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Fundo arrenda usina em Goiás e promete investir

Postado em 4 de Dezembro de 2020

A pacata Porteirão, cidade de pouco mais de 3 mil habitantes a cerca de 200 quilômetros de Goiânia, vai receber caras novas. A antiga Usina São Paulo, que operou na década passada e estava parada há seis anos após dificuldades no setor e envolvimento em um esquema de fraudes fiscais reveladas pela Operação Rosa dos Ventos, foi arrendada para um novo investidor.

Especializado em investir em ativos problemáticos, o fundo Downwind, comandado pelo advogado Márcio Barbero, arrendou pelos próximos 25 anos a unidade industrial, que agora passa a ter o nome de Goiás Bioenergia e voltará às atividades no ano que vem. Mas Goiás ainda terá quatro usinas sucroalcooleiras paradas, ante um parque total de 40, segundo dados dos Sindicatos da Indústria de Fabricação de Açúcar e de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg/Sifaçúcar).

O plano é começar a processar a cana de fornecedores da região a partir de junho de 2021, após R$ 60 milhões em investimentos na revitalização da indústria. Em 2022, Barbero pretende investir em uma linha para processar até 30 milhões de toneladas de milho por ano.

Numa terceira etapa, planejada para 2023, a estratégia é montar uma fábrica de açúcar para diversificar o portfólio. Os aportes devem somar R$ 265 milhões.

O plano deverá ter um forte impacto na economia local. A Goiás Bioenergia deverá gerar 1.480 vagas de emprego diretos e indiretos em um município em que a população com carteira assinada não chegava a 470 em janeiro de 2019, segundo dados do Caged. A quantidade de vagas estimada é praticamente metade da população de Porteirão. Assim, a usina também vai atrair trabalhadores de municípios vizinhos.

O fundo espera contar com benefícios fiscais para reativar a usina. A Goiás Bioenergia pediu apoio do programa Progoiás, que concede 73% de crédito sobre o valor devido de ICMS, e pediu o uso de crédito especial para investimento em equipamentos e serviços em até 40% do ICMS. A companhia ainda pleiteia empréstimo com o Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), a juros subsidiados.

O roteiro elaborado por Barbero busca abrir um novo capítulo na história da usina, marcada até então por envolvimento em acusações de fraudes que ainda não foram julgadas pela Justiça. Na denúncia da Operação Rosa dos Ventos, a Polícia Federal acusou o empresário Miceno Rossi Neto de criar um esquema de fraude de empréstimos e processos de execução entre várias empresas em nome de laranjas, entre elas a Usina São Paulo, para lavar dinheiro de sonegação.

A usina, que tinha dívidas com outra empresa atribuída pela investigação a Rossi Neto, a América Cobrança, acabou passando para as mãos de outra empresa também atribuída ao empresário, a Bioagro, através de um acordo de cessão de crédito e adjudicação na Justiça. Com a denúncia, os financiadores fecharam a torneira dos financiamentos. O arrendamento da usina foi acertado com a Bioagro.

Barbero afirma que o arrendamento foi uma operação comum de “distressed”, em que um investidor aposta em um ativo “problemático”, excluindo seus passivos. Dessa forma, pelos 25 anos em que a usina estiver sob o comando do Downwind, passivos anteriores, sejam eles tributários, trabalhistas ou fiscais, continuarão a ser de responsabilidade da Bioagro, e seus credores não terão direito sobre os ganhos da usina.

O negócio anterior do Downwind também envolveu um ativo “problemático”: terras na mesma região goiana, que estavam em garantia com o Banco ABC. Há dois anos, o fundo comprou o crédito do banco, ficou com as terras e criou a empresa Sottovento, que hoje cultiva cana no terreno e fornece para outras usinas.

Foi a experiência na área agrícola que abriu o apetite do fundo para a incursão na indústria. Mas o fator determinante para o aporte foi o contexto setorial e macroeconômico. “O mercado de etanol está aquecido, tem apelo de energia renovável”, avalia Barbero. No campo macro, os juros reais negativos e o câmbio favorável às exportações também injetou ânimo, afirma ele.

A expectativa é tão positiva que, para o primeiro ano, a projeção é alcançar um retorno sobre investimento de 16% a 18%. Conforme a operação ganhar corpo, o fundo deve buscar um sócio minoritário e ficar com 70% da empresa. E Barbero já vislumbra ampliar sua atuação no setor e comprar usinas em processos de recuperação judicial. “Em Goiás tem várias”, diz.


Fonte: Valor Econômico