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Ferrugem alaranjada em cana-de-açúcar

Postado em 18 de Março de 2020

O Brasil possui cerca de nove milhões de hectares cultivados com cana-de-açúcar (Saccharum officinarum), sendo o estado de São Paulo o maior produtor, seguido por Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Alagoas, Pernambuco e Mato Grosso, que são os principais responsáveis pelo fornecimento da matéria-prima para a produção de etanol, açúcar e energia no país 

Levando-se em consideração que o etanol é o combustível que apresenta uma das melhores alternativas para a redução da emissão de gases causadores do efeito estufa e que o açúcar produzido no Brasil abastece 50% do mercado internacional, fica fácil entender a expressiva importância econômica da cultura.

A produção brasileira de cana-de-açúcar gira em torno de 654 milhões de toneladas, com produtividade estimada em 73,21 toneladas por hectare (Conab, 2015). Após cortes sucessivos (colheitas) essa produtividade tende a diminuir em virtude da menor resposta das variedades aos manejos empregados na cultura, onde se torna necessária a reforma dos canaviais, o que gera certo custo ao produtor, que ainda pode ser mais complexo quando ela precisa ser antecipada em decorrência de alguns problemas fitossanitários da cultura.

Dentre esses problemas encontrou-se a doença ferrugem alaranjada, que chega a reduzir produtividade agrícola entre 20% e 40%, dependendo da suscetibilidade da variedade utilizada. O agente causal dessa doença é o fungo Puccinia kuehnii (W.Krüger), que cresce e se reproduz exclusivamente em tecidos vivos da cana-de-açúcar.

O sintoma característico dessa doença é a formação de lesões foliares que evoluem na forma de pústulas alaranjadas, conforme ocorre a produção de urediniósporos (estruturas de resistência) e seu amadurecimento, sendo facilmente dispersos para outras folhas através do vento. Essas pústulas podem ocorrer em toda superfície foliar, porém tendem a se agrupar em pontos próximos à inserção das folhas nos colmos, causando necrose na maioria das vezes.

A queda da produtividade é consequente da redução da área fotossintética ativa advinda da formação dessas pústulas e, dessa forma, as variedades utilizadas acabam por não expressar todo o seu potencial produtivo, pois o desenvolvimento das plantas do canavial é seriamente afetado. Essa redução pode ser mais acentuada após cortes sucessivos, quando a doença pode tornar-se mais agressiva em virtude da debilitação do canavial, o que a qualifica como uma das doenças mais problemáticas para o setor sucroalcooleiro.

Essa doença já existe há tempos em países asiáticos e na Oceania, sendo detectada no continente americano somente nos últimos anos, inicialmente no sul da Flórida (USA) em junho de 2007 (Comstock et al, 2008), posteriormente na Guatemala (Ovalle et al, 2008), Costa Rica, Nicarágua (Chavarría et al, 2009), Panamá, El Salvador, México (Flores et al, 2009).

Nesse momento houve um intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e países onde a doença já era realidade, com o intuito da troca de experiências e seleção de clones resistentes antes mesmo da sua entrada no Brasil. Entretanto, no final do ano de 2009 a ferrugem alaranjada foi relatada pela primeira vez em uma propriedade próxima aos municípios de Rincão e Araraquara, no interior do estado de São Paulo (Barbasso et al, 2010) sendo disseminada para as demais regiões produtoras de cana-de-açúcar do país, onde desde então convive-se com a doença em território nacional.

Em condições de campo a ferrugem alaranjada pode ser confundida com a ferrugem marrom, causada pelo fungo Puccinia melanocephala, que já é uma velha conhecida dos canaviais brasileiros, porém proporciona menores danos econômicos por ser considerada de menor agressividade. Diferenciar essas ferrugens a campo somente pela aparência das pústulas requer certo treinamento, pois seus sintomas e estruturas de resistência são muito parecidos. Em algumas situações a confirmação da doença pode ser realizada através de análises laboratoriais simples, onde são observados a coloração, o tamanho e o formato dos urediniósporos. Em outras, também podem ser empregadas técnicas moleculares, o que é muito raro.

