Clipping

Gasolina escassa, tempo acabando e sorte se esvaindo

Usando uma antiga expressão que se refere a quando algo não dá errado apenas pelo acaso, é possível dizer que até agora o Brasil teve mais sorte do que juízo sobre a deficiência da Petrobras na distribuição de gasolina de aviação (avgas) no País. Desde que a única linha de fabricação do produto parou de funcionar no final do ano passado, na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão/SP, a estatal vem importando o combustível e, a partir de então, distribuidoras administrarem carência e episódios de aeronaves paradas se tornaram comuns em aeródromos e escolas de aviação.

No caso da aviação agrícola, a primeira crise ocorreu em janeiro, quando aviões chegaram a parar em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Na época o Sindicato Nacional de Aviação Agrícola (Sindag) liderou um movimento cobrando solução pelo prejuízo eminente que representava para a safra. Apesar de insistentemente interpelada pelo setor na época, a Petrobras só se manifestou depois que o tema foi parar na imprensa nacional e entrou na pauta no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República – por questões estratégicas óbvias. E então se apressou a liberação de uma carga de combustível importada que estaria chegando ao Porto de Santos.

Não foi pior daquela vez porque no Sudeste e Centro-Oeste a frota aeroagrícola com motor a pistão é em sua maioria movida a etanol, de fábrica ou convertida – conforme Instrução Suplementar da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que permite a alteração. Ao mesmo tempo em que os aviões agrícolas maiores, com motor turboélice, são movidos a querosene de aviação (QAV). E, no Sul, onde a maioria dos aviões são a pistão e o preço do etanol não é tão vantajoso, o clima chuvoso deixou os aparelhos nos hangares exatamente a tempo de chegar a carga do tal carregamento liberado às pressas.

Mas desde então as distribuidoras passaram a trabalhar com menos combustível e a racionalizar as cargas, para que, sem abundância, não faltasse para ninguém. Já o tal “navio que está para descarregar no final de semanas em Santos” se tornou personagem constante nesse enredo, nos contatos entre distribuidores e transportadores de combustível e operadores aeroagrícolas que telefonassem preocupados com estoque baixo.

O tal “navio que está para descarregar no final de semanas em Santos” se tornou personagem constante nesse enredo…

O problema voltou a assombrar há cerca de duas semanas, com a notícia de que escolas de aviação ficaram sem combustível e alguns operadores de táxi aéreo estariam tendo dificuldade em abastecer suas aeronaves. Novamente, na falta de manifestação da Petrobras, o caminho em busca de informações está sendo via parlamentares no Congresso Nacional, Secretaria de Aviação Civil e até com o Sindag tendo manifestado sua preocupação no Conselho Consultivo da Anac, na última quinta-feira (13).

Voltando à expressão no início do texto, na falta de uma solução definitiva para a questão, o medo é que, além do juízo, acabe também a sorte. Isso porque a segunda maior frota aeroagrícola do País, no Rio Grande do Sul, é também a que tem a maior parcela de aviões dependentes de avgas e precisa operar com força total no final de agosto. Justamente o Estado que responde por 70% da safra de arroz do País (lavoura que depende quase 100%n da aviação, por ser irrigada), além e ser o terceiro maior produtor de soja (também dependente da aviação), para citar as principais.

Por Castor Becker Júnior

Castor Becker Júnior é jornalista formado pela Unisinos de São Leopoldo (RS), com especialização em Planejamento em Comunicação e Gestão de Crises de Imagem pela PUC/RS. Atuou por 14 anos em jornal diário, exercendo as funções de fotógrafo, repórter e editor assistente. Sócio da empresa C5 News Press, desde 2008 é encarregado da assessoria de imprensa do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Também assessorou por 12 anos o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos), tendo participado de diversos projetos ambientais da entidade e com várias publicações sobre o tema. Também atuou em rádio comunitária e foi diretor de Comunicação da antiga Federação Sul-Riograndense de Bombeiros Voluntários.

 


Fonte: Canal Rural