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Liderança do setor sucroalcooleiro crê em dias melhores

Postado em 27 de Março de 2019

Após mais de meia década de retração de produção e renda no segmento sucroalcooleiro, o otimismo voltou a dominar os dirigentes do segmento. Seja pela provável concretização da primeira política nacional de valorização da "externalidade positiva" do etanol, seja pelas reformas prometidas pelo governo Bolsonaro, Marcelo Ometto, da mais tradicional família de usineiros do país, assumiu ontem a presidência do conselho da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) vislumbrando uma recuperação e pronto para retomar os planos de tornar o biocombustível uma commodity global.

Um dos três acionistas controladores da São Martinho e presidente do conselho da companhia desde o ano passado, o empresário, de 57 anos, afirmou, em entrevista ao Valor, que a interlocução com Brasília deve ser prioridade da Unica, sobretudo diante da necessidade de garantir "previsibilidade" para investimentos na área. A entidade também trocou de presidente há um mês e o cargo foi assumido por Evandro Gussi, ex-deputado responsável por apresentar o projeto de lei que criou o RenovaBio, para reforçar o diálogo do segmento com o governo.

Marcelo ponderou que "[a política] sempre foi um ponto de atenção, mas que agora é uma preocupação boa, para melhor", uma alusão ao período em que os preços da gasolina não eram reajustados, o que minou a competitividade do etanol nos postos. Ele demonstra cautela, entretanto, ao avaliar os sinais emitidos pela gestão de Jair Bolsonaro.

"Nossa expectativa era que o país fosse mudar em pouco tempo, mas isso não é possível. Demanda trabalho e dedicação, como tudo na vida", afirmou. O empresário classificou a equipe do governo como "qualificada" e ressaltou o papel positivo da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, mas disse que vê como "ponto de atenção" a "disputa entre os poderes". "Sem vontade política e esforço, não se chega a um denominador comum", disse.

Pelos últimos cálculos do Ministério da Agricultura, o valor bruto da produção de cana no país ainda cairá em 2019 para R$ 56,8 bilhões, R$ 18 bilhões a menos que o recorde de 2017, quando os preços do açúcar ofereceram algum alívio.

Até o momento, o governo não conseguiu levar para frente uma das demandas mais urgentes do segmento, que é a negociação com os EUA sobre a flexibilização das cotas de açúcar e etanol dos dois países. Apesar da recente visita de Bolsonaro a Washington, a pauta não foi sequer mencionada.

Marcelo não crê que a janela de negociações esteja fechada, mas defendeu que, sem acordo, o Brasil deve taxar toda a importação de etanol - que custou US$ 743,3 milhões ao país em 2018, quando houve superávit nessa frente de US$ 148,8 milhões, após um déficit de US$ 90 milhões em 2017. "Quando retiramos a taxa da importação, havia a perspectiva de que os EUA se abrissem ao açúcar e ao etanol brasileiro, com o E15, mas isso não ocorreu."

Apesar da defesa "protecionista", ele acredita que o etanol ainda pode se tornar uma commodity mundial, e enxerga sinais que corroboram essa tendência.

"Os indianos já vieram nos visitar na Unica, e querem produzir etanol. Hoje eles dependem de importação de petróleo", afirmou. Marcelo acredita que o Brasil pode "exportar" seu modelo de produção de etanol a países da Ásia com histórico de subsídio ao açúcar, como Tailândia, China e Paquistão, além da Índia, e acredita que é possível, mais adiante, firmar acordos bilaterais para facilitar esse comércio. 

 

 

 

 


Fonte: Valor Econômico