Essa diferenciação entre os urediniósporos é possível pelo fato de P. kuehnii apresentar urediniósporos maiores, com 35µm a 68µm de comprimento, enquanto que os de P. melanocephala geralmente são menores, entre 24µm e 43µm (Dixon et al, 2010). Outra característica importante é o formato dos urediniósporos, que para P. kuehnii são principalmente obovoides ou piriformes, com paredes de cor laranja ou marrom em tons de canela, já para P. melanocephala, são observados urediniósporos de formas obovoides e elipsoidais, com coloração de canela-marrom a marrom-escuro (Virtudazo et al, 2001).

Geralmente a ferrugem alaranjada se desenvolve no final do ciclo da cultura e é favorecida por ambientes úmidos com temperaturas amenas (21°C) e alternância entre calor e frio no outono. Mas existem relatos do início da visualização dos sintomas, em plantas naturalmente infectadas a campo, há aproximadamente 80 dias após o corte, principalmente em variedades suscetíveis cultivadas em ambientes favoráveis à doença. As regiões central e leste do estado de São Paulo são as que apresentam condições climáticas mais favoráveis para o desenvolvimento da mesma, seguidas pela região oeste deste estado (Santos, 2013).

Algumas variedades como a RB72454 e a SP89-1115 apresentam suscetibilidade à ferrugem alaranjada e foram substituídas dos canaviais paulistas por outras que apresentam resistência ou tolerância à doença, o que tem surtido bons resultados. O uso de variedades resistentes é um método de controle eficiente e economicamente viável para a ferrugem alaranjada, entretanto nem sempre as variedades resistentes apresentam características desejáveis para a agroindústria canavieira.

Existem no País consagrados programas de melhoramento genético em cana-de-açúcar que periodicamente selecionam variedades com boas características agronômicas, industriais e que apresentam resistência, ou tolerância, à doença. Esse processo de seleção geralmente é feito em áreas com alta pressão de inóculo (alta concentração de urediniósporos viáveis no ambiente) e em condições edafoclimáticas ótimas para o desenvolvimento da doença, mas somente após alguns anos de seleção são lançadas no mercado algumas variedades interessantes que correspondem às necessidades do setor sucroalcooleiro.

Diante disso, em alguns casos é justificável a utilização de fungicidas para o controle da doença e manutenção da produtividade agrícola a curto prazo, ou até o momento ideal para realizar a substituição de uma variedade suscetível por outra resistente ou mais tolerante.

Para essas situações existem no mercado alguns produtos registrados pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que geralmente são misturas à base de estrobilurinas e triazóis, capazes de proporcionar boa eficiência no controle da ferrugem alaranjada e aumento de produtividade, principalmente quando utilizados em canaviais que apresentam baixa severidade da doença.

Essa severidade pode ser quantificada a campo através da utilização de escala visual de notas e pode dar uma boa orientação quanto ao momento adequado da utilização destes produtos. Mas cabe ressaltar que nesses casos a relação custo/benefício deve ser levada em consideração e que o manejo varietal, ou seja, de variedades, na maioria das vezes ainda é a melhor opção.

Embora já exista um razoável número de variedades de cana-de-açúcar resistentes ou tolerantes à ferrugem alaranjada disponíveis para os produtores, deve-se levar em consideração o fato de que P. kuehnii é fungo, portanto um organismo vivo que pode se adaptar ao ambiente de produção e, em alguns casos, conseguir se instalar e desenvolver sintomas da doença em variedades consideradas tolerantes, principalmente quando cultivadas em locais com alta pressão de inóculo.

Por isso o desenvolvimento constante de novas variedades pelos programas de melhoramento genético é fundamental, bem como o manejo racional e a diversificação de cultivo de variedades em extensas áreas, pois dessa forma as chances de queda de produtividade, em decorrência do desenvolvimento da ferrugem alaranjada, serão baixas. Sendo assim, vamos convivendo da melhor maneira possível com a doença nos canaviais brasileiros.

Por Dra. Juliana Cristina Sodário Cruz, Pesquisadora científica, Instituição: Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) - Polo Centro-Oeste


Fonte: Artigo publicado na edição 199 da Cultivar Grandes Culturas