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Grande Encontro sobre Variedades de Cana contou com “pacote” de novidades e informações técnicas

Evento, realizado em Ribeirão Preto/SP, foi palco para debates sobre manejo varietal e lançamento de novos materiais e produtos

Informações detalhadas e debates aprofundados sobre o aproveitamento do potencial das variedades de cana, a apresentação de novos e recentes materiais – incluindo a cana transgênica – desenvolvidos pela pesquisa de melhoramento genético e cases de sucesso relacionados ao manejo varietal em unidades sucroenergéticas foram os destaques do 11º Grande Encontro sobre Variedades de Cana-de-Açúcar, realizado em Ribeirão Preto, SP, nos dias 27 e 28 de setembro. O evento, idealizado pelo Grupo IDEA, reuniu cerca de 400 pessoas, entre produtores de cana, profissionais de usinas, pesquisadores, consultores e executivos de empresas ligadas ao segmento. 

Segundo o diretor do Grupo IDEA, Dib Nunes, ao longo dos últimos anos, diversas empresas, devido às sucessivas crises em que o setor mergulhou e sob a bandeira da redução de custos, cortaram na carne muita coisa que não deveriam, como investimentos na reforma de canaviais e, consequentemente, na introdução de novas variedades, muito mais produtivas do que os “materiais tradicionais” utilizados em seus planteis.

Entretanto, ele afirma que, nos últimos meses, essas mesmas empresas finamente começaram a acordar para estes problemas e começaram a reconstruir o que a crise destruiu. “Já vejo um maior interesse das usinas e produtores por novas tecnologias e materiais mais produtivos e resistentes, que certamente trarão ganhos significativos ao setor.”

O Grande Encontro de Variedades de Cana-de-Açúcar deve ser uma peça fundamental nesta empreitada. “Espero que todos os profissionais tenham aproveitado bem o evento e absorvido os conhecimentos apresentados. Acredito que todos retornaram com aquele algo mais que, certamente, será o diferencial em suas vidas e nas empresas em que atuam.” 

Programas de melhoramento lançam novas variedades de cana-de-açúcar

Um dos destaques do evento foi a seção reservada aos programas de melhoramento genético, que apresentaram suas recém-lançadas - e também as futuras - variedades de cana-de-açúcar, que prometem devolver a competividade ao setor sucroenergético nacional. 

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) foi o primeiro a subir ao palco. Na ocasião, o diretor do Centro de Cana do IAC, Marcos Landell, apresentou a IACSP01-3127 e a IACSP01-5503, variedades em desenvolvimento desde 2001 e que chegam ao mercado canavieiro este ano. A grande característica de ambos os materiais é o fato de apresentaram, quando alocados nas condições recomendadas, ganhos agroindustriais cerca de 15% superiores quando comparados a RB867515. “São canas de altíssimo potencial e, por conta disso, deverão ser incluídas a um plantel varietal moderno, contribuindo para um grande salto de produtividade nos canaviais.”

Landell explica que a IACSP01-5503 é bastante rústica e muito competitiva em ambientes restritivos, caracterizados por solos de pequena capacidade de armazenamento de água e com baixa fertilidade natural. “O material se mantém produtivo de maio até novembro, o que constitui um grande benefício ao setor sucroenergético, por proporcionar um longo Período de Utilização Industrial (PUI).”

Já IACSP01-3127 é uma cana que apresenta alta performance em situações de manejo avançado, que inclui, por exemplo, o uso de vinhaça e outros resíduos orgânicos. Também viabiliza longo PUI, podendo ser colhida de maio até outubro. “Esse material é muito responsivo em ambientes favoráveis e em regiões onde a distribuição de chuvas é melhor”.

Em seguida, o Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-Açúcar da Universidade Federal de São Carlos (PMGCA/UFSCar), instituição pertencente à Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (RIDESA), apresentou as quatro futuras liberações que devem integrar o portfólio da Rede em 2018. Atualmente, esses materiais se encontram em fase final de validação. 

Uma delas, a RB005983, apresenta desenvolvimento rápido e precocidade, sendo voltada para o início de safra. Outra opção será a RB015935, que apresenta boa produtividade, sanidade, ausência de florescimento e isoporização, e possui ciclo de maturação precoce-médio. Para meio e final de safra, mais duas variedades: a RB975375, que é muito rica em açúcar, possui excelente brotação e alto perfilhamento; e a RB005014, que possui elevada produtividade, ótimo perfilhamento e excelente sanidade.

Lembrando que todos esses novos materiais apresentam boa adaptação à colheita mecanizada, que é inclusive uma das prioridades dos experimentos da RIDESA e de outros programas de melhoramento genético. A RB975375, mais rústica, atende ambientes C e D. As outras estão voltadas para ambientes mais exigentes, classificados como A, B ou C. 

