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Importação de etanol esbarra no câmbio e no alto preço externo

Postado em 15 de Setembro de 2020

A abertura da nova cota temporária para a importação de etanol de fora do Mercosul sem a tarifa de 20% não deve resultar, no curto prazo, em volumes significativos chegando à costa brasileira. Segundo analistas, mesmo sem a tarifa a importação, atualmente o produto perde competitividade por causa do dólar elevado e pelos preços praticados nos EUA, que estão se recuperando do baque provocado pela pandemia.

Hoje, o etanol anidro - o tipo importado pelo Brasil dos EUA, para adição na gasolina - pode chegar daquele país ao Nordeste, principal porta de entrada do biocombustível de fora, por R$ 2.490 o metro cúbico (com imposto, mas sem custos de internalização), segundo indicador da consultoria Argus.

Considerados esses custos, o valor supera os preços do etanol anidro produzido nas usinas e colocado nos terminais do porto de Suape, em Pernambuco, que na primeira quinzena de setembro oscilaram entre R$ 2.515 e R$ 2.546 o metro cúbico. Nas usinas do Estado, o preço (sem impostos nem frete) é menor: R$ 2,1678 o litro, de acordo com indicador Cepea/Esalq da semana passada.

Para a segunda metade de setembro, a Datagro estima que o preço interno de etanol estará US$ 85 o metro cúbico mais barato do que um produto importado sem tarifa. Nos próximos meses, essa diferença pode até encolher, mas a relação não vai se inverter, afirma Plinio Nastari, presidente da consultoria. “Essa extensão da cota provavelmente deve ter pouco impacto para viabilizar algum volume adicional de importação”.

A nova cota deverá expirar na primeira quinzena de dezembro, 90 dias após a publicação da decisão - o que não aconteceu até ontem. Mas, mesmo que o benefício seja estendido por mais tempo, não deverá haver “janela” para a importação de etanol sem tarifa ao menos até fevereiro. Para janeiro e fevereiro, o produto importado dentro da cota deverá chegar US$ 50 mais caro que o etanol nacional, segundo a Datagro.

O dólar elevado e a recente recuperação do etanol na bolsa de Chicago estão apreciando o produto importado, segundo Nastari. Mesmo com a entrada, agora, da safra americana de milho (matéria-prima para o etanol nos EUA), os preços do grão estão encontrando suporte após o corte de 10 milhões de toneladas na estimativa de produção do departamento de agricultura americano (USDA), o que dificulta uma queda do etanol. Ontem, os contratos do etanol para outubro fecharam em US$ 1,306 o barril, enquanto, em abril, os futuros caíram abaixo de US$ 1 o barril.

O câmbio também não dá sinais de arrefecimento. Segundo Nastari, o dólar teria que cair para R$ 4,60 para que o etanol importado dentro da cota fosse competitivo no Brasil - algo, neste momento, fora do horizonte de qualquer economista. No último boletim Focus, a previsão é que o dólar ficará em R$ 5,25 no fim deste ano. Ontem, a taxa fechou em R$ 5,2759.

A falta de uma “janela” favorável às importações pelos próximos meses não significa que o Brasil não vá importar nenhuma carga. O Nordeste, que consome mais etanol do que produz, deverá importar 900 milhões de litros na safra que começou este mês, a 2020/21.

“Mas essa importação vai acontecer para abastecer o mercado do Nordeste. Como a produção da região vai até o fim de fevereiro e começo de março, é muito provável que de abril a agosto haja importação”, afirmou Nastari.

Para esta safra, a consultoria estima que o consumo total de etanol (anidro e hidratado) no Nordeste será 4,5 bilhões de litros (2,7 bilhões de anidro), ante uma produção de 2,06 bilhões de litros. Assim, além da importação, o Nordeste também deverá receber 1,6 bilhão de litros do Centro-Sul, projeta.

Mesmo assim, as usinas do Nordeste temem que a importação pressione o mercado. Nas últimas safras, o valor do anidro não ofereceu lucro às unidades da região e só passou a gerar margem positiva na safra passada, cobrindo custos, depreciação e remunerando o custo de capital fixo, segundo a consultoria Pecege.

 


Fonte: Valor Econômico