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E-mails da Monsanto divulgados põem em dúvida defesa do glifosato

E-mails internos da Monsanto e outros documentos divulgados nesta semana por um escritório de advocacia mostram como a maior empresa de sementes do mundo defendeu o herbicida glifosato das alegações de que o produto pode causar câncer. O escritório Baum, Hedlund, Aristei & Goldman representa agricultores e produtores rurais em uma ação movida há quase dois anos na Califórnia contra a Monsanto. Os agricultores alegam que tiveram câncer por causa da exposição ao glifosato e que a companhia escondeu os supostos riscos do herbicida.

Os e-mails mostram os esforços da Monsanto para guiar cientistas na defesa de seu produto e no combate a pesquisas divergentes. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e a Agência Europeia de Produtos Químicos disseram que o glifosato provavelmente não causa câncer.

Segundo Brent Wisner, um dos sócios do escritório de advocacia, os documentos “mostram claramente” a relação próxima da Monsanto com funcionários da EPA. Mostram também que a empresa “escreveu artigos e depois citou o material como se ele fosse confiável”, disse. O escritório afirmou que repassou os documentos a órgãos reguladores nos EUA e na Europa para ajudar em futuras decisões sobre o herbicida.

O glifosato, que a Monsanto inventou e comercializa desde 1974 sob a marca Roundup, é o herbicida mais utilizado no mundo. Grupos ambientalistas e de defesa do consumidor vêm questionando a segurança do produto há anos.

A Monsanto nega qualquer ligação do glifosato com câncer. O vice-presidente de estratégia da companhia, Scott Partridge, disse em entrevista que a Monsanto precisa sempre contestar ataques ao herbicida que sejam motivados por interesses de alguns grupos, e não por evidências científicas. Segundo ele, a divulgação dos documentos é uma violação à confidencialidade determinada judicialmente e que protege informações da companhia neste caso. Na quarta-feira, a Monsanto pediu que o juiz do caso determine a remoção dos documentos do site do escritório de advocacia, proíba novas divulgações de outros documentos da Monsanto e imponha uma multa.

O debate sobre a segurança do glifosato se intensificou em 2015, após a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, braço da Organização Mundial de Saúde, afirmar que o herbicida pode causar câncer em seres humanos. Em resposta, a Monsanto contratou uma consultoria para reunir um grupo de especialistas para analisar as conclusões da agência. Mais tarde, o grupo patrocinado pela Monsanto afirmou que a agência negligenciou alguns dados e interpretou estudos de forma equivocada. Funcionários da agência defenderam suas conclusões, dizendo que realizaram um processo rigoroso e baseado nos melhores dados disponíveis.

A divulgação de pesquisas científicas favoráveis a produtos e serviços de companhias é uma prática antiga que continua bastante comum, disse Paul Argenti, professor de comunicação corporativa da Tuck School of Business, do Dartmouth College. Ele diz que nunca fez pesquisas ou prestou consultoria para a Monsanto. Empresas dos mais variados setores já financiaram pesquisas que ajudam a apresentar seus negócios sob um ângulo mais favorável, e esse material muitas vezes fornece subsídios para avaliações regulatórias. “A triste realidade é que se você está financiando uma pesquisa cria imediatamente problemas de credibilidade”, disse Argenti.

Os e-mails internos divulgados nesta semana incluem uma mensagem de novembro de 2015 de William Heydens, um cientista da Monsanto, sugerindo mudanças no manuscrito elaborado pelo grupo de especialistas, e sugerindo que dois membros do grupo que já tinham trabalhado para a Monsanto não fossem incluídos como autores. John Acquavella, professor de epidemiologia da Universidade Aarhus, na Dinamarca, expressou sua desaprovação em um e-mail para Heydens, escrevendo que isso seria “antiético”. Mais tarde, em outro e-mail, Heydens se desculpou por “um enorme mal-entendido” e os nomes dos dois membros foram incluídos na versão final, mas o de Heydens, não.

“A solicitação que recebemos dos autores foi a de fornecer informações e checar sua exatidão, e de fazer edições onde fosse apropriado, e não de opinar sobre ciência ou sobre as opiniões dos autores”, disse Partridge. Um porta-voz da Monsanto disse que Heydens não foi incluído como autor porque seus comentários não atingiram o nível de autoria ou de atribuição, e que o fato de a companhia ter patrocinado o grupo não era segredo.

Em e-mail ao The Wall Street Journal, Acquavella disse que o assunto estava resolvido e que Heydens apenas tinha apontado erros de digitação no documento.

Outros documentos incluem uma comunicação entre um funcionário da EPA e a Monsanto sobre uma possível avaliação do glifosato por outra agência governamental, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS). Jack Housenger, na época funcionário do Escritório de Programas de Pesticidas da EPA, disse à Monsanto que a avaliação tinha sido suspensa e que era improvável que pesquisadores do HHS chegassem a conclusões diferentes daquelas da EPA. Uma porta-voz da HHS não comentou imediatamente o assunto.

Já um porta-voz da EPA disse que o processo de regulamentação de pesticidas da agência exige comunicação frequente com fabricantes de agroquímicos, principalmente quando produtos específicos estão sob avaliação. A EPA iniciou uma revisão do glifosato em 2009.

De acordo com Scott Partridge, da Monsanto, há interações regulares da empresa com a EPA relacionadas à regulamentação de produtos da companhia pela agência. “O fato de que a EPA concorda com os estudos que apresentamos sobre a segurança do glifosato não quer dizer q


Fonte: Estadão Conteúdo