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Fim da relação açúcar-petróleo mostra que Brasil perdeu poder

A indústria de biocombustíveis do Brasil costuma salvar o mercado de açúcar ao absorver o excedente transformando a cana em etanol. Mas os tempos mudaram.

Antigamente, as usinas brasileiras que transformavam açúcar em etanol ajudavam a absorver qualquer excedente, respaldando assim os preços globais. Mas isso mudou nos últimos anos com a quantidade maior de açúcar proveniente de outros países que não têm capacidade de produzir o biocombustível, o que altera o equilíbrio de poder do mercado.

O resultado é que a indústria brasileira de etanol provoca um impacto menor nos preços do açúcar. Ou seja, as usinas do maior produtor deverão produzir mais biocombustível, mas isso não será suficiente para eliminar os excedentes globais, disseram traders na Dubai Sugar Conference, nesta semana.

A tendência se reflete na correlação do açúcar com o petróleo — depois de basicamente oscilarem juntos desde 2016, o açúcar não tem conseguido acompanhar a alta do petróleo desde meados do ano passado.

“Tentaremos consumir o excedente, mas temos um excedente maior que a nossa capacidade de limpar o mercado”, disse Ivan Melo, diretor comercial da Raizen, a maior produtora brasileira de açúcar e etanol. “O excedente não está apenas no Brasil.”

Excedente mundial

A oferta superará a demanda nesta temporada e na próxima, em parte devido a safras maiores na União Europeia e na Ásia, que está se recuperando de uma seca relacionada ao El Niño. Apesar da grande variação das estimativas, a maioria dos analistas acredita que esses excedentes vão superar o déficit dos dois anos anteriores.

A oferta mundial de açúcar aumentou 25 milhões de toneladas nos últimos sete anos, e a maior parte desse incremento vem de fora do Brasil, disse Paulo Roberto de Souza, CEO da produtora brasileira Copersucar, na conferência. Provavelmente esteja ocorrendo uma mudança de longo prazo rumo à expansão da produção fora do Brasil porque os governos estão apoiando um volume maior de produção doméstica, disse Toby Cohen, vice-presidente de análise de mercado da ASR Group, em entrevista.

Como o Brasil atualmente está na entressafra, a relação entre o açúcar e o petróleo deverá ganhar força novamente no início da próxima colheita, porque a alta do petróleo Brent rumo aos US$ 78 por barril, no fim de março, incentivará uma produção maior de etanol, segundo Tracey Allen, analista do JPMorgan Chase.

“Os aspectos econômicos da produção de etanol são muito difíceis de ignorar, especialmente à medida que nos aproximamos de abril”, disse Allen. “Com o avanço para o segundo trimestre, começaremos a ver o retorno dessa correlação.”

Oferta de açúcar

O mercado mais apertado para a oferta de açúcar bruto também pode ajudar a restabelecer a correlação, disse Marcelo de Andrade, chefe global de commodities cultivadas da Cofco International, em entrevista, em Dubai. O Brasil produz principalmente açúcar bruto e o excedente global é do tipo branco.

As usinas de açúcar da região Centro-Sul do Brasil produzirão 32 milhões de toneladas na safra 2018-2019, que começa em abril, contra 36 milhões de toneladas na temporada anterior. Mesmo se as fábricas ampliassem a capacidade de produção de etanol, o volume das usinas de açúcar provavelmente não ficaria abaixo de 30 milhões de toneladas, disse Soren Jensen, diretor de operações da Alvean, a maior trader de açúcar do mundo.

“Uma oscilação de 4 milhões de toneladas no Brasil normalmente faria o mercado disparar”, disse Tom McNeill, diretor da empresa de pesquisa Green Pool Commodity Specialists. “A magnitude da safra do Centro-Sul do Brasil como determinante da direção do mercado está menor neste ano.”


Fonte: Bloomberg - retirado do site Portos e Navios