Já os diversos benefícios proporcionados pelo plantio da variedade transgênica ALTHA20Bt, resistente à praga mais relevante da cultura - a broca da cana (Diatraea sacharalis) - foram abordados pela equipe do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Essa variedade de cana geneticamente modificada – a primeira do mundo – promete proporcionar ganhos financeiros significativos para usinas e produtores, já que a broca causa prejuízo de R$ 5 bilhões por safra. 

A eficiência da cana transgênica nas primeiras áreas avaliadas obteve um índice de 98,5%. “É quase 100%. Em áreas de alta pressão, há um ou outro dano de broca”, afirma o gerente de marketing do CTC, Ronaldo Onosaki. Nos experimentos realizados, o índice de infestação na cana geneticamente modificada ficou em 0,14%, enquanto o da cana convencional em 7,6%. 

O aumento da produtividade é outro dado importante. “Nas áreas avaliadas, houve um ganho de 10% de tonelada de cana por hectare (TCH). Nas canas convencionais, a média de produtividade foi 95 TCH, enquanto que, nas áreas da 20Bt, o número foi de 105 TCH”, revela Onosaki.

As variedades Vertix de cana-energia da Granbio também foram destaques. Por serem desenvolvidos a partir do cruzamento de espécies ancestrais e híbridos comerciais de cana-de-açúcar, os materiais de cana-energia são mais robustos, com maior teor de fibra e potencial produtivo, ideal para fabricação de biocombustíveis e bioquímicos de segunda geração e para geração e/ou cogeração de energia elétrica.

Para o diretor de tecnologia agrícola da GranBio, José Antônio Bressiani, uma das maiores vantagens é o fato de a cana-energia poder ser plantada em áreas com baixa aptidão agrícola, o que permite a exploração de regiões desfavorecidas, o aumento da produtividade por hectare, além de não competir com a produção de alimentos. Sua rusticidade permite ainda outros ganhos: a planta exige menos água e menos insumos para crescer. “Tudo isso, aliado a uma alta produtividade, faz da cana-energia uma das matérias-primas mais competitivas, atualmente.” 

Durante o evento, a Granbio apresentou, ainda, seus dois novos materiais - Vertix 3 e a Vertix 4 -, ambos adaptados à mecanização. Bressiani explica que a Vertix 3, voltada a produção de etanol 1G, alcança 115 kg ART/t de biomassa e possui 21% de fibra/t de biomassa. Já a Vertix 4, apropriada para a cogeração de energia elétrica, possui alta quantidade de rizomas e alcança 84 kg ART/t de biomassa e 24% de fibra/t de biomassa.

Usinas debatem o manejo varietal de suas unidades

Ao longo dos dois dias de evento, diversas usinas apresentaram seus cases de sucesso relacionados ao manejo varietal em suas unidades. O primeiro a palestrar foi o gerente de planejamento e desenvolvimento agronômico da Agrícola Nova América, José Francisco Fogaça, que abordou os critérios para a escolha das áreas para aplicação de maturadores. Segundo ele, primeiramente, o agrônomo precisa ir ao campo para conferir se o canavial está pronto, ou não, para receber o maturador. Além disso, deve-se avaliar o comportamento de cada produto e definir corretamente as épocas de aplicação.

Segredos do manejo varietal da COFCO Brasil foram contados pela gerente agrícola corporativa do Grupo, Patrícia Rezende Fontoura. Segundo ela, a COFCO busca variedades facilitadoras para plantio e colheita mecanizada, que tenham excelente brotação, perfilhamento e fechamento rápido, que sejam produtivas e com bom ATR e que mantenham população de colmos ao longo dos ciclos.

Para alcançar esses objetivos, Patrícia afirma que a COFCO já realiza algumas ações, como fortalecimento das parcerias com instituições de pesquisa, introdução de fases de multiplicação nas unidades, definição de prioridades, introdução de materiais potenciais através de MPB e tratamento térmico e rouguing. “Juntos, esses fatores serão o alicerce para obtermos produtividades de três dígitos na média de cinco cortes.”

Por mais de uma década, a RB867515 reinou soberana nos canaviais. Mas agora, começa  timidamente a sair de cena, dando espaço para variedades mais modernas e produtivas. É o caso do Grupo da Pedra. Segundo o gestor do Grupo, Sérgio Medeiros Selegato, embora a 7515 ainda apareça com boa presença nas áreas de cultivo das três unidades agroindustriais do Grupo, ela não será mais plantada a partir deste ano. Outros materiais que devem desaparecer em breve dos canaviais das usinas são: SP83-2847, SP80-1816, RB855453, CTC7, CTC2 e CTC15. Já as variedades que devem começar a ganhar mais espaço são: RB855156, CTC4, RB966928, CTC9001, CTC9003, IACSP95-5094, RB975375, RB975201 e RB975242. 

