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‘Futuro governo não pode fechar portas para o agronegócio’

"O agronegócio é o superávit da balança comercial brasileira", afirma Alexandre Mendonça de Barros, da MB Agro

Alexandre Mendonça de Barros lembra que no início dos anos 1990, quando era professor da USP, um vice-ministro de Agricultura da China visitou a universidade e foi muito claro quanto à postura de Pequim em relação à possibilidade de o país asiático se tornar um grande importador de produtos agropecuários: isso jamais aconteceria.

Naquele momento, a China não só tinha paranoia em relação à sua segurança alimentar como era exportadora líquida de alimentos, com superávit anual da ordem de US$ 2 bilhões. Mas sua gigantesca população continuou a crescer, a ganhar mais e a consumir produtos de maior valor agregado, o que obrigou a uma mudança de estratégia que, entre outros efeitos – o déficit comercial chinês nessa frente foi de US$ 80 bilhões em 2017 -, passou a beneficiar o Brasil, sobretudo a partir de meados da década passada.

Mendonça de Barros, hoje sócio-diretor da consultoria MB Agro, professor da Fundação Dom Cabral e um dos maiores especialistas em agronegócios do país, conta a história como um alerta: para um país tão dependente desse setor como o Brasil, é um erro tão grave entrar em conflito com parceiros como a China, entre outros, quanto vilipendiar a abertura de novos mercados.

Tanto quanto as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, afirma, a China foi fundamental para o desenvolvimento recente do Cerrado. Afinal, a forte demanda chinesa foi decisiva para catapultar a produção brasileira de soja – foram quase 120 milhões de toneladas na safra 2017/18, quatro vezes mais que no ciclo 2004/05 -, e esse avanço foi puxado pelas áreas do Centro-Oeste localizadas no bioma.

A partir desse forte crescimento, a soja se tornou o carro-chefe do agronegócio brasileiro tanto em valor bruto da produção, "da porteira para dentro", quanto nas exportações. De acordo com o Ministério da Agricultura, o VBP do grão deverá se aproximar de R$ 145 bilhões em 2018, enquanto a receita dos embarques está estimada em quase US$ 35 bilhões pelas indústrias do segmento (incluindo grão, farelo e óleo).

Diante desses números – e do fato de a China também ser grande importadora de carnes e ter potencial para ampliar as compras de um sem-número de produtos -, Mendonça de Barros reforça que é um grave equívoco do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) cogitar um endurecimento das relações com a China por causa da intenção daquele país de ampliar comércio e aportes no Brasil e, de alguma forma, ameaçar a soberania nacional.

Como o Brasil não tem o poder de barganha dos Estados Unidos nem os recursos de Washington para subsidiar agricultores prejudicados pelas rusgas comerciais provocadas pelo governo de Donald Trump, diz o agroeconomista, "é um absurdo imaginar entrar em conflito com os chineses".

Assim, ele recebeu com alívio a indicação de que sua preocupação é compartilhada pela deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), escolhida por Bolsonaro para ser a ministra da Agricultura de seu governo. Mas lembra que, se a embaixada da China no Brasil também encarou com bons olhos a posição da futura ministra, outras tantas esperam algum sinal positivo após declarações belicosas do presidente eleito.

"Os países árabes, por exemplo, já absorvem mais de 35% das exportações brasileiras de carnes bovina e de frango, e uma mudança da sede da embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém [outra ameaça de Jair Bolsonaro] põe em risco essas vendas. Não podemos fechar portas para o agronegócio, que responde por 23% do nosso PIB e é o superávit da balança comercial, com exportações que superam US$ 100 bilhões", afirma. "No comércio exterior, não pode ter bola perdida".

Ao mesmo tempo em que é melhor não bater de frente com parceiros fundamentais para o setor e para o país, diz Mendonça de Barros, o Brasil precisa ficar atento para aproveitar chances derivadas de cotoveladas entre outros parceiros. "Veja o México. Em consequência dos problemas que enfrentou com os EUA, abriu espaço para ampliar as importações de grãos e carne vermelha de outros países. Mais uma chance para o Brasil, que tem que estar presente em todos os mercados", acrescenta.

Para Alexandre Mendonça de Barros, o Brasil fez a lição de casa para se tornar o grande exportador de alimentos que é inclusive do ponto de vista ambiental, o que torna extremamente temerárias tanto uma eventual saída do país do Acordo de Paris (compromisso internacional para reduzir a emissão de gases de efeito estufa) quanto uma fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

São duas bandeiras que o futuro governo Bolsonaro aparentemente não vai mais perseguir, mas que já geraram desconfianças no front internacional. "Temos o plantio direto, fizemos o Código Florestal e temos uma matriz energética que pode ser considerada limpa. Temos competência tecnológica e empresários rurais competentes. O mundo já sabe disso e não podemos colocar essa percepção em risco".

Mendonça de Barros aprova as negociações comerciais bilaterais propostas pelo presidente eleito, mas ressalva que não é por isso que as negociações em bloco devam ser abandonadas. "A União Europeia, por exemplo, é um mercado tradicional do agronegócio brasileiro e tem potencial para ampliar as compras de produtos de valor agregado. E a Argentina é uma importante compradora de veículos e vendedora de trigo. Nem todos os interesses com esses parceiros estão alinhados, mas é preciso negociar e cultivar essas relações".

Por Fernando Lopes


Fonte: Valor Econômico