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Ibovespa cai 10% e negociação de ações é interrompida por meia hora

Postado em 9 de Março de 2020

São Paulo – O Ibovespa, principal índice acionário da bolsa brasileira B3, recuou 10% na primeira meia hora de negócios desta segunda-feira, para 88.178 pontos, o menor nível desde dezembro de 2018. A baixa de 10% acionou o mecanismo de “circuit breaker”, que mantém as transações paralisadas por meia hora para esfriar os ânimos. A bolsa brasileira está acompanhando as quedas das asiáticas e europeias hoje. Em meio ao pânico com o coronavírus, que tem castigado os mercados em todo o mundo desde fevereiro, agora também a baixa do petróleo faz os investidores correrem dos investimentos considerados mais arriscados, como as ações, para buscar refúgio em aplicações tidas como seguras. O índice Standard & Poor’s 500, de Nova York, também suspendeu as negociações após sua queda bater em 5%.

No início do pregão da B3 de hoje, a ação preferencial da Petrobras chegou a recuar 24%, para 17,36 reais, antes de as negociações serem suspensas. A petroleira é a empresa mais importante da B3, com peso de cerca de 10% no Ibovespa. Depois, vem o Itaú Unibanco, que chegou a perder 6%, a 34,26 reais.

Se, na volta das transações após a parada de meia hora, às 11h02, a baixa chegar a 15% em relação ao fechamento de sexta-feira, os negócios são paralisados por mais 1 hora. Caso as perdas encostem em 20%, a B3 decide por quanto tempo as transações ficarão suspensas. A última vez em que esse mecanismo tinha sido acionado foi na manhã de 18 de maio de 2017, o Joesley Day, quando a notícia de que um dos donos da processadora de alimentos JBS, Joesley Batista, havia gravado uma conversa com o então presidente da República Michel Temer na qual o político admitia práticas de corrupção. Os crimes poderiam levá-lo ao impeachment, ameaçando os trâmites da reforma da Previdência, vista como chave para acelerar o crescimento da economia do país.

Antes da queda de hoje, o Ibovespa já havia perdido 17% neste ano. Na sexta-feira, com grandes incertezas em relação à disseminação do coronavírus, o índice recuou 4,1%. Más notícias sobre a epidemia surgiram no final de semana, com a Itália isolando 16 milhões de pessoas na região norte do país após as infecções superarem 7 mil e as mortes baterem erm 360. Porém, a disputa sobre o preço do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita pegou os mercados de surpresa.

A estatal saudita Saudi Aramco anunciou no sábado um plano de cortar o preço do petróleo em 20%. O barril de petróleo do tipo Brent, que serve de referência para os preços, apresentava queda de 21% às 10h40 desta segunda-feira, a 35,81 dólares. Mais cedo, chegou a cair quase 34%, negociado a 27,34 dólares, o menor valor desde fevereiro de 2016.

O anúncio da Saudi foi feito em meio a uma guerra interna entre os produtores de petróleo. Com a queda no consumo global gerada pelo coronavírus, os sauditas propuseram uma redução na produção na última reunião da Opep (que reúne os maiores produtores de petróleo), mantendo ou aumentando preços.

Os russos foram contra, uma vez que seu orçamento é mais preparado para um cenário de preços baixos, segundo o analista Thiago Duarte, do banco BTG Pactual. Em retaliação, os sauditas decidiram aumentar sua produção de petróleo em 10 milhões de barris por dia, aumentando a oferta mesmo em um cenário de consumo baixo.

A guerra por mercado está declarada. Essa disputa, que joga ainda mais incerteza sobre os mercados globais, é reflexo claro dos impactos do coronavírus. O banco de investimentos americano Goldman Sachs espera redução de 150.000 barris de petróleo na demanda global, e crescimento zero na demanda da China. Além disso, a Saudi decidiu ir adiante mesmo sem aval da Opep, o que, na prática, destrói o potencial de acordo e a importância do grupo, que conseguiu chegar a acordos nos últimos três anos.

Com tanta tensão, as bolsas asiáticas fecharam em queda nesta segunda-feira. Na China, os índices de Shenzhen e Xangai caíam 4,09% e 3,01%, respectivamente, enquanto Hong Kong caiu 4,23%. O japonês Nikkei caiu 5,07% e, na Austrália, o principal índice caiu 7,33%. A bolsa de Londres perdia 8,4% e a de Nova York, 5,9%.

Enquanto os produtores de petróleo estão longe de um acordo sobre as desavenças do fim de semana, os casos de coronavírus chegaram a 110.146 infectados no mundo, com mais de 30.000 pacientes fora da China — e que representam a maioria dos novos casos recentes.

A Itália, onde há mais de 7.300 infectados, colocou parte de sua população em quarentena neste fim de semana. Após queda acumulada de quase 6% na semana passada, o Ibovespa não poderia começar a semana com presságios piores para os próximos dias.


Fonte: Redação EXAME