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Itaú cria estrutura para operar em energia

Postado em 13 de Janeiro de 2020

O Itaú Unibanco vai entrar no setor elétrico, de olho numa maior abertura do mercado livre nos próximos anos. Os planos são ambiciosos. O maior banco do país está montando uma comercializadora, quer desenvolver produtos relacionados à commodity e não descarta, no futuro, vender energia diretamente a seus clientes pessoa física por meio de aplicativo.

O primeiro passo concreto é a abertura de uma mesa de comercialização de energia, confirmou o banco ao Valor. Esse movimento depende ainda de autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e de uma comunicação ao Banco Central (BC), mas a expectativa do Itaú é que a área se torne operacional no fim do primeiro semestre.

Para conduzir a estratégia, o Itaú contratou Oderval Duarte, especialista em energia que montou e liderou, durante 15 anos, a mesa de comercialização do ativo no BTG Pactual. O executivo chegou ao banco na semana passada para ser o titular da recém-criada diretoria de comercialização de energia, que ficará vinculada à tesouraria.

“O objetivo de curto prazo é que o banco seja uma contraparte relevante de nossos clientes nas operações de compra e venda de energia”, afirma Duarte, em entrevista ao Valor.

No mercado de energia livre, há muita volatilidade de preços e, no diagnóstico do banco, uma estrutura de garantias inadequada. É nesse espaço que o Itaú pretende entrar, usando seu balanço para mitigar riscos de clientes. “No fim das contas, é um mercado com risco de crédito”, diz Christian Egan, diretor-executivo de mercados globais e tesouraria do Itaú BBA.

Os executivos apostam numa aproximação entre os mercados financeiro e de energia ao longo dos próximos anos no Brasil. A ideia, segundo Egan, é que o Itaú seja parte importante desse processo. “Acreditamos que esse mercado vai se desenvolver, da mesma forma que se viu com outros mercados, como o de títulos públicos. Queremos contribuir. Temos profundo conhecimento setorial, fortaleza de balanço e experiência em gerenciamento de riscos”, diz o responsável pela tesouraria.

O mercado livre movimenta mais de R$ 130 bilhões por ano e representa 30% da energia consumida no país, mas a comercialização do ativo ainda é pouco sofisticada, feita em balcão. Não há um preço de tela para a commodity nem uma oferta de derivativos relacionados. Porém, existem discussões no governo e na Aneel para aprimorar o sistema de garantias, o que ajudaria a criar um ambiente mais favorável. Caso se avance nesse caminho, o natural é que lá na frente haja uma bolsa de energia e uma clearing que faça as vezes de contraparte central, mitigando os riscos financeiros.

Enquanto isso, a regulamentação já está mudando no sentido de estender o mercado livre - em que o cliente pode escolher seu fornecedor - a um número maior de consumidores. Em dezembro, uma portaria do Ministério de Minas e Energia determinou que, partir de 2023, já serão consumidores livres todos aqueles com demanda superior a 500 kW (uma empresa de pequeno porte). O mesmo documento prevê a realização de estudos com vistas a abrir o mercado para clientes residenciais a partir de 2024.

Essa abertura, de acordo com Duarte, vai criar novas possibilidades de serviços para o Itaú - inclusive a venda de energia para os clientes pessoa física da instituição. “Por que não ter um botãozinho no aplicativo em que você consegue comprar sua própria energia?”, sugere.

Mas isso não é para já. Por enquanto, a estratégia do banco está voltada aos clientes do atacado, sejam eles grandes consumidores de energia ou empresas do setor elétrico. De acordo com Egan, a oferta de produtos de energia vai complementar a atuação do Itaú BBA em crédito, mercado de capitais e financiamento de projetos. “Posso, por exemplo, financiar a implantação de um parque eólico e comprar a energia que ele gerar”, diz.

Com uma equipe que deverá ter entre dez e 15 pessoas, a mesa vai atuar no mercado brasileiro. Por enquanto, não há planos de levar o modelo a outros países da América Latina em que o Itaú tem operação.

A nova área não é a única incursão do Itaú no setor elétrico. Em dezembro de 2018, o banco fez aporte de R$ 600 milhões na Energisa Participações, ficando com 12,3% do capital total. No fim do ano passado, injetou R$ 1 bilhão na Equatorial Distribuição, ficando com 9,9% da empresa, que atua no Maranhão e no Pará. Nos dois casos, as operações tiveram o objetivo de melhorar a liquidez das companhias.

Segundo Egan, essas são estratégias do banco de investimentos do Itaú BBA, e não têm relação com a estratégia do banco para a comercialização de energia.

Em outra frente, a Itaúsa - holding controladora do Itaú - fez uma grande aposta no setor de gás liquefeito de petróleo (GLP) no ano passado. A companhia adquiriu 49% da Copagaz, que por sua vez liderou o consórcio vencedor da disputa pela Liquigás. A empresa da Petrobras foi vendida por R$ 3,7 bilhões.

 


Fonte: Valor Econômico