Já o gerente agrícola do Grupo Tereos, José Olavo Vendramini, falou sobre as tecnologias para rápida multiplicação de novas variedades de cana no Grupo. A principal delas é o laboratório de meristema, localizado na Unidade Cruz Alta, cuja capacidade de produção é de 400 mil mudas por ano. “Essa estrutura contribui grandemente para a multiplicação acelerada das novas variedades de interesse com qualidade e sanidade.” 

Entre os materiais que estão sendo rapidamente multiplicados e que devem compor os canaviais do Grupo em breve são: RB975242, RB975201, RB975952, RB985476, CTC9004 e CTC9005. “O rendimento agrícola (kg ATR/ha) desses novos materiais deve suplantar, e muito, o dos tradicionais.”

Fechando o evento com chave de ouro, dois grandes grupos canavieiros e uma agrícola participaram de um debate sobre manejo varietal. Foram eles a Coruripe, a Odebrecht Agroindustrial e a Agrícola Nova América. Entre os assuntos abordados, destacaram-se os materiais que poderiam substituir a RB867515 nos canaviais e os atuais desafios dos programas de melhoramento genético brasileiros.

Multinacionais deram show de tecnologia

Lançamentos de novos produtos e novas técnicas de manejo também não faltaram durante o evento. A Syngenta abordou a eficiência do fungicida Priori Xtra no combate as doenças aéreas da cana-de-açúcar. A utilização do produto é extremamente viável para os produtores e usinas, pois, além de impedir os altos níveis de dano econômico decorrentes das doenças, ainda permite que as variedades atacadas continuem sendo utilizadas. Além do fungicida, a multinacional falou ainda sobre sua tecnologia de Mudas Pré-Brotadas (MPB) Plene PB, ótima solução para o plantio de Meiosi (Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente) e revitalização do canavial; e sobre o SmartBio, software que promete revolucionar o manejo de pragas e doenças da cana-de-açúcar, devido a sua capacidade de gestão de dados, que pode chegar a mais de três milhões. 

A Euroforte Agrociências apresentou o BVI (Baixo Volume Integral), sua linha de fertilizantes foliares na forma de calda nutritiva pronta superconcentrada, viscosa e que não necessita de qualquer diluente. O BVI-cana tem como característica a nutrição intensiva com micronutrientes, o estímulo do metabolismo de desenvolvimento e do vigor da planta, a diminuição da perda de perfilhos, uma maior produtividade TPH (Toneladas de Pol por Hectare), ATR (Açúcar Total Recuperável) e TCH e um maior aproveitamento dos micronutrientes da adubação mineral.

Já a DuPont falou sobre nutrição associada ao Curavial para obtenção de maiores ganhos de ATR com aumento de produtividade. O maturador é conhecido como uma das melhores ferramentas para o gerenciamento da colheita de cana-de-açúcar, proporcionando ganhos com maior rapidez.

A IHARA apresentou o Riper, um maturador com ação rápida e eficaz na gestão do parque de processamento proporcionando maior produção de toneladas de açúcar por hectare (TAH). Segundo Rodrigo Naime, o produto permite ao agricultor o melhor planejamento da colheita, pois proporciona aumento nos níveis de ATR e manutenção desses índices por um período maior. "O Riper proporciona ao agricultor tanto a opção da colheita antecipada como a colheita tardia da cana, pois aumenta os níveis de ATR a partir da segunda semana após aplicação e os mantém estáveis por um período maior.”

Já o engenheiro agrônomo da Bayer CropScience, Maurício Oliveira, abordou o problema da isoporização, que independe do florescimento para colocar em risco a produtividade do canavial. Por isso, é preciso estar atento em todos os momentos. Ethrel é o regulador de crescimento com tecnologia Bayer que controla a isoporização e proporciona a qualidade da cana. 

A PangeiaBiotech, focada na produção de plantas transgênicas de cana, milho e soja, também teve seu espaço no evento.  Essa startup desenvolve soluções integradas para resistência a herbicida e inseto-pragas em cana transgênica. Ao contrário de milho, soja e algodão, não existe ainda a aplicação da engenharia genética em variedades de cana comerciais, principalmente pela dificuldade e alto custo de produção das plantas transgênicas. Essa startup soluciona esse gargalo de forma rápida, eficiente e com custo altamente competitivo.

Por fim, a ALTA apresentou o EVOS, um fungicida que age com elevada seletividade e proporciona o pleno desenvolvimento da cana, preservando sua sanidade e qualidade ao controlar podridão-abacaxi e as ferrugens.

 


Fonte: CanaOnline