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Linha do BNDES de socorro a usinas fica sem demanda

Postado em 22 de Julho de 2020

Única medida de apoio concedida pelo governo federal ao setor sucroalcooleiro para atravessar a crise provocada pelo coronavírus, a linha de financiamento de R$ 3 bilhões para estocar etanol, anunciada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) há mais de um mês, não recebeu até o momento nem um pedido sequer de acesso ao recurso, de acordo com as informações enviadas ao Valor pelo banco de fomento.

Questionado quanto ao motivo da ausência de demanda, o BNDES avaliou que foi a "melhora da situação do mercado de combustíveis ocorrida após o lançamento do produto", que refletiu a desvalorização do dólar, a alta do petróleo e a recuperação da demanda.

Mas, quando a linha de financiamento foi colocada na praça, no início de junho, os preços do etanol no mercado já estavam acima dos preços de referência da linha, que são de R$ 1,54 o litro para o etanol hidratado e R$ 1,62 o litro para o etanol anidro. O preço de referência é o que o BNDES garante à usina pelo etanol estocado.

Na época do anúncio, o indicador Cepea/Esalq para o etanol hidratado vendido pelas usinas de São Paulo estava em R$ 1,622 o litro, enquanto o indicador do etanol anidro estava em R$ 1,8059 o litro. O único mercado acompanhado pelo Cepea em que os preços estavam - e ainda estão - abaixo dos valores de referência da linha de financiamento é o de etanol hidratado em Goiás, para vendas internas. E, de lá para cá, os preços do etanol pouco oscilaram nos mercados das regiões Centro-Sul e do Nordeste.

O descompasso explica-se pela demora do BNDES em apresentar a linha às usinas. O setor havia começado a reivindicar um apoio financeiro no fim de março, mas só foi atendido mais de dois meses depois. Na época do anúncio, o chefe do departamento do Complexo Agroalimentar e Biocombustíveis do BNDES, Mauro Mattoso, disse que as condições do mercado haviam melhorado desde que o banco e outras instituições financeiras começaram a desenhar o produto e já antevia uma demanda baixa.

Desde o anúncio da linha, na primeira semana de junho, a cotação do petróleo Brent já subiu quase 9% e o dólar apreciou-se em cerca de 6%, o que incentivou a Petrobras a realizar sucessivas elevações no preço da gasolina A vendida nas refinarias, acumulando alta de 13%. Neste momento, o preço do combustível vendido pela estatal já está acima do valor de um ano atrás.

O mercado de combustíveis também está saindo progressivamente do fundo do poço atingido em abril, quando registrou quedas de mais de 50% nas vendas. Em junho, o consumo de combustíveis indicava volume 12,6% menor do que um ano atrás, conforme dados preliminares da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) compilados pela União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica).

Mas a situação do mercado de etanol não teria melhorado se não fosse o desempenho excepcional do mercado de açúcar, que tem apresentado produção e exportação aquecidas, ressaltou Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica. Tanto que, das 229 milhões de toneladas de cana processada do início da safra 2020/21 até o fim de junho, 46% do caldo foi direcionado à produção de açúcar, ante 35% no mesmo período da safra passada. "Se não tivesse essa situação do adoçante, a capitalização com o açúcar seria menor e as usinas teriam que produzir mais etanol, o que levaria a uma guerra de preço com a gasolina", disse o diretor técnico da Unica.

Mas alguns aspectos do formato da linha também foram avaliados como pouco atrativos por algumas usinas. Em recente entrevista ao Valor, o presidente da CerradinhoBio, Paulo Motta, disse que o prazo de dois anos para garantir etanol em estoque era um fator que dificultava o acesso, já que as usinas vendem todo o biocombustível produzido até o fim da entressafra. O executivo também criticou a exigência para oferecer 150% da produção em garantia e ainda por um preço que considerou baixo.

Outra crítica comum no setor, feita quando a linha foi anunciada, era que, ao compartilhar o financiamento com bancos privados, o BNDES estaria restringindo o acesso do recurso, já que muitas usinas ou estão em recuperação judicial, ou não têm acesso ao sistema financeiro por causa de endividamentos anteriores, embora sejam as que mais precisem de apoio.

A linha para estocagem continuará disponível para tomada de recursos até o fim de setembro. Porém, com a evolução dos mercados de petróleo e açúcar até o momento e com o cenário de recuperação, ainda que moderada, do consumo de combustíveis, a perspectiva é que boa parte dos R$ 3 bilhões não sejam acessados, afirmou Padua.

Em projeções divulgadas nesta semana, a consultoria Pecege avaliou que os preços do etanol hidratado tendem a subir nos próximos meses com a redução da produção mesmo no cenário de recuperação mais lenta da demanda. No cenário mais pessimista, a Pecege estimou que o estoque de etanol em dezembro ficará pouco abaixo do registrado no fim de 2019, o que tende a facilitar a recuperação de preços.


Fonte: Valor Econômico