins de acesso difícil às propriedades produtivas etc. etc.

É importante também, numa due diligence, avaliar o nível técnico do quadro de gestores em posição estratégica e seu comprometimento com as metas da empresa. Além disso, deve-se apurar os custos de produção das principais etapas do sistema produtivo de cana e compará-los a fontes seguras e atualizadas. A avaliação da eficiência dos serviços de apoio necessários às operações de campo, a possibilidade de expansão da lavoura e a imagem que a empresa tem junto a fornecedores, proprietários de terras e prestadores de serviços da região são também muito importantes.

Há regiões onde a concorrência com outras empresas agrícolas e outros negócios é extremamente impactante, a ponto de deixá-las sem condições de redução de custos. Embora o nível de credibilidade seja medido pela análise financeira e pelo cumprimento de compromissos assumidos com instituições financeiras e fornecedores, a imagem que a empresa acumulou na região pode ter um enorme peso na sobrevivência e no sucesso da mesma.

O levantamento do Capex (em português, despesas de capital ou investimento em bens de capital) necessário para os próximos anos para recuperação ou crescimento da empresa é fundamental para que o investidor fique sabendo qual deve ser o capital a ser aplicado. As avaliações dos ativos biológicos darão a ideia do capital armazenado no campo, do seu potencial para produção de açúcar, etanol e energia elétrica e quanto a empresa precisará gastar em custeio para garantir o faturamento futuro ou o pay back pretendido no negócio.

Os potenciais investidores correm riscos muito grandes, quando a due diligence não é realizada por empresas experientes e capacitadas para analisar todos estes fatores que certamente poderão comprometer ou alavancar o negócio sucroenergético.

Segundo informações levantadas pelo Grupo IDEA, consultoria especializada em due diligences, grande parte dos novos players que acessaram este mercado na década passada não obtiveram o sucesso esperado, por não conhecerem a cultura do setor ou por desconhecimento da complexidade da produção canavieira. Agora estão tentando se livrar do negócio, colocando o patrimônio adquirido à venda. Querem recuperar o que investiram, mas certamente contabilizarão pesadas perdas ao sair.

Muitos casos começaram com due diligences imprecisas e malfeitas, que não apuraram corretamente as capacidades, índices de produtividades e de rendimentos, apontando para faturamento muito acima do seu potencial. Com os seis anos de crise de preços do setor, a situação se agravou e os níveis de faturamento desejados não foram alcançados. Algumas empresas recorreram a chamadas de capital, outras simplesmente já passaram o bastão para credores ou fecharam as portas.

As empresas avaliadoras especializadas no negócio canavieiro, que realizam due diligences, precisam usar nestas avaliações, KPIs- Indicadores de desempenho técnico-operacionais atualizados e de alta credibilidade para fins de comparação com o mercado, além de estarem muito atentas aos dossiês preparados por aqueles que tentam valorizar demais seus ativos ou esconder ineficiências dentro da complexidade da produção canavieira.
Muitas vezes as diferentes realidades podem esconder verdadeiras armadilhas ou até mesmo tesouros, cujo desvendamento e elucidação podem determinar o sucesso ou o fracasso dos empreendimentos ou dos futuros investimentos.

O setor sucroenergético sempre trabalhou com margens estreitas que não permitem riscos ou obrigações muito elevadas a cumprir, pois tornam o empreendimento inviável. O levantamento bem balizado de dados é importante para alimentar as planilhas de modelagem financeira do negócio, usadas para decisões finais dos investidores ou simplesmente para gerir os atuais negócios.

O conhecimento da realidade da área agrícola de cada empresa avaliada é, portanto, trabalho a ser realizado por profissionais experientes, devidamente qualificados e que disponham de amplo conhecimento e expertise na identificação e no tratamento a ser dispensado a todas estas peculiaridades. Sua visão, avaliação e parecer embasam as decisões corretas e evitam muitas surpresas desagradáveis.

A melhoria dos cenários e a mudança de rumos da política econômica do Brasil estão atraindo novos investidores ao mercado. Porém, estão ainda muito mais cautelosos por causa da situação político-econômica do país e é claro, das empresas sucroenergéticas, procurando analisá-las com maior nível de detalhes antes de realizarem investimentos, seja para transferência do controle acionário, crescimento e ajuste da produção.

Um diagnóstico bem embasado poderá dar segurança aos novos entrantes ou aos gestores, identificando o real potencial produtivo e os gargalos da empresa avaliada, firmando-se nos principais pontos críticos ou favoráveis de cada caso, além de contribuir para detectar as possíveis ameaças e oportunidades inerentes ao negócio.

O Grupo IDEA realizou oito due diligences em empresas sucroenergéticas no segundo semestre de 2016 e já concluiu outras três neste ano. Portanto, somando-se a estes trabalhos recentes, esta consultoria, longo dos últimos anos, completou 47 avaliações desta natureza, contribuindo decisivamente para reduzir enormemente os riscos e auxiliar nas decisões de investimentos em empresas do setor.

As recentes buscas por due diligences demonstraram que os investidores voltaram a enxergar oportunidades de negócios neste setor no Brasil e o que mais nos chama a atenção é que as empresas existentes, mesmo aquelas que não estão em processos de transferência de controle acionário, entenderam que uma boa due diligence, também é um excelente instrumento para dar uma visão atualizada e direcionar as decisões para novos rumos. A due diligence começa a ser entendida como uma peça de gestão imprescindível para ser renovada de tempos em tempos, de modo a tirar as empresas da inércia e proporcionar visões mais claras para condução do agronegócio. Bons ventos voltaram a soprar.  

 

 * Dib Nunes Junior é engenheiro agrônomo e diretor-presidente do Grupo IDEA