Clipping

Indústria de matérias-primas biológicas quer estar mais próxima do consumidor

Postado em 24 de Janeiro de 2019

Num momento em que emergem novas lideranças políticas ao redor do mundo que questionam as relações comprovadas entre mudanças climáticas e emissões de gases estufa derivadas de ações humanas, sobretudo a partir do uso de fontes fósseis de energia, a indústria que recorre a matérias-primas biológicas renováveis acredita que é hora de apelar ao público consumidor.

"A população ainda não sabe do que estamos falando", afirma Maurício Adade, presidente da multinacional holandesa DSM para a América Latina, em entrevista ao Valor. Ele acaba de assumir a presidência do conselho da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI), que até dezembro do ano passado era chamada de Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial. O principal desafio da entidade, afirma, é coordenar esforços para convencer os consumidores sobre a importância do segmento, que atua com organismos vivos em substituição aos derivados fósseis, o que implica, também, valorizar os "bioprodutos" pelas vantagens ambientais.

"Existiram no passado muitas controvérsias sobre o benefício da biotecnologia, e ainda existe uma pequena conotação negativa", avalia Adade, que acredita que isso acontece por desinformação. "Temos que traduzir ao público que tudo o que começa com ‘bio’ é o que faz o mundo melhor. Quem tem uma visão mais holística do que vai acontecer com esse planeta está investindo em biotecnologia", defende.

A eleição do executivo da DSM – companhia que atua em diversos segmentos, desde alimentos humanos e rações, biocombustíveis, embalagens, cosméticos, fragrâncias, até vestimentas – para comandar pelos próximos dois anos a estratégia do segmento também denota a ampliação do escopo da ABBI, que até então estava focada em participar de debates sobre biocombustíveis.

Embora a frente de atuação junto ao público amplo seja considerada a mais desafiadora, não menos importante deve ser a articulação dessa indústria com o governo Bolsonaro. "Temos que demonstrar que o desenvolvimento econômico está intimamente ligado à bioeconomia no Brasil", indica Adade.

O executivo diz que está com um "otimismo cauteloso" quanto ao futuro do país e se identifica com algumas bandeiras levantadas pelo atual governo, como atração de investimentos estrangeiros e desburocratização. Nesse sentido, ele acredita que poderá haver maior celeridade nos processos envolvendo propriedade intelectual no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

"Isso já avançou com a criação das patentes verdes, mas pode avançar mais", diz. Criadas em 2012 (no governo Dilma), as patentes verdes garantem que pedidos relacionados a tecnologias renováveis passem na frente na fila de aprovação do INPI. Para ele, é preciso que o órgão crie critérios para a aprovação mais rápida de biotecnologias já admitidas em outros países.

Só isso, porém, não parece suficiente para fomentar mais investimentos na indústria renovável. Adade critica, por exemplo, a falta de isonomia de tratamento do poder público entre a indústria fóssil e a de renováveis. "A indústria do petróleo tem subsídios que nós não temos. Nós não queremos tirar o subsídio de um setor e trazer para outro, mas é preciso ter isonomia", defende. Essa distorção, avalia, faz parte da ausência ainda hoje existente de uma política de Estado voltada à "bioinovação".

Enquanto essa agenda não é construída, Adade acredita que o crescimento da indústria de matriz biológica renovável é um caminho sem volta. "Não tendo incentivo, não significa que não se fará nada. Mas quanto mais incentivos, maior o crescimento. Por isso temos que demonstrar os benefícios da biotecnologia", afirma.

Por Camila Souza Ramos

 

 

 


Fonte: Valor Econômico