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Fertirrigação com vinhaça nutre canaviais, salva socarias da seca e reduz custo com adubo inflado pelo dólar alto

Postado em 23 de Setembro de 2020

A adoção da aplicação da vinhaça localizada permite às usinas fertirrigar praticamente 100% da socaria, com menor custo e maior eficiência

Na safra 2019/20, o Brasil bateu seu recorde de produção de etanol, alcançando 35,6 bilhões de litros. Para a atual safra, a Conab projeta que a produção total de etanol do Brasil será em 30,56 bilhões de litros, queda de 14,3% ante a safra anterior. A redução se deve à mudança no direcionamento do mix de produção, mais cana está sendo transformada em açúcar, porque o adoçante está mais remunerador que o etanol.

Cerca de 90% desse etanol tem como matéria-prima a cana e 10% o milho. Cada litro de etanol produzido a partir da cana gera 12 litros de vinhaça, ou seja, no universo sucroenergético existe um oceano de vinhaça. O excesso desse coproduto do etanol poderia ser um problema, mas se tornou um ganho competitivo para as unidades sucroenergéticas.

É conhecido que a vinhaça, em função de sua composição (matéria orgânica, K2O, N e outros micronutrientes necessários à cana), proporciona uma melhoria contínua no condicionamento do solo, resultando em um ambiente de produção mais propício. Já a quantidade de água presente na mesma, contribui para minimizar o déficit hídrico. Esses dois efeitos proporcionam ganhos de produtividade e longevidade ao canavial.

Benefícios que ganharam ainda mais importância neste ano de estiagem prolongada e de dólar alto, que encarece os fertilizantes. Esses ganhos com a fertirrigação estimulam o setor a aumentar a área fertirrigada, hoje estimada em torno de 40% da área de cana.

A tendência é que esse número cresça muito em pouco tempo, o estímulo não vem apenas dos ganhos agronômicos da vinhaça como importante fertilizante, mas da adesão do setor à irrigação. O foco do setor é produzir mais na mesma área, e a irrigação contribui muito para essa conquista. Assim, irrigar deixou de ser apenas opção para salvar os canaviais da região Nordeste e ganhou status de ferramenta para aumentar a produtividade e a longevidade dos canaviais do Centro-Sul. E se essa irrigação, além de água puder levar nutrientes, melhor ainda. Esse é o caso da fertirrigação com a vinhaça.

André Elia Neto, consultor Ambiental e de Recursos Hídricos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), salienta que, atualmente, esse manejo da vinhaça é realizado, principalmente, por meio da fertirrigação convencional por aspersão, que está de acordo com as normas ambientais de prevenção de poluição.

No entanto, Elia observa que aliadas ao manejo convencional atual, duas tecnologias podem ser mais intensamente utilizadas para dar maior sustentabilidade ao uso da vinhaça na fertirrigação: a biodigestão, para o aproveitamento energético e produção de uma vinhaça mais neutra, e a concentração, em vários níveis, para a produção de um biofertilizante a ser aplicado diretamente na linha de cana (vinhaça localizada), atendendo ambas, tanto o aspecto agronômico como também uma maior sustentabilidade ambiental, além de uma maior economia na substituição do insumo cloreto de potássio.

O Consultor explica que, a concentração ou mesmo a pré-concentração ou vinhaça naturalmente mais concentrada enriquecida com demais nutrientes, para aplicação diretamente no sulco de plantio da cana, vem no sentido de aumentar a distância econômica para o seu uso, podendo atingir canaviais mais distantes, uma vez que o  que restringe o uso agrícola da vinhaça é a distância econômica, pelo fato de se ter um resíduo com alto teor de água (cerca de 97%), encarecendo o seu transporte e a distribuição no campo.

Segundo Elia, em níveis naturais, a fertirrigação com vinhaça atinge, economicamente, distâncias de até cerca de 20 km; já a vinhaça pré-concentrada ou naturalmente mais concentrada (originada de melaço e caldo em destilarias anexas à fábrica de açúcar) e enriquecida pode atingir a distância econômica de até 40 km e, no caso da concentração efetiva a cerca de 20 °Brix, a vinhaça pode atingir distâncias bem maiores, de até 80 km, porém com vultosos investimentos e necessidades de energia térmica (cerca de uma dezena de usinas instalaram esse equipamento).

VANTESGENS DA APLICAÇÃO LOCALIZADA DE VINHAÇA CONCENTRADA

O meio mais comum da vinhaça ser levado da indústria aos canaviais é por meio de adutoras, que são canais que levam o produto “in natura” para as áreas mais próximas da usina onde serão bombeadas e aplicadas por aspersão. Em fazendas mais distantes, a vinhaça é levada por caminhão e depois é bombeada da mesma forma.

Para alcançar canaviais mais distantes e promover o uso mais racional da vinhaça, cresce no setor o uso de carretas puxadas por tratores, que permitem a aplicação da vinhaça de forma localizada na linha da cana e na quantidade certa. Também é possível adicionar a essa vinhaça outros nutrientes, fazendo uma adubação mais completa e de maior aproveitamento.

É o que acontece na Usina São Martinho, em Pradópolis, no interior paulista, a vinhaça passou a chegar nos canaviais por meio da carreta aplicadora de vinhaça localizada. O trator traciona um tanque com uma barra com saídas direcionadas nas linhas da cana. O equipamento oferece maior precisão às aplicações, gerando maior benefício para a planta. Esse método permitiu que a usina saísse dos 40% da área fertirrigada para praticamente 100%.

Com o RenovaBio, Programa Nacional dos Biocombustíveis, a UNICA estima que a produção de etanol deva chegar a 50 bilhões de litros por safra até 2030. Assim, o oceano de vinhaça se tornará bem maior, o que faz necessário desenvolver tecnologias e práticas para aproveitar todo o potencial desse incrível coproduto do etanol.

 


Fonte: CanaOnline